ANTES DE LER É BOM SABER...

Este blog não é jornalístico, embora contenha alguns conteúdos nesse sentido. A maior parte dos textos é fruto de pesquisas de autoria de Luis Carlos Freire. Algumas publicações ainda não estão completas e aguardam novos estudos, cujo autor entendeu serem úteis disponibilizá-las de tal forma, haja vista que muitas são inéditas. A proposta é que os interessados ao menos tenham uma ideia daquilo que buscam na internet. Até porque existem situações em que certos assuntos não são encontrados nem na internet nem em outro lugar, sendo, portanto útil uma breve informação. Na realidade, a maior parte das publicações está completa, sendo fruto de longos estudos, alguns até extensos e aprofundados. O autor também é especialista na obra de Nísia Floresta e estuda os costumes da região na qual nasceu essa intelectual. Esse detalhe permitirá ao leitor encontrar informações históricas sobre a intelectual Nísia Floresta Brasileira Augusta, sobre o município homônimo, situado na Região Metropolitana de Natal/RN, além de crônicas, artigos , fotos poemas, etc. O blog, na realidade é fruto do hobbye do autor. O material pode ser requisitado via e-mail. O autor ministra palestras onde for convidado, cujos contatos devem ser feitos através do E-mail: brasilcentauro@yahoo.com.br

quarta-feira, 30 de junho de 2010

HISTÓRIA DE NISIA FLORESTA (MULHER)

UM PATRIMÔNIO CHAMADO NÍSIA FLORESTA
I – NÍSIA FLORESTA EM PAPARI – UMA BREVE PERMANÊNCIA
No dia 12 de outubro de 1810 nascia a primeira filha do casal Dionísio Gonçalves Pinto Lisboa e Antonia Clara Freire, no sítio Floresta, em Papari, interior do Rio Grande do Norte. O bebê recebeu a versão feminina do nome do pai: Dionísia Gonçalves Pinto.
O senhor Dionísio havia chegado naquela região cheia de florestas nos primeiros anos do século XIX. Gostava de esculpir. É de sua autoria a figura de uma índia que traz sobre a cabeça uma pia na qual os padres lavavam as mãos antes da celebração, instalada na sacristia da Igreja Matriz de Nossa Senhora do Ó, em Papari.
Não se sabe exatamente se ele conheceu d. Antonia, a mãe de Nísia Floresta naquela região ou em Goianinha (onde a mesma tinha suas origens). O que se sabe é que eles se casaram e foram morar no sítio Floresta. A mesma era filha do Capitão-mor Bento Freire do Revoredo e de Mônica da Rocha Bezerra, a qual tinha uma filha chamada Maria Isabel do Sacramento, fruto do primeiro matrimônio. Além de Dionísia, o casal teve ainda dois filhos: Maria Clara e Joaquim Pinto Brasil. O que se sabe sobre D. Antonia Clara Freire é apenas o que ficou nos escritos da filha e nas entrelinhas, onde fica evidenciada a aura de uma mulher inteligente, decidida e de personalidade forte.
A primeira pessoa a registrar o nome da família de Nísia Floresta na história foi justamente um ilustre viajante inglês. Isso ocorreu em novembro de 1810, quando Dionísia contava com um mês de existência, quando o sítio Floresta recebeu a visita ilustre de Henry Koster. Em sua viagem pelo interior do Rio Grande do Norte, ele deparou-se casualmente com o pai de Dionísia e acabou se hospedando em sua residência, conforme consta no livro Viagens ao Nordeste do Brasil. Essa amizade breve demonstra o espírito liberal e hospitaleiro dos pais de Nísia Floresta.

2 – O INÍCIO DE UMA PERAMBULAÇÃO
Em 1817, chegou notícias de uma rebelião deliberada em Recife, fruto da revolta contra os abusos do poder estrangeiro, a qual ficaria popularizada como Revolução de 17, a qual tinha como meta a conquista de um governo local e autônomo.
O ambiente em Natal não era diferente. Em São José de Mipibu, cidade vizinha há 4 quilômetros, um dos mais importantes centros intelectuais do Rio Grande do Norte, o ânimo dos nativos mais intelectualizados se acirrava. Temendo uma abordagem ou ataque o Sr. Dionísio muda-se com a família para a Vila de Goiana, em Pernambuco, outro importante centro cultural do interior de Pernambuco, no qual parecia ter se sentir mais seguro.
Goiana passaria a ter um importante significado na vida da jovem Nísia Floresta, conforme veremos ao longo desse estudo. A impressão que se tem é que no meio dessa conturbada movimentação de Goiana, ela parece ter sentido despertar um sentimento diferente, no qual passaria futuramente a ser protagonista de corajosos atos de conscientização.
Essa próspera Vila possuia o Convento das Carmelitas, onde as famílias de maiores posses confiavam a educação de seus filhos. Supostamente Nísia Floresta desfrutou do que tal instituição oferecia, mas não existem documentos que registrem essa suposição. Sabe-se que precocemente ela tinha conhecimento de algumas línguas estrangeiras, inclusive ensinava em sua própria residência, como era comum à época.
3 – O RETORNO A PAPARI E O CASAMENTO PRECOCE
Ainda em Goiana, nascia o irmão Joaquim Pinto Brasil, no dia 4 de maio de 1819. A outra irmã, Clara, já existia, mas não há registros do local. Tanto pode ter sido em Papari quanto em Goiana. As parcas notícias pertinentes a Joaquim nos são ofertadas no último livro que a intelectual escreverá: Fragmants d’un ouvrage inédit: notes biográfiques (Fragmentos de uma obra inédita: notas biográficas) (Paris, 1878), pois em nenhum outro escrito se encontram informações mais precisas. Após alguns meses de estadia em terras pernambucanas o Sr. Dionísio resolve retornar para Papary, pois o local passaria a se tornar inconveniente para ele enquanto português, inclusive a poeira da revolução havia sido baixada, mas a hostilidade dos nativos ainda era forte.
Em sua terra natal Nísia Floresta irá protagonizar um episódio não tão importante, mas que marcará a sua vida e propiciará toda sorte de comentários maldosos que sobreviverão até mesmo após a sua morte. Em 1823 Dionísia casa-se com Manuel Alexandre Seabra de Melo, rapaz mipibuense, mas o casamento não dura sequer um ano. Ela retorna para a casa dos pais, mesmo contrária a opinião do ex-marido, o qual a perseguirá por um bom tempo. Naquela época as leis protegiam o marido. O fato era entendido como grande escândalo, pois, de acordo com uma velha frase de domínio público, "manchava a honra da família". Isso chegou a tal ponto de a própria família, por parte de tios, tê-la desprezado. Esse episódio incomum passará a ser um dos mais fortes em termos de preconceitos e acusações que a mesma sofrerá, cuja sua maior acusadora será a própria conterrânea Isabel Gondim, a qual nunca a conheceu.
Sobre seu primeiro casamento há quem suponha ter sido algo forçado, ou encomendado, como era muito comum até pouco tempo, mas isso não se harmoniza com a postura dos pais de Nísia Floresta, os quais sempre foram pessoas de espírito liberal. É mais fácil supor que Nísia Floresta, no auge da adolescência, tenha realmente se apaixonado por Manuel Alexandre, e posteriormente viu no matrimônio uma clausura - experiência contrária ao seu espírito de liberdade.
Poucos meses depois explode mais uma revolta, conhecida como Confederação do Equador. O Rio Grande do Norte torna-se hostil aos lusitanos, forçando o Sr. Dionísio a deixar Papary. Ele retorna a Vila de Goiana, a qual apresentava um cenário mais pacífico e passa a trabalhar como advogado. Em dezembro de 1824 a casa do Sítio Floresta é depredada e os bens da família são roubados.
4 – O ASSASSINATO DO PAI E O SEGUNDO CASAMENTO
Num final de tarde do dia 17 de agosto de 1828, após retornar para sua residência, em Olinda, o Sr. Dionísio é alvejado por um tiro. Sua morte, embora ainda pouco explicada, é atribuída a uma questão que envolvia a sua profissão. Supõe-se ter ocorrido em decorrência da revolta da parte que havia perdido uma causa, na qual o Sr. Dionísio teria defendido os interesses da parte vitoriosa. O que se sabe é que Nísia Floresta tinha horror a um tal Uchoa Cavalcanti, tido como o mandante do crime. Nos próprios escritos de Nísia Floresta ficaram os registros de que pessoas muito poderosas de Olinda não suportavam mais ver aquele advogado ganhando causas contrárias aos seus interesses.
Como vimos acima, as penas de Goiana escreveriam algumas páginas da história de Nísia Floresta. Supostamente quando esteve nessa vila em sua adolescência, conheceu um jovem de idade equiparada, era Manuel Augusto de Faria Rocha. Ela o encontraria em Olinda, logo após o assassinato do seu pai, e passaria a residir em sua companhia. A propósito quando passou a viver na França ficou conhecida com o sobrenome do marido Mme. De Faria, inclusive a Biblioteca Nacional de Paris registra esse nome.
Aos 12 de janeiro de 1830, nasce em Olinda Lívia Augusta de Farias Rocha, a qual seria a grande companheira da mãe. Em 1831 nasce um segundo filho, mas morre ainda recém-nascido.
Ainda neste ano Nísia Floresta inaugura a sua verve de escritora. Trata-se do jornal Espelho das Brasileiras, direcionado ao público feminino, a qual a iniciante aborda aspectos da mulher em culturas antigas. Percebe-se logo a sua aptidão para a defesa do seu sexo no seio de uma sociedade onde o homem era quem dava as cartas e a mulher era praticamente um objeto. Futuramente os assuntos seriam abordados com mais maturidade e acidez, até porque ela possuía um estilo direto. O que era admirável a um sistema de tantas represálias.

