ANTES DE LER É BOM SABER...

Este blog - criado em 2008 - não é jornalístico, embora contenha alguns conteúdos que navegam levemente nessas águas. Os textos são de autoria de Luís Carlos Freire, o qual descende do mesmo tronco genealógico da escritora Nísia Floresta. Esse parentesco ocorre pela parte das raízes da mãe do autor deste blog, Maria José Gomes Peixoto Freire, neta de Maria Clara de Magalhães Fontoura, trineta de Maria Jucunda de Magalhães Fontoura, descendente do Capitão-Mor Bento Freire do Revoredo e Mônica da Rocha Bezerra, dos quais descende a mãe de Nísia Floresta, Antonia Clara Freire. Essas informações são encontradas no livro "Os Troncos de Goianinha", de autoria de Ormuz Barbalho Simonetti, um dos maiores genealogistas brasileiros. O referido livro pode ser pesquisado no Museu Nísia Floresta, no centro da cidade. Luís Carlos Freire é especialista na obra de Nísia Floresta, membro da Comissão Norte-Riograndense de Folclore, sócio da Sociedade Científica de Estudos da Arte e da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência. Possui trabalhos científicos sobre a intelectual Nísia Floresta Brasileira Augusta, publicados nos anais da SBPC, Semana de Humanidade, Congressos etc. É autor de 'História do Município de Nísia Floresta', 'Cultura Popular em Nísia Floresta', 'A linguagem Popular em Nísia Floresta', dentre inúmeros trabalhos na área de história, lendas, costumes, tradições etc. Uma pequena parte das referidas obras ainda não estão concluídas, mas o autor entendeu ser útil disponibilizá-la neste blog, enquanto as conclui. Algumas são inéditas. O acesso permite aos interessados terem ao menos uma boa noção daquilo que buscam, até porque existem situações em que certos assuntos não são encontrados nem na internet nem em outro lugar. Algumas pesquisas são fruto de longos estudos, alguns até extensos e aprofundados, pesquisados em arquivos de Natal, Recife, Salvador e na Biblioteca Nacional no RJ. O autor estuda a história e a cultura popular da Região Metropolitana do Natal. Esse detalhe permitirá ao leitor encontrar informações históricas sobre a intelectual Nísia Floresta Brasileira Augusta, sobre o município homônimo, situado na Região Metropolitana de Natal/RN, além de crônicas, artigos, fotos poemas, etc. É PERMITIDO COPIAR TEXTOS DESTE BLOG, DESDE QUE A AUTORIA SEJA MENCIONADA. OBS. Só publico comentários que contenham nome completo, e-mail e telefone, pois repudio anonimato.

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

LENDA - A CASA DE FARINHA DA LAGOA DO BONFIM

OBSERVAÇÃO: QUERO PEDIR DESCULPAS AO LEITOR, POIS, SOMENTE AGORA, APÓS CONSTATAR MAIS DE 200 VISUALIZAÇÕES, FOI QUE PERCEBI QUE HAVIA POSTADO O TEXTO INCORRETO.   QUEM LEU ESTA LENDA ANTES DO DIA 31 DE AGOSTO/16, LEU-A INCOMPLETA.    EU ME EQUIVOQUEI;  COPIEI E COLEI O RASCUNHO, AO INVÉS DO TEXTO PRONTO. SÓ HOJE PERCEBI MEU DESCUIDO E POSTEI O TEXTO CORRETO. SÃO OS OSSOS DO OFÍCIO! QUEIRAM DESCULPAR-ME.

