ANTES DE LER É BOM SABER...

Este blog - criado em 2008 - não é jornalístico, embora contenha alguns conteúdos que navegam levemente nessas águas. Os textos são de autoria de Luís Carlos Freire, o qual descende do mesmo tronco genealógico da escritora Nísia Floresta. Esse parentesco ocorre pela parte das raízes da mãe do autor deste blog, Maria José Gomes Peixoto Freire, neta de Maria Clara de Magalhães Fontoura, trineta de Maria Jucunda de Magalhães Fontoura, descendente do Capitão-Mor Bento Freire do Revoredo e Mônica da Rocha Bezerra, dos quais descende a mãe de Nísia Floresta, Antonia Clara Freire. Essas informações são encontradas no livro "Os Troncos de Goianinha", de autoria de Ormuz Barbalho Simonetti, um dos maiores genealogistas brasileiros. O referido livro pode ser pesquisado no Museu Nísia Floresta, no centro da cidade. Luís Carlos Freire é especialista na obra de Nísia Floresta, membro da Comissão Norte-Riograndense de Folclore, sócio da Sociedade Científica de Estudos da Arte e da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência. Possui trabalhos científicos sobre a intelectual Nísia Floresta Brasileira Augusta, publicados nos anais da SBPC, Semana de Humanidade, Congressos etc. É autor de 'História do Município de Nísia Floresta', 'Cultura Popular em Nísia Floresta', 'A linguagem Popular em Nísia Floresta', dentre inúmeros trabalhos na área de história, lendas, costumes, tradições etc. Uma pequena parte das referidas obras ainda não estão concluídas, mas o autor entendeu ser útil disponibilizá-la neste blog, enquanto as conclui. Algumas são inéditas. O acesso permite aos interessados terem ao menos uma boa noção daquilo que buscam, até porque existem situações em que certos assuntos não são encontrados nem na internet nem em outro lugar. Algumas pesquisas são fruto de longos estudos, alguns até extensos e aprofundados, pesquisados em arquivos de Natal, Recife, Salvador e na Biblioteca Nacional no RJ. O autor estuda a história e a cultura popular da Região Metropolitana do Natal. Esse detalhe permitirá ao leitor encontrar informações históricas sobre a intelectual Nísia Floresta Brasileira Augusta, sobre o município homônimo, situado na Região Metropolitana de Natal/RN, além de crônicas, artigos, fotos poemas, etc. É PERMITIDO COPIAR TEXTOS DESTE BLOG, DESDE QUE A AUTORIA SEJA MENCIONADA. OBS. Só publico comentários que contenham nome completo, e-mail e telefone, pois repudio anonimato.

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

CRIME AMBIENTAL EM NÍSIA FLORESTA
CARTA ENVIADA A PROMOTORA DE JUSTIÇA DE NÍSIA FLORESTA - ÀS PROMOTORAS DO MEIO-AMBIENTE DE NATAL GILKA DA MATTA E ROSSANA SUDÁRIO - AO MINISTÉRIO DO MEIO AMBIENTE (EM BRASÍLIA) - AO IDEMA E IBAMA (EM NATAL) - AOS VEREADORES DE NÍSIA FLORESTRA - PADRES E PASTORES E DIRETORES DE ESCOLA DE NÍSIA FLORESTA.
Nísia Floresta, 20 de agosto de 2009
Exma. Sra. Promotora de Justiça da Comarca de Nísia Floresta
Na condição de cidadão comum, brasileiro, casado, professor, atualmente diretor de escola (em Parnamirim), residente e domiciliado em Nísia Floresta, ao lado da Igreja Matriz, dirijo-me a V. Excia. para denunciar e pedir as providências que forem cabíveis com relação a uma obra que está sendo construída próxima ao nosso município.
Como pode ser constatado, encontra-se em execução às margens da BR 101, exatamente no retorno de acesso aos municípios de São José de Mipibu e Nísia Floresta, uma obra de grande porte com o propósito de dar vazão a resíduos, e provavelmente ao esgoto mipibuense.
Pela dimensão do projeto, nota-se que o volume de esgoto in natura que será jogado no ecossistema da região, precisamente no Rio Mipibu e na Lagoa Papari é de milhares de litros diários. Verifiquei que o projeto, pelo andamento da obra, inexplicavelmente não contempla uma estação de tratamento de esgoto – prática inconcebível nos dias atuais a uma obra de tamanho porte –, considerando que diante de tantos problemas ambientais em nível mundial, tenta se criar – em massa – a cultura das idéias inovadoras – e mesmo visionárias – em prol da preservação do meio ambiente.