5 – ESCRITORA PRECOCE – O SURGIMENTO DE UMA PIONEIRA
Após tornar públicas as suas opiniões com certeza ela pensou fazê-lo de forma mais substancial e plena. Dessa forma, em 1832 publica Direito das mulheres e injustiça dos homens, inaugurando então o seu famoso pseudônimo: Nísia Floresta Brasileira Augusta. Nota-se que, ao invés de ocultar seu verdadeiro nome – como forma de fugir às represálias – como alguns podem supor – ela cria um pseudônimo que diz muito, ademais ela se assumia enquanto autora do que escrevia. Nísia, de Dionísia; Floresta, para lembrar o sítio onde nasceu; Brasileira, um sinal de nacionalismo; e Augusta, uma evocação ao grande amor da sua vida: Manuel Augusto. Interessante é que, desmanchando as suposições preconceituosas de alguns, os quais passariam a atribuir a denominação “Augusta” a Auguste Comte, fica aqui a necessária observação que na realidade ela homenageou o homem que amava e que escolhera espontaneamente.
Direito das Mulheres e Injustiça dos Homens, como já vimos, foi inspirado na obra de Mary Wollstonecraft – Vindication of the rights of women (Reinvindicação dos direitos da mulher), de 1792. Mas é importante destacar que ela não fez apenas uma tradução literal. A autora absorve de forma antropofágica o ideário estrangeiro e denuncia os preconceitos, os tabus e todo tipo de discriminação praticada no Brasil contra a mulher por parte dos próprios brasileiros.
Ela questiona a superioridade masculina e elenca todo um conjunto de situações que podem tornar a mulher tão competente quanto o homem, inclusive superior, acaso lhe seja dado o simples direito de estudar. A propósito critica as injustiças cometidas pelo sexo tido como forte, o qual tira o direito de as mulheres mostrarem o seu potencial.
O referido livro, que inaugura o feminismo no Brasil, com certeza causou escândalo, pois mexeu com os brios de um sistema no qual jamais se pensou encontrar tais questionamentos.

6 – NO MEIO DO CAMINHO OUTRO RIO – O RIO GRANDE DO SUL
Em novembro de 1832, Manuel Augusto de Faria Rocha conclui o bacharelado em Direito na Academia de Olinda e se muda com a esposa para Porto Alegre, no Rio Grande do Sul. Junto seguem Lívia, Maria Isabel e D. Clara. Joaquim Pinto Brasil ficou em Olinda, tendo em vista iniciar o curso de Direito. São muitas as suposições acerca dessa mudança de um extremo ao outro. Alguns estudiosos supõem que o primeiro marido vivia em seu encalço com o objetivo de processá-la por adultério. As leis da época eram rigorosas nesse aspecto e davam ao homem esse direito. Muitas mulheres da época de Nísia Floresta se sujeitavam a viver com senhores que não tinham a mínima afinidade para poupar-se dos escândalos que protagonizariam a sociedade acaso se separassem. Pesa ainda o fato de muitos maridos se ampararem nas leis que os favoreciam de maneira incomum, a ponto de desmoralizar o nome da esposa rebelde.
Sobre a viagem para o Sul supõe-se também ter sido decidida em virtude do convite de um irmão de Manuel, o qual lhe ofereceu uma oportunidade interessante de emprego.
Na capital dos pampas nasce Augusto Américo de Faria Rocha no dia 12 de janeiro de 1833. Uma coincidência com o dia e mês de Lívia. Mas o ninho feliz vem a ser terrivelmente abalado no dia 29 de agosto, com a morte repentina do jovem marido.
Nísia Floresta fica muito abalada, mas sua determinação lhe dará condições de superar terrível perda ao lado da mãe, irmãos e filhos. A partir de então ela passa a ensinar em sua residência, ficando responsável pelo sustento da família.
Ela permanece mais quatro anos em Porto Alegre, reedita Direito das mulheres e injustiças dos homens. Sua irmã Maria Isabel casa-se com um rapaz da família Silva Arouca. O irmão, Joaquim Pinto Brasil, para sua decepção, casa-se precocemente em Pernambuco.
Uma nova experiência será vivenciada pela norte-riograndense com a Guerra dos Farrapos, permitindo a mesma travar contato com Giuseppe Garibaldi, famoso italiano responsável pelo comando da Marinha do Rio Grande do Sul. Mas o ambiente não se torna positivo para uma mulher com tamanha responsabilidade. Dessa forma, em 1833 ela se transfere com a família para o Rio de Janeiro. Mais uma vez um novo lugar. Uma nova vida.

7 – RIO DE JANEIRO – PRECURCIONISMO, “ESCÂNDALOS” E AUDÁCIA
No Rio de Janeiro Nísia Floresta encontrará um ambiente propício para dar vazão às suas aspirações de educadora, pois havia grande interesse pelo ensino em meio a uma realidade de escolas dominadas por estrangeiros. Nesse espaço ela irá se inserir, mesmo desagradando a alguns diretores que não viam aquela mulher separada e sem diplomas com bons olhos. Ela tem consciência que a "moda" é colocar filhos em colégios de estrangeiros, num claro sinal que bastava vir da Europa para ser bem aceito.
No dia 31 de janeiro de 1838 o jornal traz um anúncio apresentando o Colégio Augusto:

“D. Nísia Floresta Brasileira Augusta tem a honra de participar ao responsável público que ela pretende abrir no dia 15 de fevereiro próximo, na rua Direita, nº 163, um colégio de educação para meninas, no qual, além de ler, escrever, contar, coser, bordar, marcar e tudo o mais que toca à educação doméstica de uma menina, ensinar-se-á a gramática da língua nacional por um método fácil, o francês, o italiano e os princípios mais gerais da geografia. Haverão igualmente nesse colégio mestres de música e dança. Recebem-se alunas internas e externas. A diretora, que há quatro anos se emprega nessa ocupação, dispensa-se de entreter o respeitável público com promessas de zelo, assiduidade e aplicação no desempenho de seus deveres aguardando ocasião em que possa praticamente mostrar aos pais de família que a honrarem com a sua confiança, pelos prontos progressos de suas filhas, que ela não é indigna da árdua tarefa que sobre si toma”.
Além do pseudônimo o Colégio Augusto reforça a homenagem ao marido falecido, para o qual ela dedicará sempre algumas linhas de seus escritos. Após algum tempo o colégio é transferido para a Rua Dom Manuel, n. 20, com entrada pela Travessa do Paço, n. 23, defronte ao Palácio da Justiça.
Na condição de mulher atualizada, poliglota e leitora voraz, que desde cedo buscava conhecimentos na biblioteca do pai, reunia qualidades que lhe davam condições de criar e manter uma escola. Seu espírito visionário lhe possibilitará implantar uma pedagogia moderna e destoante das encontradas em outros colégios. E tal medida receberia muita rejeição, pois algumas críticas anônimas passariam a ser estampadas em alguns jornais, e supostamente oriundas de diretores de escolas, enciumados.
Interessante é que os artigos faziam ironia ao ensino de latim e a dimensão mais abrangente que o Colégio Augusto dava às línguas estrangeiras, como por exemplo as linhas as seguintes linhas: “Trabalhos de língua não faltaram; os de agulha ficaram no escuro. Os maridos precisam de mulher que trabalhe mais e fale menos”.Na realidade havia uma resistência contra uma concorrente que tinha diferencial, inclusive trazia um currículo de escritora, cujos escritos enalteciam a mulher, igualando o seu potencial intelectual ao homem, escrevia em jornais e fazia conferências.
Um ano depois de chegar ao Rio de Janeiro ela já encontra campo propício para publicar a terceira edição de Direito das mulheres e injustiças dos homens, inclusive anunciou-o no jornal do Comércio de 25 de abril desse ano, informando que o livro se encontrava a venda a Casa do Livro Azul, na rua do Ouvidor, 121, por 55 réis.
Em 1840, o irmão, Joaquim Pinto Brasil, conclui o curso de Direito em Olinda e vem morar no Rio de Janeiro com a família. Após residir em algumas cidades, passa a morar na capital, trabalhando como advogado e ensinando no famoso Colégio Pedro II. Futuramente se tornará chefe da Secretaria do Ministério da Agricultura e fundador do Instituto Psicológico, inclusive publicará um importante livro.
O espírito público e a audácia de Nísia Floresta não limitavam a sua coragem de expor seu pensamento, mesmo residindo a pouca distância do Monarca D. Pedro II. Ela sabia logicamente do fim que levavam as pessoas que ensaiavam a liberdade de expressão, Mas ela ignorava, fazendo conferências contra a escravidão, defendendo a liberdade de culto doutrinário e a federação das províncias. Nos jornais escrevia contra o monopólio estrangeiro no comércio e na educação.
Vários autores que escreveram sobre ela evocam tais palestras, enaltecendo o seu estilo liberal. Inês Sabino, em Mulheres Illustres do Brazil assim escreveu: “os espectadores saiam dali deslumbrados não só pela presença agradável da jovem senhora, como pela audácia da sua inteligência de primeira água e ainda mais... um horror para aquele tempo!... por ousar a ilustre dama falar em abolição e em federalismo”. (SABINO: 19......., 154).
Nesse interim Maria Clara, irmã de Nísia Floresta, casa-se no Rio de Janeiro com o Dr. José Henrique de Medeiros, um português lorde da Casa Real de Portugal.
Em 1842 publica Conselhos a minha filha, em homenagem a Lívia Augusta de Faria Rocha, na passagem do seu aniversário. Em 1845, publicou a segunda edição, incluindo 40 pensamentos em versos. Posteriormente publica duas vezes em língua italiana (1858 e 1859), em francês (1859). Aos olhos atuais o livro soa um pouco antiquado. A autora evidencia os deveres e as virtudes de uma boa filha, enaltecendo valores como simplicidade, respeito e obediência aos pais, valorização da pessoa idosa e uma generosidade especial ao oprimido.
Em 1847, publica no Rio de Janeiro três novos livros voltados para as alunas do Colégio Augusto: Dacys ou a jovem completa, Fany ou o modelo das donzelas e Discurso que às suas educandas dirigiu Nísia Floresta Brasileira Augusta. Em 1853 publica Opúsculo Humanitário; O abismo sob as flores da civilização, Uma passeio no Jardim de Luxemburgo e A mulher, os quais são trabalhos voltados a educação. Esses três últimos trabalhos foram publicados em 1859 no livro Scintille d’um’anima brasiliana (Cintilações de uma alma brasileira).
Opúsculo Humanitário é a compilação de artigos que foram publicados nos jornais do Rio de Janeiro, o qual apresenta de forma breve o pensamente de Nísia Floresta sobre a educação formal e informal de meninas. O livro evidencia uma mulher culta e com experiência pedagógica e administrativa. Ela analisa a história da condição feminina em diversas civilizações. Na sua concepção o desenvolvimento e o atraso no qual as referidas mulheres estão inseridas – e o próprio país – logicamente – pode ser explicado pela não participação das mulheres nas sociedades enquanto seres pensantes.
Um passeio ao jardim de Luxemburgo”. O jardim de Luxemburgo ficava a poucos metros da residência de Auguste Comte, o fundador do Positivismo. Com certeza nesse lugar ela deve ter passado horas fazendo reflexões. Esse livro traz reflexões muito claras ao positivismo, inclusive ela chega a elogiar o referido filósofo, com o qual manteve uma grande amizade – embora tenha durado menos de um ano -, pois ele morreu muito novo.
É muito fácil encontrar pessoas afirmando que Nísia Floresta era positivista e que trouxe a referida doutrina, mas isso não procede. Ela trata essa corrente com respeito tendo em vista haver uma valorização da função da mulher não apenas como dona de casa, mas como ser pensante. Sobre isso é bom lembrar das palavras do próprio filósofo quando diz que ela era muito metafísica.
No livro “A mulher”, Nísia Floresta, perplexa, faz reflexões sobre o hábito de as mulheres francesas mais abastadas levarem seus filhos muito pequenos para aldeias rurais para serem cuidados por uma espécie de empregadas distantes (ou amas-de-leite). Era grande o número de crianças mortas ou abandonadas e isso não tocava os pais, pois preservavam tal prática. A brasileira condena essa prática, inclusive destaca o valor da amamentação e a importância do calor maternal na formação da criança.

Em 1849 a escritora publicará um dos seus livros mais polêmicos “A lágrima de um Caeté”. Trata-se de um imenso poema de 712 versos, no qual podemos entender a sua forma diferente dos outros indianistas em comentar o índio brasileiro. Logicamente são evidenciadas as características típicas do romantismo em voga, onde com poucas palavras ela descortina um cenário de natureza de rara beleza, colocando o índio no centro de tudo e destaca os seus valores.
Muito diferente, por exemplo de José de Alencar, o qual às vezes chega a deixar Peri semelhante a um cavaleiro medieval europeu, Nísia Floresta assusta quando apresenta um índio submisso e revoltado com a opressão motivada pelos europeus. Mas além de tratar a questão indígena, evoca outra tendência romântica: os conflitos políticos ao qual a sociedade estava eventualmente inserida.
Nesse poema a autora faz reflexões sobre a derrota dos liberais na Revolução Praieira, a qual ocorreu em 1848, em Pernambuco. Dá voz aos povos indígenas através da sua pena, reclamando a degradação dos nativos, associando o desfecho dos fatos à revolução, a qual deu cabo a vida de tantos intelectuais revoltosos que ousaram gritar contra a coroa portuguesa, seu autoritarismo e seus desmandos. Já naquela época ela evidencia a perda da identidade dos nossos índios. Mostra-nos um índio não inocente sem endossar as teorias européias que os caracterizavam como detentores de uma bondade natural. E esse clamor não significa o fim da Revolução Praieira, mas em maior grau o fim da resistência indígena diante dos opressores europeus. (parei aqui)Interessante destacar que nesse livro Nísia lançou outro pseudônimo: Telesila, numa alusão a heroína grega. A autora revela uma personalidade forte, incitando a resistência. Ao criticar o autoritarismo do governo e o privilégio dado aos estrangeiros ela parece não temer encontrar pela frente a guilhotina que tantos encontraram.

8-FRANÇA

No ano seguinte Nísia Floresta embarcou com os filhos para França a bordo da galera Villi de Paris. Sua filha Lívia Augusta sofrera um acidente ao andar de cavalo e o médico indicou um tratamento comum à época “mudança de ares”. Há quem diga que sua saída temporária do Brasil é explicada por receio às conseqüências do conteúdo do livro “A lágrima de um caeté”, mas, como já refletimos, o estilo da escritora não dá margens para isso.
Outros fomentam estórias que ela recuou um pouco em decorrência das inúmeras calúnias publicadas em jornais, muitas delas irônicas e debochadas, empreendidas por pessoas anônimas, ora contra o colégio, ora contra a sua proprietária. Algumas calúnias chegavam ao ponto de violar sua intimidade. Tais calúnias seriam mais tarde resgatadas, incentivadas e até mesmo cultuadas por uma das suas conterrâneas: Isabel Urbana de Albuquerque Gondim, a qual, mesmo sem ter conhecido Nísia Floresta, escreveu em 1884, ano antes da morte desta, um verdadeiro dossiê com acusações graves, as quais supostamente nunca chegaram ao conhecimento da escritora.
Tendo passado mais de um mês em alto-mar Nísia Floresta chega a Paris. No Arquivo Nacional de França, na seção de passaportes consta o seguinte: “Mme. Augusta, Nísia Floresta Brasileira – 39 anos, acompanhada de seu filho e sua filha. Origem: Rio de Janeiro. Domicílio real: Rio de Janeiro. Destino: Paris. Profissão: Rendas”.
Em 1850, mesmo ausente, Nísia Floresta tem um livro seu publicado no Brasil: Dedicação de uma amiga, assinado com as iniciais B. A. São dois volumes. No Dicionário Bibliográfico de Inocêncio o autor diz que a obra provavelmente é composta de quatro volumes, mas apenas dois foram publicados.
Em 1851 a intelectual integrava o público que assistia as conferências do curso de História Geral da Humanidade, ministradas pelo filósofo Auguste Comte no Auditório Palácio Cardinal, em Paris. Mas ela só iria travar contato com o filósofo em 1856.
Ainda em 1851 Nísia Floresta viaja para Portugal e fica até janeiro de 1852, quando embarca para o Brasil no navio Treviot.