Há muitos e muitos anos um jovem paulistano, por nome Epaminondas, chegou à Papari a bordo no navio Olímpia, aportando na praia de Búzios. Ele descendia de primeira e segunda geração de portugueses que chegaram ao Brasil e estabeleceram-se na Vila de São Paulo. Veio em busca de ouro, e inicialmente fixou-se nas proximidades do litoral, perquirindo cada pedacinho que andava em busca de seu intento.
Aos poucos foi penetrando as matas mais distanciadas, instalando-se às margens de uma bela nascente, chamada pelos índios de "Puxi", cujas águas piscosas e mansas eram tão convidativas que forçavam a permanência de qualquer cristão. Ali ele fez uma choupana que servia-lhe de morada provisória, enquanto percorria a região em busca do metal preciso
O local ficava no sopé de uma montanha envolta por mata fechada, próxima de uma aldeia. Na realidade, essa montanha era uma sucessão de dunas revestidas de mata abundante, na qual havia toda espécie de frutos silvestres e flores, inclusive orquídeas. Os índios se familiarizaram com ele rapidamente. Era uma região tão íngreme, que os morros mediam mais de cinquenta metros de altura.
Após alguns anos de muito trabalho ele localizou uma mina de ouro numa mata chamada de "Tororomba", topônimo indígena que significa "fim da enxurrada". Os nativos ficavam admirados, percebendo o valor que Epaminondas dava às pedras retiradas do chão. Até riam, pois só sabiam valorizar potes de barro, cestarias e alimentos. Todo final de tarde saia um carro de boi cheio de ouro com destino ao local onde ele fez a choupana. 
Depois de retirar todo o ouro ali existente, ele ainda pensou em voltar para a Vila de São Paulo, mas os índios imploraram por sua permanência, convencendo-o rapidamente. Na realidade Epaminondas estava apaixonado por tudo o que via nessas imediações, inclusive apelidou esse local de "Vale Sagrado", devido a sua semelhança com o Jardim do Éden. A insistência dos índios certamente se deu pelos fortes laços afetivos, nascidos daquela convivência. O jovem paulistano era muito trabalhador e agradável; transmitia tudo o que sabia. Com certeza os nativos perceberam que perderiam o seu "ouro" verdadeiro, ou seja, o grande amigo, que a essa altura, se tornara um líder.

Ao longo desses anos Epaminondas ensinou a sua cultura e aprendeu os costumes indígenas, os quais exerciam-lhe verdadeiro encanto. Ele havia trazido de São Paulo boa quantidade de facões, foices, enxós, enxadas, malas, baús, equipamentos e outros objetos, pois era alarife e dominava a marcenaria náutica, carpintaria e outras técnicas. Não demorou muito para que os índios manuseassem tais ferramentas com facilidade. Usando a mesma técnica de queima de cerâmica, ele ensinou os índios a fabricar tijolos e telhas, inclusive essas eram moldadas nas pernas. 
Em pouco tempo o jovem forasteiro – de pele alva como louça, e olhos azuis como o céu – passou a ser chamado de "abatinga", ou seja, homem branco. Ele aprendeu a fazer farinha, beiju e goma com a mesma qualidade dos nativos. Logo se tornou um exímio caçador, dominando com maestria todos os afazeres da tribo.  
Havia na aldeia uma índia por nome Anahi, cuja tradução do tupi para a nossa língua é "aquela que tem voz doce". O seu canto era tão melodioso, que quem o escutasse, parava e ficava a contemplá-lo onde estivesse. Para realçar ainda mais, era dotada de beleza rara, causando admiração. Ela era filha do pajé Rudá, que significa "deus do amor". Esse nome lhe foi dado por sua admirável bondade e acolhimento a todos. Era tão receptivo que tratava o paulistano como um filho. Não demorou muito, Epaminondas se apaixonou por Anahi e o casamento veio logo em seguida, acolhido por toda a aldeia. Houve uma grandes festa que atravessou a madrugada, sob o lume de fogueiras e muita comida. Veio até índios de aldeias próximas, os quais se davam bem.
Em pouco tempo ele fez a melhor e maior casa da região, toda de tijolos e telhas cozidas ali mesmo, cujo empreendimento, capitaneado por ele, foi executado pelos índios, que ficaram perplexos quando viram a obra finalizada. Foi a primeira casa de alvenaria da capitania do Rio Grande do Norte. Ao lado da morada, ele construiu uma bela Casa de Farinha, movida a equipamentos muito bem torneados em madeira de lei. 
Epaminondas era tão acolhedor e amigável que a sua Casa de Farinha se tornou referência para toda a tribo. E tudo passou a ser feito em conjunto, desde o plantio das roças de mandioca e macaxeira à colheira e fabricação de farinha, beiju e goma. Foi nesse lugar que nasceu um costume que eles chamavam de "farinhada", que era o período compreendido entre a colheita da mandioca ao fabrico de farinha.
A "farinhada" era um afazer tão agradável que se transformava numa festa. Os índios traziam as crianças e as deixavam próximas ao olho d'água do "Puxi" pois as águas davam no peito de um adulto e todas as crianças nadavam como peixes. Elas tinham como brincadeira preferida ir ao centro do olho d'água com as "aatás", que eram canoas de casca de árvore. Outra brincadeira adorada era pular dos galhos que sobraçavam às límpidas margens. 