O mundo inteiro fala em preservação. Os países de Primeiro Mundo – que já destruíram quase tudo o que tinham – tratam suas reservas como verdadeiros santuários. Todos falam em ecologia, mas precisamos praticar tal política. Não é por que estamos no Terceiro Mundo – e no Nordeste – áreas injustamente discriminadas por muitos – que devemos ficar em silêncio.
O que preocupa é que esse resíduo será despejado num rio cujas águas, há séculos abastecem toda população de São José de Mipibu. O referido rio desemboca na Lagoa Papary, em Nísia Floresta, que por sua vez se encontra com as águas do Oceano Atlântico, através da Praia de Camurupim.
O que me entristece – e deve entristecer aos mipibuenses e nisiaflorestenses – é saber que uma catástrofe ambiental se instala mansa e “imperceptivelmente”, no ecossistema de São José de Mipibu e, PRINCIPALMENTE EM NÍSIA FLORESTA, pois a lendária lagoa Papary, d’antes Paraguaçu, amplo reservatório das águas do Trairí, berço das águas oriundas do inverno sertanejo, onde pequenos riachos correm dos tabuleiros arenosos, dando origem a uma imensidão de águas que se interligam com outras lagoas e rios, como o velho Cururu – está prestes a receber esgoto de toda a cidade de São José de Mipibu.
A Lagoa Papari, destacada há quase trezentos anos na cartografia de Marc Grave, elogiada por Henry Koster, em 1810, tendo a comparado ao Mercado de Billingsgate, na Inglaterra por suas águas piscosas; cantada em prosa e verso por autor anônimo que lhe dedicou bela poesia centenária, evocando a lenda de Jacy e Guaracy; citada por inúmeros viajantes europeus em documentos antiqüíssimos –, hoje caminha para uma possível condenação a morte. Exatamente a lagoa mais famosa do município e que durante séculos alimentou índios e brancos, o fazendo até os dias atuais a tantos nativos que precisam de sua pureza para sobreviver.
Sabemos que essa lagoa vem sofrendo sucessivos danos ambientais decorrentes do assoreamento, desde a cheia de 1974, e hoje é sacrificada por inúmeros viveiros que a circundam quase completamente, recebendo diariamente os produtos químicos utilizados como ração e manuseio de equipamentos.
É graças a essa lagoa que o município de Nísia Floresta recebe a alcunha de “terra do camarão”, permitindo-lhe ser conhecida internacionalmente por sua gastronomia.
Lagoa “Mãe dos Pobres” deveria ser mais uma alcunha, pois é dela que, apesar da diminuição de sua fauna aquática, centenas de nativos – muitos deles pobres de Jó – tiram o seu sustento.
É graças à lagoa Papary que ainda assistimos a um cenário antiqüíssimo, no qual famílias inteiras desfilam pelas ruas da velha cidade, levando covos (paris), puçás, cestos, choques, landuás e varas de pesca, os quais passam o dia em suas mansas águas, ora em canoas, ora nos mangues marginais, à cata do pão-de-cada-dia.
O vocábulo indígena “papary” é traduzido por Nestor dos Santos Lima como “salto de peixe”. É graças a esse mar de água doce que ainda não vimos pelas ruas nisiaflorestenses o vulto da mendicância nem ouvimos o ronco da fome.
É graças à lagoa Papary que, aos primeiros raios de sol, nativos embarcam rumo a Natal, percorrendo ruas, gritando “olha o camarão!” “olha o caranguejo!” “olha o goiamum!”. E assim, com orgulho, conservam a tradição e a certeza de que voltarão para Nísia Floresta com o dinheiro da “feira”.
É nesse “Lago Ness” que, há quase duzentos anos, quando a própria natureza o fazia distar a poucos metros do Sítio Floresta, se banhava, não o monstro-bicho, mas o monstro sagrado, chamado Nísia Floresta Brasileira Augusta, o qual, apesar de tanta divulgação em torno de sua memória, as águas de seu espírito político/visionário ainda não umedeceram a secura insensível de alguns nativos, os quais “olham mas não vêem”
O município de Nísia Floresta assiste, em silêncio, a construção dessa obra que dá sinais claros de ser um imenso sistema de esgoto, como se nada os incomodasse. As Secretarias Municipais de Educação e Cultura, de Saúde e de Turismo e Meio Ambiente (dos municípios de Nísia Floresta e São José de Mipibu) pelo menos até o momento – já muito adiantado – não têm desenvolvido nenhuma política de reflexão e conscientização. Não se vê panfletos. Não se vê artigos ou reportagens em jornais, enfim não há reação.