9 – O RETORNO AO BRASIL

Familiares recebem a família de Nísia Floresta com festa. O Jornal das Senhoras, datado do dia 22 de fevereiro de 1852, de propriedade de Joana Paulo Manso de Noronha saudou a escritora e informou sobre sua vida na Europa.
Em 1855, ela vivenciará a triste experiência da doença da mãe. E justamente no mês em que o marido morreu, d. Antonia Clara Freire faleceu em 25 de agosto de 1855. Com certeza teria sido pior seu sofrimento se ela estivesse ausente. A morte de sua genitora, a do pai e a do marido, todas ocorridas em agosto será constantemente lembrada pela autora como a “tríplice perda”, por isso ela passou a considerar tal mês como “funesto”.
Essa passagem é destacada no texto intitulado “O pranto filial”, e no “O Brasil Ilustrado”, de 1856, onde Nísia Floresta expõe sua nostalgia e a tristeza por tais mortes. Isso permite aos estudiosos de sua obra observar o estilo que a autora tinha de expor certas particularidades de sua vida.

Nesse período o Rio de Janeiro é assolado pela febre amarela e Nísia Floresta passa a trabalhar voluntariamente na enfermaria do Hospital de Nossa Senhora da Conceição, situado na rua da Quitanda, n.40 ajudando as vítimas. Em 1856 ela edita “Pensamentos” – um livro de versos.
É interessante destacar a importância que Nísia Floresta ocupa na história do Brasil, tendo em vista ter chamado a atenção da sociedade para pensar os horrores da escravidão – fazendo-o de forma assumida e publica muito antes de a princesa Isabel nascer. Tal gesto era inédito até mesmo a homens letrados – pois nem todos tiveram tal coragem – imagine a uma mulher.
Supostamente Nísia Floresta vem a ser precursora, enquanto mulher, na defesa da abolição da escravidão no Brasil, pois outro registro diz respeito a Maria Firmina dos Reis, no Maranhão, autora de Úrsula, escrito em 1859. Outras mulheres também viriam a abraçar publicamente a causa ao longo do tempo, como por exemplo, Luciana de Abreu, Ismênia Santos, Narcisa Amália, Ana Aurora do Amaral Lisboa, Revocata de Melo, Maria Amélia de Queiroz, Luíza Regadas, dentre outras.
Tais nomes, incluindo o de Nísia Floresta, não são tão conhecidos, tendo em vista o papel secundário que as mulheres tinham no seio da sociedade enquanto pessoas públicas e formadoras de opinião. A palavra de uma mulher não tinha o peso da voz masculina.
O Brasil parecia estar cego diante dos países do seu entorno, restando sozinho com o regime escravocrata. A Europa e a América do Norte já haviam declarado extinta a escravidão há tempos. Nísia Floresta lançava o seu grito questionando o governo por ser adepto de tal sistema e ao mesmo tempo proclamar-se liberal, numa ridícula contradição. Livros como A lágrima de um Caeté, de 1849; Opúsculo Humanitário, de 1853; Passeio ao Aqueduto da Carioca, de 1855; e Páginas de uma vida obscura, de 1855 abordam a escravidão –, uns numa dimensão mais profunda e ácida –, outros de forma mais sutil. Seu interesse sempre foi permitir aos brasileiros enxergar tal regime como vergonha cristã e gesto de desumanidade. A propósito perguntava o que dava autoridade a uma raça – no caso a branca – para ter tanto poder sobre a outra – a negra.
Futuramente Cintilações de uma alma brasileira, de 1859; O Brasil, de 1871; os dois volumes de Três anos a Itália seguidos de uma viagem a Grécia, de 1864 e 1874 também abordariam o assunto, onde percebemos que da sua primeira referência à escravidão à última ela foi lapidando suas reflexões. Em A lágrima de um caeté percebe-se sutis críticas ao tráfico de escravos. Em Opúsculo Humanitário ela trata longamente o assunto. Apenas em Três anos a Itália, seguidos de uma viagem à Grécia a autora prega a abolição de forma explícita.
Outra preocupação da autora diz respeito às observações feitas na Europa, onde entendiam o Brasil como um país de selvagens, de doenças, enfim com diversos preconceitos. No livro O Brasil, de 1871 (publicado inicialmente em francês e depois em italiano) ela descortina um panorama muito diferente do propagado, apresentando sua rica e vasta natureza, enaltece a formação intelectual do seu povo, as revoltas em prol da sua independência. Seus escritos são otimistas – e ufanistas. Ela leva o leitor a concordar que sua pátria tem quase tudo para um futuro promissor.

10 – A SEGUNDA VIAGEM À EUROPA

No dia 10 de abril de 1856, Nísia Floresta embarcou com sua filha Lívia Augusta para a segunda viagem a Europa. Optou por deixar seu filho Augusto Américo no Rio de Janeiro, onde estudava. Lívia estava com 16 anos e sua mãe só retornaria ao Brasil 16 anos depois.
Essas viagens empreendidas solitariamente e de forma decidida também possibilitam diversas reflexões, pois ela precisava se organizar muito bem para ausentar-se de seus familiares, deixar o Colégio Augusto e seus bens aos cuidados de outros. Dessa forma a instituição estampa pela última vez informações sobre os cursos ali ministrados e, após dezesseis ou dezessete anos de funcionamento o polêmico educandário é extinto.
Pode-se pensar que a intelectual, por mais que se esforçasse, não encontrava em seu país o alimento para a sua intelectualidade. Não havia campo para suas ações de pessoa culta e interessada em prestar serviço sociedade de forma concreta. Ela detinha alto conhecimento, mas não havia como colocá-lo em prática. Até mesmo a questão das relações interpessoais não era interessante para ela, tendo em vista que as mulheres, por não possuírem nível de conhecimento semelhante, formavam uma barreira na comunicação. Logicamente que a dimensão das suas discussões não se resumia a livretos de reza, receitas culinárias, afazeres domésticos, e quando muito, romances franceses cheios de melodrama – tão comuns às donas de casa da época – com raras exceções.
A França, considerada berço da cultura e do conhecimento – à época – a atraia justamente por possuir toda uma estrutura, na qual intelectualmente havia espaço para o campo das idéias. Obviamente que, assim como no Brasil, o conhecimento avançado era privilégio masculino. Mas a dimensão e a profundidade como fluía na França, principalmente em sua capital, e a possibilidade de darem acesso às mulheres, permitiam a Nísia Floresta a opção de buscá-lo.
O fato de Nísia Floresta ter conhecido Auguste Comte, em 1856 e ter mantido com ele uma sólida amizade, inclusive com troca de correspondências, evidencia o nível intelectual dessa brasileira, pois o filósofo, profundamente estudioso não perderia seu precioso tempo, da mesma forma como ela o fez no Brasil. Certamente se tivesse ficado conversando sobre receitas de bolo e assuntos de almanaque suas limitações intelectuais seriam grandes.
A amizade entre Comte e Nísia Floresta assinala um ponto muito significativo na história do positivismo. Não que ela tenha contribuído com a construção dessa doutrina, mas pelo fato do seu fundador enxergar na brasileira a pessoa ideal para participar da mesma e divulgá-la. A brasileira o recebeu algumas vezes em sua casa, tanto quando residiu na rua d’Enferm, 11, quanto na rua Royer Collard, 9, a qual ficava próxima ao Jardim de Luxemburgo, da Universidade de Sorbone e da Rua Monsieur Le Prince, 10, onde residia Comte. Esse contato durou pouco, pois em menos de um ano após tê-lo conhecido Auguste Comte morre. Nísia Floresta acompanha o amigo até sua derradeira morada, o Cemitério Père Lachaise, juntamente com Sophie Bliaux, filha adotiva de Comte, de Mme. Laveyssière, irmã de Sophie, e de Mme. Maria Robiet, esposa de um positivista francês.
As correspondências trocadas entre ambos foram guardadas por e encontradas depois por familiares. Diferente do que alguns apregoam – insinuando ter havido relacionamento amoroso entre os dois – revelam assuntos completamente opostos. Tratam Essas correspondências tratam de agradecimentos pelo envio de um retrato ou de um livro, doenças e tratamento homeopático, votos de pesar pelo aniversário de morte de Clotilde de Vaux, a mulher que estava na vida de Comte na mesma dimensão com que Manuel Augusto estava na vida de Nísia Floresta. Qualquer epístola da época primava pela arte da caligrafia, elegância na escrita e romantismo. Tais características tinham imenso significado, mas nesse sentido o que se nota é apenas a escrita romântica comum. Interessante também ressaltar que a letra da brasileira, diferente dos típicos desenhados da época, não era bonita. Tais cartas estão na Igreja Positivista do Brasil, no Rio de Janeiro, cuja primeira esta datada de 19 de agosto de 1856 e a última no dia 29 de agosto de 1857. Em Paris, na Maison d’Auguste Comte, museu em homenagem ao filósofo, estão expostas as cartas escritas por Nísia Floresta. A primeira é de 19 de agosto de 1856 e a última é de 1º de julho de 1857, num total de seis cartas.
Ivan Lins documentou no livro História do Positivismo no Brasil o relato de um senhor de engenho pernambucano feito ao positivista Antonio Pereira Simões, o qual descreveu a participação de Auguste Comte numa reunião na casa de Nísia Floresta, em Paris, conforme também registrou Adauto da Câmara. A brasileira o saudou com grande reverência, destacando a importância do filósofo naquele encontro.