Passavam o dia pulando delas, fazendo piruetas, mergulhando.e se refrescando no local. Enquanto isso os mais velhos descascavam mandioca, as mulheres mais jovens ralavam e os rapazes manuseavam a prensa para que o sumo – que também se chamava "manipueira" – se desprendesse, escoando numa almácega, que era uma espécie tanque que ficava próximo dali . Boa parte desse líquido era usado no preparo de "cauim", bebida típica, que, depois de fermentada, se transformava em cachaça. Eles também faziam "cacica", uma deliciosa bebida preparada com mandioca fermentada.

As mulheres também se encarregavam de preparar o alimento de todos, organizando-o num grande jirau ao lado da Casa de Farinha. Nele ficava disposta a carne moqueada de animais caçados nas florestas infindáveis ao redor da aldeia. Havia preá, onça, anta, paca, capivara, peixes e aves. Muitas frutas silvestres eram dispostas nos cestos de cipós, e todos se fartavam com o que havia de melhor naquelas florestas sem fim.
Eles também preparavam grandes quantidades de goma, pois a base da alimentação da tribo, além da farinha era o beiju. Essas duas iguarias eram consumidas com carne. Outros comiam molhado no "cauim". Também havia casos de recém-nascidos rejeitarem o leite materno, necessitando de mingau feito de goma, cujas mães molhavam os dedos e colocavam cuidadosamente na boca da criança. O ambiente era de muita harmonia, cujos mais novos tinham profundo respeito pelos idosos. Nunca um índio jovem desobedeceu as orientações de seus pais ou avós.
Os mais velhos ensinavam os menores a dançar, construir arcos e preparar flechas com "curare", que era o sumo de uma planta usado para caçar. Eles melavam a ponta da flecha. Quando o animal era flechado, ficava rapidamente anestesiado, facilitando a captura. As mulheres viviam a confeccionar redes e esteiras. As crianças adoravam ouvir estórias contadas pelos mais velhos ao redor de fogueiras, à noitinha. Esse momento era também a oportunidade de eles repassarem para os mais novos suas crenças, noções de respeito ao próximo, tolerância, além de muitas lendas de assombrações. Muitos indiozinhos iam dormir com os olhos aboticados, desconfiados com qualquer barulho.
De vez em quando a tribo realizava uma espécie de campeonato. Havia uma corrida de toras disputada entre os rapazes. Eles corriam levando no ombro pesados rolos de coqueiros. Vencia quem pisasse primeiro numa linha demarcada bem distante do ponto de saída. Havia luta entre os mais fortes, vencendo quem derrubasse o adversário num espaço pré-definido, de moto que ficasse de barriga para baixo. Eram muitas modalidades, inclusive arremesso de flechas. às vezes o evento se demorava três dias.
Os anos se passaram e Epaminondas tornou-se pai de sete filhos, que também foram se casando e gerando netos. Todo o ouro trazido de Tororomba foi guardado, intacto, numa imensa caixa feita de troncos de madeira de lei, instalada num alçapão sob o soalho do quarto. Outros forasteiros começaram a chegar nas proximidades, e seu patrimônio precisava de proteção. Como a subsistência de todos era garantida pela fartura local, ele não precisava gastar seu ouro.
Certo dia a tribo ouviu um estrondo abafado. Era exatamente sete horas da manhã. Todos ficaram assustados. De repente perceberam que um volume colossal de água explodiu das entranhas da nascente, como um vulcão, arremessando as árvores para o alto. Em fração de segundos formou-se uma corredeira desabalada, tomando conta das partes mais baixas. A força do aluvião partia árvores ao meio, inclusive grandes exemplares. Os coqueirais eram arrastados como gravetos. Logo o sopé do morro foi se tornando rio caudaloso, inundando grande área. Árvores de grande altura ficaram submersas.