Nenhuma outra Secretaria, além das aqui referidas, tem mais autoridade para conscientizar a população quanto a esse problema. As mesmas, dentro das suas responsabilidades, deveriam estar orientando as escolas e o povo a pensar os danos que estão por vir – e que ainda podem ser evitados –, deliberando até mesmo uma movimentação pública, organizada de forma sensata e respeitosa, mas forte e sistematizada.
As próprias escolas, nas quais circulam professores (filhos ou netos de pescadores), funcionários e alunos (filhos ou netos de pescadores), por representar um ambiente pensante, deveria, por excelência, estar trabalhando o assunto (inclusive com aulas de campo). Para que isso aconteça não é necessário provocação, até porque a obra, por si, provoca (e como!).
É interessante uma caminhada ecológica – em massa – do centro de Nísia Floresta ao local da obra, com convidados ao estilo de IDEMA, IBAMA, FLONA e DENIT. As autoridades ligadas ao turismo, às obras públicas, à educação e mesmo a edilidade que nos representa, que deveriam se unir e convocar os responsáveis pela execução das obras, através de uma conferência ou reunião aberta à população, estão silenciadas.
É preocupante saber que essa inércia, que soa como permissividade, está proporcionando a continuação da construção dessa serpente oca, a qual desliza silenciosa, prestes a jogar seu veneno letal em nossos rios e lagoas. Faz-se necessária uma provocação dos órgãos públicos, pois sem ela não haverá intervenção.
Compreendo que uma andorinha só não faz verão. Mas o pensamento externado neste documento é o pensamento de muitos nativos – com certeza –; o que ocorre é que, com exceção àqueles que se silenciam por razões desconhecidas, há quem se silencie por uma espécie de ignorância ingênua, oriunda da idéia de que os “saltos dos peixes” serão eternos.
É inadmissível que uma obra desse porte, que está em execução em decorrência de uma obra federal – incorra a tamanho absurdo.
É incompreensível que o próprio DNIT, que tem como objetivo estudar os impactos ambientais das suas obras não perceba isso. É estranho que uma obra relacionada a uma obra federal, oriunda de um governo que tem dado uma dimensão exemplar no que se refere a campanhas de preservação do meio ambiente, incorra à falta tão grave –, até porque se trata de um projeto incompleto, pois como é que engenheiros federais, conhecedores da hidrografia e dos relevos contemplados pela BR 101, ignorem o grau de toxidade, a gigantesca quantidade de resíduos, a necessidade de uma estação de tratamento e o destino que esse material tomará.
Como pode aos engenheiros do DNIT ignorarem que estão ligados direta ou indiretamente, a uma obra que destinará, de forma irresponsável, esgoto numa ÁREA DE PROTEÇÃO AMBIENTAL (APA BONFIM/GUARAÍRAS).
Como pode aos engenheiros responsáveis por tamanho projeto, os quais estudam e pesquisam as mais modernas possibilidades de harmonizar obra e meio ambiente –, dentro de uma proposta ecológica – “esquecerem” da toxidade dos dejetos que correrão por tais galerias, rumo a um ecossistema de MATA ATLÂNTICA?
Como pode às autoridades dos Governos Municipal, Estadual e Federal – no caso os realmente responsáveis – no momento que autorizaram os primeiros rascunhos da duplicação da BR-101, ignorar aspectos geográficos sagrados – como a APA e a MATA ATLÂNTICA – integrantes do itinerário da rodovia, aos quais deveria ser reservada atenção especial?
Como pode estar acontecendo tamanha barbaridade dentro de um município que abriga a FLONA (berço de fauna e flora ameaçados de extinção) e uma extensão do IBAMA?
Como pode, numa época em que todos falam sobre a preservação das nascentes e dos recursos naturais – a questão da falta de água no futuro, o Governo Federal ou quem quer que seja, permitirem a construção de uma obra que despejará todo tipo de resíduos sobre um dos maiores aquíferos de toda essa região, onde se incluem 26 lagoas? Vale ressaltar que o lençol freático em Nísia Floresta é extremamente raso. Há lugares que aflora água há menos de um metro de profundidade.
A continuação dessa obra, da forma como está sendo desenvolvida – significará a morte de um patrimônio material e imaterial incalculável. Além da destruição criminosa de todo esse conjunto natural – que por si basta –, se extinguirão múltiplas faces da cultura de um povo, impressas em usos, costumes tradições, lazer, enfim na essência de uma história cheia de estórias.