11 – O AUGE DE UMA INTELECTUALIDADE

Em 1857, quando José de Alencar trazia a público o Guarani, Nísia Floresta editava em Paris Itinèraire d’un Voyage en Allemagne (Itinerário de uma viagem à Alemanha), com o pseudônimo Mme. Floresta A. Brasileira. Ela organizou o livro em forma de trinta e quatro direcionadas para o filho e aos irmãos, comentando de forma incomum os inúmeros lugares que percorreu na Alemanha.
Muito diferente dos tradicionais relatos de viagens da época, a autora descreve a própria subjetividade, a ponto de se colocar no centro da narrativa, dando a impressão que tudo girava em torno dela. O livro acaba assumindo um lado biográfico da autora, pois traz informações de sua vida, nome dos filhos e irmãos, as datas de morte da mãe e do esposo, dentre inúmeros fatos relacionado a sua família. Esse trabalho foi conhecido por Machado de Assis, mas certamente ele pensou tratar-se de mais um tradicional relato de viagem.
Logo em seguida ela visita Roma, Nápoles, Florença, Veneza, Verona, Milão, Torino, Livorno, Pádua, Mântua, Pisa, Mombasilio e Mandovi e conheceu várias cidades da Sicilia e da Grécia.
Em Florença assistiu a cursos de Botânica, ministrados por Parlatore, um antigo colaborador de Humboldt. Ela já havia assistido aulas dessa matéria no Colégio da França e no Museu de História Natural, conforme registrou. Também nessa cidade italiana publicou Scintille d’un anima brasiliana (Cintilações de uma alma brasileira), em 1859, assinando Floresta Augusta Brasileira, que contém cinco ensaios: “O Brasil”, “O abismo sob as flores da civilização”, “A mulher”, “Viagem magnética”, “Um passeio ao Jardim de Luxemburgo”.
Em 1860 a autora publica em língua italiana Le lagrime de un Caeté (A lágrima de um Caeté). Seu tradutor – Ettore Marcucci -, além de um prefácio elogioso, anexou quarenta e uma notas sobre o vocabulário, fazendo relação do poema com versos de Dante, de Ariosto, e até mesmo com a Bíblia.
Em 1861 Nísia Floresta retorna a Paris. Em 1864, lança o primeiro volume de Trois ans en Italie, suivis d’un Voyage en Grèce (Três anos a Itália, seguidos de uma viagem a Grécia), assinado “par une brèsiliene” (por uma brasileira). Escrito em forma de um diário de viagem Nísia Floresta nos surpreende ao mostrar a maneira como os italianos vivem, a cultura popular e as histórias desse povo. Tendo vivenciado o período da Comuna e a revolução em prol da unificação da Itália, a autora acaba documentando fatos que muito contribuem com a história desse país.
Em 1865, na Inglaterra, é a vez de presentear o público com Women (Mulher), que integra um dos ensaios de Cintilações de uma alma brasileira, traduzido Pela filha, Lívia Augusta. Em 1867, publica em Paris o romance Parsis. Apesar de constar na própria bibliografia da autora nunca foi encontrado um exemplar, mas com certeza não seria difícil, numa busca mais apurada, encontrá-lo em alguma biblioteca ou arquivo histórico europeu. O grande problema do nosso país é exatamente os recursos para financiar uma pesquisa mais aprofundada pelo Velho Mundo.
Em 1871 é a vez de mais um ensaio de Scintille d’un anima brasiliana ir a público: Brèsil (Brasil). O livro é traduzido por Lívia Augusta Gade. A única novidade sobre a filha querida de Nísia Floresta é que a mesma se casara com um alemão e ficara viúva quatro meses depois. Tal qual sua genitora, permaneceu viúva até a morte. Uma falha por parte do governo norte-riograndense decorre do fato de terem tido a oportunidade de fazerem uma ampla pesquisa sobre Nísia Floresta e sua filha, tendo em vista que o intelectual Henrique Castriciano esteve em Cannes e entrevistou Lívia Augusta. Mas nada foi feito, inclusive a aquisição de bens da escritora, os quais estariam integrando hoje um memorial.
Em Paris, semelhante ao clima brasileiro vivenciado por ela nas revoluções de 1817 e 1824 e a própria Farroupilha, o ambiente torna-se ameaçador. A Comuna assume o poder e dá origem a um governo republicano e socialista, o qual passa a enfrentar a monarquia. A confusão está formada e o resultado é bombardeio na capital. Muito sangue é derramado até o seu aniquilamento, em 1871. Tais fatos nos são informados por Nísia Floresta em Fragmentos de uma obra inédita, inclusive relata sua experiência de se hospedar na residência de pessoas amigas no interior da França para proteger-se. E o fez muito bem, pois tendo retornado se depara com tudo destruído em sua residência. Ela deixa Paris rumo a Londres e depois Portugal, embarcando sozinha para o Rio de Janeiro. Sua filha optou por ficar na Europa, pois tendo passado a maior parte da sua vida no Velho Mundo, com certeza não sentia necessidade de retornar ao Brasil.
Em 1872 é publicado em Paris o segundo volume de Trois ans en Italie, suvis d’un Voyage en Grèce (Três anos na Itália, seguidos de uma viagem a Grécia). Nísia usa o pseudônimo Une Brésilienne (Uma brasileira). Em 23 de maio desse mesmo ano, a revista O novo Mundo, de J. C. Rodrigues, de Nova York, estampa uma abrangente notícia com a biografia da escritora com retrato.

12 – A ÚLTIMA VIAGEM AO BRASIL

Em 1872, Nísia Floresta desembarcava no Rio de Janeiro, o qual estava muito diferente do Rio que ela havia deixado. A campanha abolicionista, a qual ela havia sido uma das iniciadoras, estava amadurecida e organizada, conduzida por intelectuais de prestígio, inclusive com espaço em jornais. O que era inadmissível alguns anos antes. Mas nada disso representava êxito, pois o Governo que se proclamava liberal – o Império ilhado por repúblicas – permanecia aparentemente indiferente. Algumas leis haviam sido adotadas com relação aos escravos, mas de forma que os poderosos tirassem sempre proveito. A Lei Rio Branco fora uma delas. Somava-se a isso o movimento republicano que crescia cada vez mais. Certamente Nísia Floresta percebeu que, apesar de não ser o Brasil que esperava, muito havia mudado e que grandes mudanças estavam prestes a ocorrer na próxima década.

13 – O RETORNO DEFINITIVO PARA A EUROPA E A PERDA DO IRMÃO

Nísia Floresta passou pouco tempo no Brasil. Em 24 de março de 1875, retorna à Europa pela Inglaterra. Se encontra com a filha, demoram um pouco em Londres e vão para Portugal, permanecendo em Lisboa.
No dia 9 de novembro desse mesmo ano, o irmão Joaquim Pinto Brasil morre no Rio de Janeiro de pleuropeumonia. Lívia estava distante e seria informada vários dias depois, em Ventnor, na Inglaterra.
O último trabalho de Nísia Floresta foi ao público em 1878 em Paris: Fragments d’un Voyage inédit – notes biographiques (Fragmentos de uma obra inédita – notas biográficas), e mais um pseudônimo é lançado: Mme. Brasileira Augusta. Dedicado a sua irmã Clara, ela dedica a maior parte das páginas para falar do irmão Joaquim Pinto Brasil, permitindo assim conhecermos a sua própria biografia. Ela estava tocada pela morte do irmão, ocorrida um ano antes e supostamente iniciou os primeiros rascunhos sob o manto do luto. Esse livro foi reeditado no Brasil, na década de 2000, pela jornalista Nathalye Bernardo Câmara.
Infelizmente Nísia Floresta não deixou nada escrito que explicasse uma significativa mudança de endereço, mas algum tempo após a publicação desse livro muda-se para Rouen, cidade medieval, cenário de onde Joana D’Arc foi queimada viva e de um desfile de índios brasileiros que causaram frisson nos franceses no século XVI.