Já mais lenta, a imensidão de água foi chegando a casa de Epaminondas. A essa altura muitos índios se debandaram para as partes altas. Alguns subiram nos coqueiros, mas a magnitude das águas era tanta que cobriu-os como se fossem grama.
No transcorrer de uma hora toda a região se transformou num mar de água doce, submergindo a aldeia e tudo o que estivesse nas proximidades. Uma vasta extensão de floresta foi tragada, impedindo de se ver sequer as copas das árvores. Do topo do morro os sobreviventes contemplavam a imensidão de águas. No dia seguinte os corpos dos índios foram emergindo lentamente, promovendo um cenário bizarro. A tristeza tomou conta de todos.
Ao longo do dia os sobreviventes, ainda temerosos, se espalharam pelas partes mais altas, caminhando nas matas virgens ainda mais distantes. Temiam novo fenômeno. Chegou a noite e muitos sobreviventes ficaram espalhados, cada um por si. Poucos deles conseguiram permanecer juntos diante do desespero vivido.
No outro dia se encarregaram da tarefa mais triste de suas vidas: recolher os corpos, em número de setecentos índios, enterrando-os num local improvisado, denominado de "cacuia". Passaram-se sete dias e aos poucos os sobreviventes começaram a se reencontrar. A cada reencontro a felicidade redobrava. Todos perguntavam por Epaminondas. Ninguém dava notícia.
As águas foram se tornando cada vez mais transparentes. Eles passavam meses circunvagando as margens da lagoa, numa procura interminável. Muitos se reencontraram depois de sete meses, pois o pavor tangeu-lhes para longe. Famílias inteiras desapareceram, outras se reencontraram, intactas. Para aumentar ainda mais a tristeza, Epaminondas e Anahi nunca apareceram. O local tornou-se uma lagoa tão grande que parecia o mar. Os próprios índios deram-lhe o nome da antiga nascente: "Puxi". A imensidão era tanta que quem estivesse mais distante da terra, só via céu e água.
A lagoa, que tinha quase chegado ao mar, foi baixando lentamente ao longo de muitos e muitos anos, deixando seus rastros em forma de vinte e cinco pequenas lagoas em seus derredores, as quais existem até hoje. Umas são perenes, ou seja, nunca secam. Outras, são temporárias, pois baixam muito. Algumas chegam a secar, como a "carnaubinha". Mas reaparecem quando menos se pensa, pois sob elas há um volume d'água eterno. A segunda maior lagoa é a de Papari, cujo nome original é lagoa Paraguaçu, que em tupi quer dizer "rio grande". É por isso que muitos chamam a lagoa do Bonfim de "lagoa mãe", pois as outras são suas filhas. 
Após a estabilidade das águas, a tribo se refez. Um dia o pajé sentou-se com toda a tribo e explicou-lhe que tinha feito uma oração e ouviu dos deuses que os corpos dos índios desaparecidos iriam reaparecer da seguinte forma: os índios homens se transformariam numa bela árvore de flores azuis, pois normalmente os homens são mais fortes que as mulheres no aspecto físico. E como o céu e o mar são azuis - e são os dois elementos mais fortes da natureza - que se manifestam através dos ventos e das ondas, vem a calhar essa cor para representar a força física do sexo masculino.
As índias virgens reapareceriam sob forma de lindas árvores de flores cor de rosa, significando a delicadeza, a meiguice e a doçura dessas flores. A florescência seria tão delicada que atrairia a visão de todos, assim como Anahi
As crianças teriam a cor branca em sinal da pureza e inocência que só a elas pertencem. Representariam um elemento delicado, sem máculas, sem manchas, abertos para o descobrimento da vida.
As índias não virgens, viriam em forma de flor lilás, simbolizando a rainha do lar. Aquela que guiaria os seus filhos e filhas, ensinando-os o amor e a bondade. Essa cor suave, transmite segurança, amparo, serenidade, enfim tudo aquilo que uma mulher deve ter para, junto ao homem, conduzir bem os seus filhos.