É conveniente que os responsáveis revejam o projeto (ou até mesmo se certifique de forma mais detalhada das conseqüências da obra), pois, pelo que se percebe, não houve estudos para efetivar a avaliação de impactos ambientais, que é um dos instrumentos da Política Nacional do Meio Ambiente. Sabe-se que o Conselho Nacional do Meio Ambiente (CONAMA) tem por dever elaborar um estudo para licenciamento de atividades modificadoras do meio ambiente, acompanhado pelo IDEMA e IBAMA. Mas, a julgar pelo que se vê, esse estudo não foi feito.
É muito mais barato construir uma estação de tratamento de esgoto que gastar, futuramente, milhões de reais com assistência às inúmeras famílias de pescadores vitimas dos danos ambientais. Sem contar comas doenças que advirão, decorrentes da imundície que tomará conta do que antes era vegetação e da savanização, pois as conseqüências serão irreparáveis.
Diante de tais reflexões, peço a V. Excia, em nome da população de São José de Mipibu e de Nísia Floresta a gentileza de intervir nesse projeto criminoso, convocando os responsáveis e as demais instituições governamentais ligadas ao mesmo. Inclusive solicitando-lhes esclarecimentos públicos junto à população, a qual PEDE A CONSTRUÇÃO DE UMA ESTAÇÃO DE TRATAMENTO ou algo similar.
Na oportunidade, informo a V. Excia. que o presente documento também foi enviado, em caráter de informação e denúncia, ao MINISTÉRIO DO MEIO AMBIENTE, ao IDEMA/Natal, ao IBAMA/Natal, às DRAS. GILKA DA MATA E ROSSANA SUDÁRIO – PROMOTORA DO MEIO AMBIENTE e a alguns órgãos ligados ao assunto, em nível estadual.
Na certeza da atenção de V. Excia externo os meus agradecimentos.
Respeitosamente,
Luís Carlos Freire
Professor
Identidade Nº 482.107-SSP/MS

sábado, 12 de setembro de 2009

SALA DE POEMAS – POESIAS – CRÔNICAS – CONTOS - NOVELAS - MENSAGENS - PENSAMENTOS DE AUTORIA DE LUÍS CARLOS FREIRE
PALAVRAS
Palavras não são meras palavras...Todas têm peso, dimensão, mistério, segredo, enfim uma gama de considerações.
Por mais que possuam uma pluralidade de significados, não deixam de ser singulares...
Palavras encantam e desencantam, matam e ressuscitam... ferem, edificam, dignificam, libertam, calam, emocionam, incriminam, absolvem, infernizam, vislumbram, escandalizam, socializam, transparecem, mentem...
Palavra envelhecem e se extinguem... Se esvaem ao vento...Ficam guardadas no tempo...E renascem com novas acepções. Outras... outras são eternamente o que são.
Palavras se quebram, se dividem e se unem amanhã.
Palavras contam história...
Palavras viajam e se fazem compreendidas nos cinco continentes...Quebram fronteiras e preconceitos.
Palavras, outras, coitadas, acanhadas vegetam em aldeias e lugares...
Palavras levam prece, elogio, conforto, felicidade...
Palavras levam amarguras...
Palavras que não foram ditas na hora certa podem causar danos irreparáveis.
Palavras, outras, por não terem sido ditas foram a solução.
Palavras, sábias, edificam; as torpes destroem.
Palavras que devem ser ditas todos os dias...
Palavras que precisam ser sepultadas.
Palavras que são como torpedos...
Palavras que deveriam se chamar perfume, flores, anjos, pássaros, céu...
Palavras que rejuvenescem...
Palavras que se tornam empoeiradas...
Palavras que se petrificam...
Palavras...Que saem da boca dos homens.
Homens são palavras..
Palavras são homens...

MENSAGEM TRÁGICA
(para aqueles que nunca têm tempo para os filhos)
QUANDO MEU FILHO TINHA 4 ANOS FOI A ESCOLA PELA PRIMEIRA VEZ
EU E MINHA ESPOSA NÃO PUDEMOS ACOMPANHÁ-LO. ESTÁVAMOS OCUPADOS. ELE FOI COM A BABÁ.
NA SUA PRIMEIRA COMEMORAÇÃO DOS DIAS DOS PAIS TIVE UMA VIAGEM INADIÁVEL. NÃO PUDE VÊ-LO APRESENTAR A PEÇA “O GATO DE BOTAS”. DIZEM QUE ELE FOI BRILHANTE!