14 – UMA CARTA NO MEIO DO CAMINHO

Em 1884 (um ano anos da morte de Nísia Floresta) a conterrânea Isabel Urbana de Albuquerque Gondim, nascida 23 anos após Nísia Floresta, escreveu uma imensa carta a J. F. Souto (pessoa desconhecida na História do RN) na qual denigre Nísia Floresta do início ao fim. Trata-se de uma ação inexplicável, tendo em vista que ambas não se conheciam.
OBS. Esse trecho foi retirado tendo em vista constar de 70 páginas e não representar relevância para esse material d estudo.

15 – MORRE “MME. BRASILEIRA AUGUSTA”

Aos 24 de abril de 1885, a brasileira notável morre em conseqüência de uma pneumonia. Seu sepultamento acontece semanas depois em um jazigo perpétuo no Cemitério de Bonsecours. Os jornais de Rouen não anunciaram o fato e nenhum outro periódico europeu. O que nos leva a supor que ela escolheu Rouen para afastar-se da vida movimentada que havia tido, onde o dinamismo, as viagens e os estudos foram uma constante. Ela não queria mais ser notícia. Sua missão estava cumprida. Rouen representava um ninho silencioso, no qual encontrou paz.
Na alvenaria gelada do cemitério de Bonsecours Lívia mandou esculpir as seguintes palavras: “Aqui jaz minha mãe Nísia Floresta Brasileira Augusta. Nascida em 12 de outubro de 1810. Falecida em 24 de Abril de 1885”.
O Brasil só tomou conhecimento da morte da escritora na segunda quinzena de maio, através de convites para missas e breves informações sobre a mesma, feitos pela família. Por exemplo: “Faleceu em Ruão, França, onde desde alguns anos se achava, D. Nísia Floresta Brasileira Augusta, escritora cujo nome é conhecido nas letras pátrias. Por muitos anos exerceu aqui no Rio de Janeiro o mister de educadora do sexo feminino, e da operosa tarefa a que se impusera, larga foi a sua compensação que encontrou nas muitas discípulas que lhe fizeram e ainda lhe fazem honra” (O País, 27.5.1885).
Alguns biógrafos afirmam que Nísia Floresta deixou alguns trabalhos inéditos como: Inspirações maternas, Viagem a Itália, Sicília e Grécia em 1858 – 1859 e Memórias de minha vida. É provável que tal afirmação proceda, até porque a intelectual era muito dinâmica e afeita a escrita. Como percebemos, ela realizava diversas atividades literárias em curto espaço de tempo. Existem livros que foram reeditados em anos seguidos. Em outros casos, enquanto reeditava um, lançava outro. Mas até o momento nenhum pesquisador encontrou os livros citados.
Na sessão de Registros de Falecimentos do Arquivo Departamental de Rouen existem poucas informações sobre o inventário de Mme. Faria. Para grande surpresa pode-se ler:“Certificado de Indigência Viúva Faria, Manuel Augusto Profissão: Rendas Local de falecimento: Bonsecours Idade:74 Data de falecimento: 24 de abril de 1885”.
Não há quem não estranhe esses escritos, os quais representam uma antítese diante do que se pensava – e que somos levados a pensar – sobre Nísia Floresta, pois a mesma tinha uma vida pautada por sucessivas viagens e publicação de livros. Para tanto necessitava-se viver em fausto.
A julgar por tais informações podemos supor que seus últimos anos de vida, diferentes dos anos áureos de tantas publicações e vendas, foram sem nenhuma renda para a brasileira. Supõe-se que a mesma vivesse da renda oriunda das propriedades que a família possuía no nordeste do Brasil. No endereço onde Nísia Floresta residiu, em Rouen, na Grande Route, nº 121, está a provável residência que tenha lhe servido de abrigo até a sua morte. Trata-se de uma casa simples, de pedras e tijolos à vista.

16 – HOMENAGENS E O ENCONTRO COM A FILHA DE NÍSIA FLORESTA.

A história da filha mais ilustre de Papari não se encerrará com sua morte. Nísia Floresta, a incansável viajante ainda fará outra viagem. E será realmente a última. Logo após a sua morte uma ocorre uma sucessão de lembranças e esquecimentos acerca de sua memória, mas aos poucos sua memória irá se impondo, graças a ações de admiradores e intelectuais que, num verdadeiro quebra-cabeça, irão montando sua história.
Quem primeiro pensou em divulgar o nome de Nísia Floresta em nossas terras foi o Centro do Apostolado do Brasil em 1888, no Rio de Janeiro, o qual levou ao público as Sete cartas inéditas de Auguste Comte a Nísia Floresta. Para os positivistas era orgulho divulgar o nome de uma brasileira que tinha conhecido com o pai do Positivismo.
Coincidentemente a abolição da escravidão ocorreu nesse mesmo ano, o que não foi nada mais que a culminância da luta e do sonho de tantos brasileiros audaciosos, onde se incluía de forma destacada o nome de Nísia Floresta.
Seu filho Augusto Américo de Faria Rocha morreria quatro anos depois, aos12 de março de 1889. Os que o conheceram o descreveram como homem singular, de finos tratos, um educador inato. Certo norte-riograndense descrevia o filho de Nísia Floresta da seguinte forma: “de pequena estatura, gordo, com barba e cabelos ruivos e anelados, andava sempre apoiado em uma bengala. Muito afável, todos gostavam dele por sua bondade, que, às vezes, dava lugar a uma firme energia e autoridade”. (Diário de Notícias de 22 de outubro de 1950). O mesmo foi professor e diretor do Colégio Santo Agostinho e Colégio Augusto (não se trata do colégio de sua mãe). Nesse colégio, situado na capital do Rio de Janeiro, estudou Washington Luiz Pereira de Souza, o qual veio a se tornar presidente do Brasil. O mesmo foi interno no período de 1885 a 1887.
Um abnegado em prol de investigações sobre Nísia Floresta foi Henrique Castriciano, o fundador da Escola Doméstica. Ele fez importante levantamento, mas não publicou. Passou suas pesquisas para Adauto da Câmara, que publicou no Rio de Janeiro, pela Editora Irmãos Pongetti, História de Nísia Floresta, primeiro livro sobre a escritora, em 1941. Grande parte do que se sabe sobre ela foi garimpado por esse ilustre intelectual, o qual esteve com Lívia Augusta, em Cannes e entrevistou-a. Nesse aspecto cabe uma reflexão sobre a oportunidade única que o estado do Rio Grande do Norte teve e perdeu.
Atualmente o que mais se fala é sobre a necessidade de se construir um Memorial sobre Nísia Floresta, mas praticamente não existe nada que tenha pertencido a ela para dar brilho à instituição pensada. Se na ocasião do encontro de Castriciano e Lívia tivesse havido essa preocupação, hoje teríamos um memorial riquíssimo, com móveis, livros, fotografias, roupas, enfim seria muito atraente a visitação.
Castriciano assim se referiu a Nísia Floresta, em 1908: “Poucos brasileiros conhecem esse nome. Entretanto ele é o de uma das mais fortes mentalidades femininas desse país” e ainda dizia que Nísia “teve a existência atormentada, intensa e gloriosa”.
O Rio Grande do Norte parece ter se preocupado em evocar o nome de Nísia Floresta de forma mais substancial somente em 1909, justamente na data a qual pensavam que ela havia nascido. No dia 12 de outubro erigiram próximo ao local que acreditam ter sido sua residência, um monumento em homenagem ao seu centenário. A iniciativa foi do Congresso Literário e do Atheneu Norte-Riograndense, apoiados pelo governador Alberto Maranhão.
A partir de então outras homenagens se seguiram, como um artigo de Constâncio Alves, publicado no Jornal do Comércio em 21 de outubro de 1909. Na realidade foi a reprodução do que a Revista New World, de New York havia publicado no auge da carreira da intelectual e no Dicionário Bibliográfico Brasileiro, de Sacramento Blake. Mas não deixou de ter grande repercussão, pois raros eram os brasileiros que conheciam o teor de tal material.
Em 1911 a praça batizada com o nome de um célebre intelectual potiguar – que coincidentemente fez história na França - Augusto Severo, foi escolhida para abrigar um medalhão de bronze, feito em Paris pelos escultores Corbiniano Vilaça e Edmond Baboche. A idéia também foi de Henrique Castriciano. A peça, muito simples, figurava a efígie da intelectual, uma estrela de granito, incrustações de bronze e as datas de nascimento e de morte. Infelizmente esse conjunto que nas palavras de Nilo Pereira era uma “pequena obra-prima de delicadeza, expressão, de arte” não existe mais, pois no dia 25 de outubro de 1949 roubaram o medalhão e aos poucos o restante foi sendo destruído. O fato foi amplamente divulgado pela imprensa local. Muito tempo depois o medalhão foi encontrado num ferro velho e entregue ao Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte.
No dia 26 de abril de 1912 Lívia Augusta morre e é enterrada ao lado da mãe, em Rouen. Ambas tiveram destino parecidos, pois após ficarem viúvas, jamais se casaram novamente. Lívia viveu mais na França que no Brasil. Para lá partiu aos 19 anos, em 1849, falecendo aos 82 anos. Foram 63 anos de vida no Velho Mundo, tendo morado na Inglaterra, Itália, França, Alemanha e em Portugal.
Lívia Augusta parece ter optado – ou se acomodado – a uma vida muito diferente da mãe. Há registros de que tenha trabalhado como preceptora. Era poliglota, inclusive traduziu um dos livros de sua mãe. Mas nada mais a destaca.
Em novembro de 1919, Oliveira Lima discursou longamente sobre Nísia Floresta, no dia da formatura da primeira turma da escola Doméstica de Natal. Para ele Nísia Floresta era “a mais notável mulher de letras que o Brasil produziu, quer pela amplitude da visão, quer pela suavidade do estilo”. Sobre o pseudônimo da intelectual escreveu: “nome disparatado (...) e esdrúxulo na sua mistura do arcádico e patriótico” (Jornal A República, 28.11.1919).
Em 1924, o escritor maranhense Reis de Carvalho profere uma palestra sobre Nísia Floresta no Centro de Cultura Brasileira no Rio de Janeiro. Se no Rio Grande do Norte – terra de admiradores – as informações eram escassas, no Rio de Janeiro as dificuldades seriam maiores. Exatamente a falta de dados levou Reis de Carvalho a não apresentar novidades. Mas foi muito bem recebida e divulgada.
Em Goianinha, interior do Rio Grande do Norte, no entanto não aconteceu o mesmo. Dr. Joaquim Grillo fez uma conferência no aniversário de morte da escritora, em 24 de abril de 1924, mas divulgou informações erradas e acabou por manifestar opinião desabonadora sobre a conterrânea. A homenagem acabou se tornando um dossiê de acusações.