Os homens idosos voltariam como flores amarelas, simbolizando o ouro mais precioso que existe na humanidade, que é a sabedoria dos mais velhos. Esse amarelo também significava a luz. Para eles, a velhice era a idade mais importante de um homem, necessitando do mais profundo respeito por parte das gerações mais novas. Para eles, quando um homem chegava a fase idosa, se tornava uma espécie de luz constantemente acesa, guiando, aconselhando, orientando e repassando a sabedoria acumulada durante toda a sua existência. 
As índias idosas reapareceriam como flores vermelhas, pois o vermelho é o sangue, é a vida. São as mulheres idosas o símbolo maior da vida, pois carregaram seus filhos na barriga durante nove meses, alimentando-o através do sangue, ou seja, do seu amor incondicional. E as outras mulheres, filhas de seu ventre continuaram perpetuando a vida. Para os índios o significado de uma mulher idosa é sublime e nobre, pois elas receberam dos deuses o dom de carregar a vida. De trazer homens e mulheres para o mundo.
E o tempo, como nunca para, continuou passando lentamente... Muito tempo depois começaram a surgir nas matas inúmeras árvores com essas cores, as quais receberam o nome de i'pê, que significa "casca", pois as nervuras de seus troncos e galhos são bem definidas, assim como fica a terra rachada pelo calor.  
Uma vez ao ano os índios se reuniam e cantavam e dançavam em louvor à morte daqueles que tinham retornado em forma de ipês. A tribo ainda viveu feliz por muitos e muitos anos na região. Os anos continuaram se passando, novos homens brancos começaram a surgir, infiltrando-se nas aldeias. Todas a extensão de florestas existentes nessa área mais parecia um buquê florido. Eram tantos ipês que se perdia as contas. Aos poucos os índios foram sendo escravizados por alguns homens brancos, os quais os colocavam para fazer todo tipo de trabalho que eles desconheciam. Um deles era derrubar árvores.
Muitos deles adoeceram e morreram ainda moços; uns, de doença, outros de fome e tristeza, pois começou a faltar alimentos nas matas, então substituídas por cana-de-açúcar. E eles não gostavam das comidas ensinadas  pelos portugueses que começaram a fundar vilas por toda a região. Logo vieram os padres Capuchinhos, chamados por eles de "abarê-tucura". Os religiosos não gostaram do nome da lagoa, mudando-o para "Bonfim", em homenagem ao Senhor do Bonfim. Em pouco tempo, para ter maior controle das comunidades indígenas, eles juntaram os índios que viviam em "Pirangipepe" e "Mopebi" e montaram aldeamentos para ensinar a fé católica. 
Os índios sentiram enormes dificuldades em entender o cristianismo, pois nutriam um entendimento alógico sobre Deus, ou deuses. Eles não não entendiam como poderiam adorar a um deus sem vê-lo, pois estavam acostumados a adorar o sol, a lua, a chuva e a terra, ou seja, coisas que podiam ver ou tocar. Ficaram confusos. Muitos mergulharam numa tristeza tão grande que começaram a se suicidar. Para eles, o paraíso era aqui na terra mesmo. O próprio lugar onde existia a aldeia era o paraíso, pois era pleno de felicidade e paz. Índios, animais e plantas viviam em harmonia. Eles não entendiam por quê era necessário morrer para ter de volta esse paraíso. Por esse motivo começaram a se matar, enforcando-se em embiras e cipós.
Com a morte entendiam que estavam adiantando o reencontro com o paraíso. Lá a pesca e a caça seriam abundantes. As matas eram vastas. Eles encontrariam o lugar onde "corria rios de leite", que havia fartura em abundância, que não existia maldade, onde todos viveriam ao lado de Deus, conforme pregavam os Capuchinhos. Ao longo do tempo, quase toda a mata nativa foi derrubada para dar lugar as mais diversas plantações e roçados. Até mesmo os ipês foram desaparecendo. 
Mais e mais anos se passaram. Na comunidade de "Oitizeiro", havia um pescador famoso e respeitado por suas habilidades com o mar. Contam que ele adentrava o oceano a qualquer hora e trazia os peixes que queria, pegos com uma espécie de lança de madeira pontiaguda. Nenhum nativo ousou fazer um terço de suas extraordinárias aventuras. Chamava-se Rubião.
Certo dia ele resolveu mergulhar na famosa lagoa do Bonfim, pois só a conhecia de ouvir falar. Era uma tarde de verão. Nessa época as águas baixavam devido à estiagem, muito embora jamais alguém ousou ir ao seu leito, pois a profundidade era imensurável. Os antigos contavam que muita canoa desceu naquelas águas, sem que se conseguisse ver sequer um sinal de sua localização. A lagoa vivia repleta de "aatás". Os índios passavam o dia inteiro pescando e brincando nas águas. A tarde estava ensolarada. As águas límpidas, permitiam ver o bailar dos cardumes por toda a sua extensão.
Rubião mergulhava descontraidamente, descobrindo as profundezas daquele mar de águas doces e mornas, relaxando o seu corpo, dando-lhe ainda mais confiança. Num determinado ponto ele foi se dando conta que estava numa floresta morta. O fundo da lagoa era permeado por gigantescas árvores que resistiram ao tempo. Ele ficou admirado e quase não acreditava no que passou a ver mais adiante. Haviam duas construções de alvenaria em perfeito estado de conservação. A maior parte do telhado estava intacta. Era exatamente a casa de Epaminondas e a Casa de Farinha. Nas proximidades, ele encontrou grandes fornos de queima a cerâmica.

Rubião foi tomado de emoção. Ele sabia que árvores não podiam nascer nem crescer dentro da água. Logo entendeu que o local era berço de uma civilização antiga. E como era muito corajoso, passou a tarde inteira perquirindo cada espaço. Entrou na sala, cujos móveis, embora recobertos com uma espécie de poeira de lodo, estavam intactos. Havia uma namoradeira de jacarandá e uma cadeira de balanço. Uma linda cristaleira conservava intacta requintadas porcelanas de limoges e delicadas peças de cristal português. As grossas paredes conservavam os ganchos de rede. Logo, Rubião tomou o rumo do corredor que exibia do mesmo jeito os chapeleiros afixados às paredes. Num imenso fogão à lenha estavam as panelas de barro e outras de ferro.

Foi até o quarto e viu a cama em perfeito estado de conservação. Só não existiam – obviamente – o colchão e peças de tecido. O guarda-roupa estava no mesmo lugar, Apenas uma de suas portas havia despencado no piso de tijolinho branco, sextavado, quase totalmente recoberto de lodo. Ao lado da cama estava disposta uma espaçosa cômoda de mogno, e sobre ela um candeeiro de cobre, trazido por Epaminondas da Vila de São Paulo. Ao longo do mergulho, viu baús com objetos desconhecidos, equipamentos e louças. Uma das caixas estava lotada de vinho de delicioso vinho do Porto, que Epaminondas degustava lentamente, para matar a saudade de sua terra.

De repente algo chamou a sua atenção. Havia uma espécie de alçapão aberto no soalho. Tudo reluzia, respondendo ao sol que transpassava as águas lá do alto. O brilho era tão faiscante que parecia estrelinhas encandeando a sua visão. Ele desceu mais e deparou-se com uma ossada que, pela estatura, aparentava ser de homem. Os ossos estavam encurvados sobre um monte de ouro. Era Epaminondas que, no desespero, ainda tentou retirar algo de sua fortuna.
Rubião ficou pasmo com tamanho tesouro. Recolheu uma pequena porção e subiu. Já na sua casa revisou a peça e constatou-se tratar-se do mais puro ouro. Dias depois foi até a Capitania de Natal, vendeu o seu achado e retornou com vários alforges repletos de moedas e mercadorias. Na semana seguinte, retornou à lagoa do Bonfim, refez o mergulho e trouxe mais ouro, vendendo-o novamente.