17 – NOVAMENTE ESQUECIDA E NOVAMENTE LEMBRADA

Os anos se passaram e Nísia Floresta passou quatro décadas quase esquecida. O pouco que se sabia sobre ela estava envolto em muito preconceito. A carta escrita em 1884 por Isabel Gondim, encarregava-se de alimentar as mais absurdas e mentirosas informações. O ideal para um estado pouco desenvolvido e para a velha Papary, parada no tempo, era evitar propagar um nome que trazia desconforto.
Em 1926, Raimundo Teixeira Mendes traduziu e publicou alguns trechos de Três anos a Itália, seguidos de uma viagem à Grécia no Extrato de publicações positivistas no Rio de Janeiro. Na ocasião erigiram na Praça da República do Rio de Janeiro um monumento denominado Monumento de Benjamin Constant, incluindo-se a imagem de Nísia Floresta entre grandes nomes que se tornaram públicos em defesa da escravidão, como a Princesa Isabel, Castro Alves e outros.
Em 1928, é publicado em Paris Auguste Comte et Mme. Nísia Brasileira – Correspondance (Augusto Comte e Nísia Floresta – Correspondência). Essas cartas apesar de seus conteúdos terem sido revelados – e publicados –, como vimos acima, têm grande peso na difamação dos seus autores. Alguns insistem em dizer – irresponsavelmente – que ambos foram amantes e as cartas tratam desse relacionamento. Em 1998 fui convidado para falar sobre Nísia Floresta a uma turma de alunos na UFRN e fiquei surpreso quando um conceituado professor afirmou isso, como se conhecesse as missivas.
Em 1933, no Rio de Janeiro, Roberto Seidl publicou o ensaio Nísia Floresta -1810-1885 – vida e obra de uma grande educadora, precursora do abolicionismo, da República e da emancipação da mulher no Brasil. O título, muito pomposo, não atende ao conteúdo apresentado, no qual o autor reproduz dados biográficos e tece ligeiras reflexões sobre a autora. Não houve novidade.
Em Porto Alegre, Fernando Osório dá uma grande contribuição à história de Nísia Floresta, publicando em Mulheres Farroupilhas o manuscrito Fany, uma novela escrita pela potiguar, a qual se encontrava desaparecida. O exemplar foi-lhe presenteado pelo Dr. Antonio Augusto Borges de Medeiros.
Em 1938 a Federação das Academias de Letras reedita A lágrima de um Caeté, trazendo estudo crítico de Modesto de Abreu. Infelizmente a publicação traz erros de impressão que deturpam uma série de versos. Como se não bastasse escreve logo na introdução opinião desmerecendo a dimensão do trabalho de Nísia Floresta.
Numa carta escrita por Henrique Castriciano, aos 25 de julho de 1938, dirigida a Adauto da Câmara, encontramos uma informação muito importante – e decepcionante, na qual ele informa que a edição das correspondências trocadas entre Nísia Floresta e intelectuais europeus perdeu-se num naufrágio. Tais informações foram obtidas vinte e sete anos antes, quando Henrique esteve com Lívia, em Cannes.
Adauto da Câmara, que publica em 1941 o livro História de Nísia Floresta, com o resultado de investigação junto a arquivos e bibliotecas, e com o material que recebeu de Henrique, muito lutou para conseguir o atestado de óbito de Nísia Floresta através do Itamaraty, mas nunca obteve êxito. O Consulado Geral do Brasil, no Havre, apesar do empenho, informou não haver encontrado nada na Prefeitura de Rouen, com relação ao registro de morte da brasileira. A situação era difícil.

18 – PAPARI TORNA-SE NÍSIA FLORESTA

Em 1948 Papary passa pela sua quarta mudança de nome: originalmente Papari, Vila Imperial de Papari,Vila de Papari, Papari e finalmente Nísia Floresta. A mudança deu-se através do decreto-lei nº 146, do dia 23 de dezembro de 1948, de autoria do deputado Arnaldo Barbalho Simonetti. O fato vem a ser um dos mais curiosos na história do município, pois assinalou transformação na visão sobre a conterrânea. Ou pelo menos aparentou. Não há registros de que tenha havido rejeição ou atitude semelhante. Entre homenagens e esquecimentos o preconceito oscilou por muito tempo. O nome da ilustre potiguar que tanto defendeu os índios é escolhido pelo indianista Marechal Rondon para um posto indígena em Pernambuco.

19 – SEU TÚMULO É LOCALIZADO EM ROUEN

Em fevereiro de 1950, o jornalista Orlando Ribeiro Dantas, fundador do Diário de notícias do Rio de Janeiro empreende uma rigorosa busca na França até localizar o túmulo em Bonsecours, arredores de Rouen. Até então ninguém supunha o local onde Nísia Floresta havia sido sepultada. Através da lei 1.892, de 23 de junho de 1953, do Ministério da Educação, o governo brasileiro recebe autorização para trasladar os despojos da intelectual para o Brasil.
O encarregado de tomar todas as providências em Rouen foi o Dr. Marciano Alves Freire, presidente do Centro norte-riograndense, no Rio de Janeiro. No dia 9 de agosto de 1954, ele embarca em Marselha no navio Loide-Brasil com a funerária, chegando em Recife o dia 5 de setembro. Um problema burocrático ocorreu assim que os funcionários da alfândega constataram que a “mercadoria” citada no documento se tratava de restos mortais de uma pessoa. Mas a sorte estava do lado dos que sempre sonharam com aquele momento. Um conterrâneo de Nísia Floresta, nada menos que o presidente da República Café Filho, interferiu com um telefonema e pediu que liberassem o ataúde.