Com o passar dos meses, Rubião foi se tornando um homem de posses. Construiu um casarão de elegante frontão no centro de Papari. Mandou fazer a mais bela carruagem, a qual usava para passeios locais. Sua família vivia como lorde, vestindo os mais belos trajes que ele mandava vir da Vila de São Paulo. Toda a vizinhança começou a estranhar o fato de ele acumular bens sem ter uma fonte de renda à altura daquelas posses. A única pessoa que sabia da origem se sua fortuna era sua esposa d. Heleonora.

Toda a vila estranhava o fausto em que Rubião vivia. A curiosidade aumentava a cada dia, pois ninguém via de onde ele trazia tanto dinheiro. Apesar da alta condição financeira, ele permaneceu exercendo a função de pescador, obviamente para facilitar o contato com o seu tesouro.
Certo dia um dos moradores mais intrigados com a sua riqueza, começou a pastorá-lo. Todas as noites ele pulava o muro da casa de Rubião, colocava o ouvido nas portas e ficava de plantão. ansioso para que ele e sua mulher comentassem algo. E nesse compromisso ele passou meses espreitando-o.



E como nessa vida quase todos os segredos são descobertos, certa noite o casal discutiu. Num determinado momento d. Heleonora falou:
- Se eu soubesse que o ouro que vosmicê tira do fundo da lagoa do Bonfim ia torná-lo tão beberrão, eu não teria me casado com vosmicê.
E Rubião respondeu:
- Deixe de bobagem. Eu não tirei nem um terço do que existe na Casa de Farinha do fundo da lagoa. Não se preocupe. Se eu morrer pelo menos vosmicê fica rica.
Sem acreditar no que ouvia, o homem disparou para a casa de um seu amigo de confiança e contou-lhe a descoberta. Estava radiante. A partir de então eles passaram a seguir Rubião por todos os lugares, mas sempre em vão. Após vários dias seguindo-o, exatamente num finalzinho de tarde, viram quando ele mergulhou na lagoa do Bonfim, deixando sua canoa amarrada junto a um braço de árvore que caia sobre as águas.
De repente Rubião mergulhou e demorou-se nas águas. Eles chegaram a imaginar que ele havia se afogado, pois era inacreditável alguém ter um pulmão tão potente. Mas inesperadamente ele apareceu com um saco e depositou-o na canoa. Após uns dez minutos mergulhou novamente. Percebendo que o mergulho seria demorado, os dois amigos correram até a canoa e constataram que eram pedras de ouro puro, e que Rubião faria vários mergulhos. Ficaram radiantes e desapareceram dali imediatamente sem levar nada. Eles gravaram bem o lugar, pois perceberam que nenhum homem da localidade tinha um terço da capacidade de Rubião na arte do mergulho em grandes profundidades.
Mas, mesmo inconformados, foram até a vila de Arês, atrás de um famoso mergulhador. Mentiram para ele que haviam perdido uma canoa de estimação, e que pagariam bem acaso ele conseguisse encontrá-la. Mas foi em vão. O homem não desceu nem dez metros e desistiu. Eles constataram que Rubião demorou muito nos mergulhos que fez quando estava sendo pastorado, portanto teriam que pensar em algum plano.
E, como infelizmente o vil metal é o causador das piores desgraças, certo dia os dois homens interessados no ouro de Rubião comentaram:
- Vamos pegá-lo à força. A gente o amarra e o faz trazer todo o ouro para as margens da lagoa. Quando acabar, o amarramos numa árvore próxima e fugimos. Com certeza outros pescadores o encontrarão depois. Pelo menos não carregaremos a sina de assassinos.
E assim se organizaram.
Dois meses depois, Rubião empreendeu nova retirada de ouro. 
Como de costume, fazia tudo à tardinha e saia já ao pôr-do-sol. 
Ele já havia trazido duas sacolas de ouro. Os dois ladrões meteram-se numa canoa e foram até o centro da lagoa, exatamente no ponto em que estava a Casa de Farinha. Quando foi surpreendido pelos dois ladrões, Rubião perguntou do que se tratava, mas logo entendeu, pois reconheceu o seu vizinho. O outro homem disse:
- Nós queremos aquilo que te fez rico.
Rubião respondeu:
- Mas tudo isso é meu. Foi eu que encontrei e não vou dar a ninguém. E vosmicês jamais conseguirão pegar, pois não têm o meu fôlego. Todo o ouro está no leito da lagoa.
Nesse momento um deles sacou um mosquete e ameaçou matá-lo:
- Ou vosmicê busca mais ouro, ou o mataremos e também a sua mulher. Se buscar todo o ouro de lá debaixo, nós o amarraremos na árvore e fugiremos. Amanhã, com certeza algum pescador o encontrará. E estaremos longe.
Rubião ficou furioso e resolveu fazer o que eles pediam. Na realidade ele pensou em planejar algo enquanto executava o traslado do ouro. Mil coisas passaram por sua mente, mas ele se via impotente. E assim a canoa foi se enchendo de ouro a ponto de ficar quase rente com a água.
Os dois ladrões perguntaram a Rubião se ainda havia mais ouro. Ele disse que aquilo que ele já havia retirado ao longo de sua vida, somado ao que estava na "aatá" e no fundo da lagoa, não era sequer a metade.
Os ladrões ficaram eufóricos. Percebendo que já não podiam mais abastecer a canoa, pois uma simples pedra poderia afundá-los, colocando a perder a fortuna retirada, um deles disse:
- Companheiro, vosmicê vai nadando até a beira da lagoa, pega outra canoa e retorna; e eu fico aqui pastorando Rubião. Quando vosmicê voltar com a canoa vazia, eu vou com a canoa cheia. A gente fica nesse vaivém, levando o ouro. Se ele inventar de dar uma de corajoso, eu estouro os seus miolos com esse mosquete.
Ouvindo aquilo, o outro respondeu:
- Mas eu não sei nadar. Vá vosmicê buscar a canoa vazia; eu fico aqui na canoa cheia com o mosquete.
Nesse exato momento, Rubião pensou:
- Se os dois não sabem nadar, se estamos no meio desse mar de águas, se a canoa está rente às águas, basta eu pôr um pouco do meu peso que ela afunda.
E não pensou duas vezes. Agarrou-se a canoa e deu um pulo. Imediatamente ela se acachafundou-se n'água. Os dois ladrões, desesperados ainda tentaram jogar alguma parte do ouro para torná-la mais leve, mas era tarde. Logo, começaram a se debater e gritar por socorro. Mas não havia ninguém por ali. E a lagoa era tão grande que jamais alguém os escutaria. E em meio a esse desespero a canoa afundou, com tudo. 
Eles ainda se debateram, tentando se salvar. Mas, como nem tudo nessa vida é perfeito, antes de se afogar, um dos ladrões - tomado de ódio - conseguiu disparar um tiro no rosto de Rubião. E todos afundaram para sempre junto com o ouro. Nunca os seus corpos boiaram. 
Nunca alguém suspeitou que os três morreram naquela localidade, pois não houve pistas.
Contam, hoje, que alguns pescadores - munidos de equipamentos de mergulho - já viram as ruínas da Casa de Farinha e da casa de Epaminondas, mas nunca o ar-comprimido é suficiente devido à profundidade. Além mais, como é de se esperar,  ainda não apareceu alguém com a mesma coragem do herói contado nessa estória. 
E tudo permanece lá, do mesmo jeito em que foi deixado por um homem de capacidade extraordinária, chamado Rubião.
E quando você ver aqueles ipês de belas cores espalhados às margens das rodovias, nas áreas rurais e até mesmo na cidade, lembre-se, são as sobras do que restou para recordar os índios que se afogaram naquele dia que marcou a história de Papari. Foi o dia que nasceu a Lagoa do Bonfim.