20 – NÍSIA FLORESTA CHEGA EM NATAL

No dia 11 de setembro de 1954, a imprensa carioca, pernambucana, paulista e potiguar estampam fotos da intelectual com notícias sobre a chegada dos despojos a Natal. Ocorreram diversas homenagens na Base Naval com a presença das mais representativas autoridades. O caixão ficou exposto a população, sob guarda da Marinha e Aeronáutica, ao som de bandas de música.
Dr. Alfredo de Moraes, comandante do navio que trouxe os despojos da intelectual, descreveu com emoção a urna no convés e a chegada em Natal, sob pompa de chefe de estado. Coincidentemente o mesmo veio a se tornar presidente da Igreja da Humanidade no Rio de Janeiro,
A celebração da missa de encomendação do corpo ficou sob responsabilidade do Monsenhor João da Mata Paiva, coincidentemente originário de família de Papari.
No mesmo dia os Correios lançam nacionalmente um selo comemorativo ao traslado dos restos mortais de Nísia Floresta, cuja estampa apresentava um retrato da intelectual bem madura.
21 – NÍSIA FLORESTA RETORNA A PAPARI

No dia 12 de setembro finalmente o ataúde chega ao município de Nísia Floresta. Depoimentos de nativos ainda vivos que presenciaram o evento afirmam que a pequena e acanhada cidade ficou pequena para tantos veículos e pessoas. Ocorreu uma missa de corpo celebrada pelo Monsenhor Rui Miranda. Diversas autoridades discursaram, recebidas pelo prefeito José Ramires. A Academia Norte Riograndense de Letras, juntamente com a prefeitura do município haviam mandado construir uma base quadrada de alvenaria para abrigar a caixa com os restos mortais. Eles não imaginavam que receberiam um caixão tradicional.
Nísia havia sido embalsamada, inclusive seu corpo estava semi-intacto, a ponto de na ocasião ser possível ver suas feições. Outro fator que colaborou com o estado de conservação do corpo foi o chão gelado de Rouen, tão próximo da fria Inglaterra. Pode-se supor que a insigne brasileira almejasse ser sepultada na sua inesquecível Floresta.
Nilo Pereira testemunhou a abertura do caixão e deixou o seguinte depoimento:

“Haviam dois caixões, um de zinco e outro de ébano. Ao abrirmos este último, subiu um cheiro que eu chamei de múmia: mofo concentrado. Cheiro de morte velha. Ela estava levemente reclinada. Os cabelos passavam dos seios. Dava para ver bem a fisionomia. Não devia ter sido bonita a nossa Nísia. Bonita por dentro, isso sim (Jornal Tribuna do Norte, 26.05.1985).

Diante da novidade do ataúde tiveram que guardá-lo por alguns meses no interior da Igreja Matriz de Nossa Senhora do Ó, até que a referida academia providenciasse o túmulo, o qual supõe-se estar construído a poucos metros de onde existiu a casa dos pais da intelectual.
Inicialmente houve indisposição entre a Academia Norte-Riograndense de Letras e a Prefeitura de Nísia Floresta, tendo em vista que o prefeito havia firmado com a instituição o compromisso de construir o túmulo e não o fez. Os jornais divulgaram que o caixão com o corpo da escritora estava esquecido na Matriz. Diante do impasse a Academia empreendeu uma campanha para conseguir a estrutura necessária e assim o túmulo foi feito, abrigando finalmente o ataúde.
Ao longo do tempo seguiram-se diversos eventos e homenagens evocativas à ilustre brasileira. Na sua cidade de nascimento seu nome foi dado a uma escola estadual. Em Porto Alegre é nome de rua e patrona da cadeira 17 na Academia Literária Feminina no Rio Grande do Sul. No Rio de Janeiro, além de ser nome de rua, detém uma cadeira na Academia Nacional de Ensino de Letras e Artes, na antiga Academia Academia Feminina de Letras e Artes.
Em Recife também é nome de rua, e seu retrato, pela primeira vez pintado em cores, por Balthasar da Câmara, se destaca numa imensa tela exposta na Fundação Joaquim Nabuco, no ato da sua inauguração, em 29 de abril de 1977. Curiosamente, foi a primeira mulher a integrar esse espaço, no qual jazem homenageados Santos Dumont, Dom Vital, Duque de Caxias, José de Alencar e outros renomados vultos históricos. Na Ala Feminina da Casa Juvenal Galeno em Fortaleza, detém a cadeira nº 6; na Academia norte-riograndense, em Natal, é patrona da cadeira nº 2 e nome de um acanhado beco no bairro da Ribeira.
Seu nome se destacou durante o Concurso organizado pelo Conselho Nacional dos Direitos da Mulher em 1988, cuja temática principal foi o preconceito no livro didático.

22 – HOMENAGENS CONTEMPORÂNEAS

Em 1981, a escritora nisiaflorestense Socorro Trindade publica Feminino feminino, pela Editora Universitária de Natal, postulando incluir o nome de Nísia Floresta como precursora na recente história do feminismo brasileiro. Em 1982, o professor Francisco das Chagas Pereira traduz pela primeira vez em língua portuguesa o livro Itinerário de uma viagem à Alemanha, pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte, em Natal.
Ainda nesse ano a professora Zélia Mariz, incentivada pelo escritor Diógenes da Cunha Lima, escreve um pequeno opúsculo sobre essa intelectual, publicando Nísia Floresta Brasileira Augusta. Trata-se da primeira mulher a publicar um livro sobre Nísia Floresta no Brasil.
Em 1985, no centenário de morte da escritora, diversas instituições natalenses se unem para repensar o nome de sua conterrânea. Ocorrem diversas palestras organizadas pela Fundação José Augusto, diversos artigos são divulgados na imprensa.
Em 1989 outro movimento em prol da memória de Nísia Floresta ocorre. Mas dessa vez é a cidade onde ela nasceu. Na ocasião houve palestras evolvendo escolas, caminhadas até o túmulo, reedição de Opúsculo Humanitário, organizado pela professora norte-americana Peggy Sharpe Valadares. Nessa ocasião estiveram presentes Zelia Maria Mariz, Graça Lucena, do Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre Assuntos da Mulher (NEPAM/UFRN), dentre outras autoridades.
Em 1992 o pesquisador sul-matogrossense Luís Carlos Freire escreveu a peça teatral História de Nísia Floresta, encenada em ambientes públicos com moradores do próprio lugar, posteriormente exibida na Universidade Federal de São Luiz, no Maranhão. Em 1997 o Conselho Estadual da Mulher promoveu um seminário com palestras de Maria Simonetti Gadelha Grillo, Zélia Mariz, Luís Carlos Freire, Enélio Petrovich e da então prefeita de Natal, Vilma Faria.
Nos anos de 1994 a 2000, Luís Carlos Freire organizou no município diversos seminários, conferências, simpósios e exposições referentes a Nísia Floresta. Em 2002 o referido pesquisador, em parceria com a TV Universitária e com apoio da Base Naval, da Base Aérea de Natal e da Escola Doméstica, produziu um documentário reconstituindo a chegada dos despojos de Nísia Floresta a Papari, filmado no largo da Igreja Matriz de Nossa Senhora do Ó.
O set de filmagem, que contou com a participação de um avião de época, cedido pela Base Aérea de Natal precisou ser interditado com cordas para conter a multidão inesperada que veio para assistir as filmagens. Cena curiosa ocorreu quando o avião, em vôos rasantes, despejava centenas de retratos de Nísia Floresta sobre os atores, sendo aplaudido pela multidão eufórica.
Em 2006 a Fundação Assis Chateaubriand, em parceria com a Fundação Banco do Brasil lançou um concurso nacional de redação com a temática Nísia Floresta uma mulher à frente do seu tempo, para alunos de todos os níveis de ensino, sendo contemplados dois alunos moradores de Nísia Floresta: Newton Bruno do Nascimento e Fídias Augusto Cavalcanti Marques Peixoto Freire. No mesmo ano a Fundação Banco do Brasil distribuiu pelo país um Kit sobre Nísia Floresta, contendo um livro foto-biográfico, um almanaque, um DVD e um VHS com um documentário sobre a escritora. Na ocasião confeccionaram gigantescos folders, os quais empreenderam exposições em todos os estados brasileiros. O referido trabalho foi fundamentado nos acervos dos pesquisadores Constância Lima Duarte Luís e Carlos Freire, os quais participam do documentário contando a história de Nísia Floreta. A memória da potiguar triunfou, sendo reconhecida nacionalmente.
Em 2010 comemorar-se-á o bicentenário de Nísia Floresta. Espera-se que as autoridades das áreas da educação e da cultura se unam para divulgar a memória dessa insigne brasileira, despertando em todos o reconhecimento que merece. LUIS CARLOS FREIRE - NÍSIA FLORESTA, 10 DE JULHO DE 2007



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