UM DIA ELE GANHOU UM PRÊMIO NUM CONCURSO DE DESENHO.
NESSE DIA EU ESTAVA NUMA CONFERÊNCIA NO EXTERIOR, INCLUSIVE LEVEI MINHA ESPOSA, POIS ELA SONHAVA CONHECER A TORRE EIFFEL.
NOSSO FILHO FOI COM A EMPREGADA.
FOMOS CONVIDADOS A PARTICIPAR DE ALGUMAS REUNIÕES AO LONGO DO TEMPO, MAS NUNCA TÍNHAMOS TEMPO. TRABALHÁVAMOS MUITO.
NUMA OCASIÃO EU ME ENCONTRAVA NUMA DAS MINHAS RARAS FOLGAS DE UMA VEZ POR ANO.
LEMBRO-ME DE SUAS PALAVRAS: -“PAPAI, ME LEVA HOJE A ESCOLA, QUERO IR COM VOCÊ. MUITOS DOS MEUS AMIGOS CHEGAM LÁ COM OS PAIS. VAI SER O MÁXIMO!”RESPONDI QUE NÃO.
ESTAVA CANSADO E FUI DEITAR.
MAS LOGO ME LEVANTEI E FUI ASSISTIR TELEVISÃO.
CERTA VEZ HOUVE UM CAMPEONATO DE XADREZ ENTRE PAIS E FILHOS.
ELE, QUE JÁ ERA DOLESCENTE, ME DISSE: - "PAPAI, O SENHOR É O MÁXIMO EM XADREZ, COM CERTEZA LEVARÁ UM TROFÉU!"
ELE DISSE QUE SENTIRIA ORGULHO DE MIM SE EU PARTICIPASSE
MAIS UMA VEZ RESPONDI QUE NÃO TINHA TEMPO.
CERTA VEZ, PARA MINHA SURPRESA, A ESCOLA ME CONVOCOU PARA UMA REUNIÃO QUE ME FIQUEI CHOCADO.
MEU FILHO HAVIA SE ENVOLVIDO NUMA BRIGA E ESMURROU O COLEGA.
EU E MINHA ESPOSA TÍNHAMOS COMPROMISSOS SÉRIOS.
NÃO FOMOS, MAS PEDIMOS QUE UMA GRANDE AMIGA DA FAMÍLIA FIZESSE NOSSO PAPEL.
CERTA MANHÃ RECEBEMOS EM NOSSA MANSÃO UM POLICIAL QUE NOS COMUNICOU QUE NOSSO FILHO ESTAVA PRESO, POIS NA MADRUGADA ANTERIOR HAVIA DESTRUIDO O MONUMENTO DE UMA PRAÇA COM UNS AMIGOS.
CORREMOS PARA A DELEGACIA, PAGAMOS FIANÇA E TUDO FOI RESOLVIDO.
NÃO HOUVE TEMPO PARA CONVERSARMOS SOBRE O ASSUNTO EM CASA, POIS O POUCO TEMPO QUE PASSÁVAMOS JUNTOS, FICÁVAMOS NA INTERNET, TRABALHANDO.
E ELE TAMBÉM – OU SAIA COM OS AMIGOS.
EM OUTUBRO ELE SE FORMOU, MAS NÃO FOMOS A SUA FORMATURA EM VIRTUDE DE UMA VIAGEM A TRABALHO.
LEMBRO-ME QUE PEDI AOS MEUS PAIS QUE PRESTIGIASSEM AQUELE MOMENTO TÃO IMPORTANTE.
DEMOS A ELE UM RELÓGIO ROLEX, DE OURO. FOI O SEU PRESENTE!
DOIS ANOS DEPOIS ELE SE CASOU.
FOI IMPOSSIVEL EU PARTICIPAR DA CERIÔNIA TÃO IMPORTANTE DA SUA VIDA, POIS A MULTI-NACIONAL QUE EU TRABALHAVA ME INCUMBIU DE FECHAR UM NEGÓCIO MULTIMILIONÁRIO NA INGLATERRA.
EU NÃO PODIA FRUSTRAR AQUELE EMPREENDIMENTO TÃO SÉRIO.
ALGUM TEMPO DEPOIS, PARA MINHA SURPRESA, MEU FILHO FOI APONTADO COMO UM DOS MAIORES TRAFICANTES DE DROGA DA REGIÃO.
TUDO O QUE ELE TINHA, INCLUSIVE BENS QUE EU JAMAIS CONHECIA, FOI CONFISCADO PELA POLÍCIA FEDERAL.
GASTEI METADE DA MINHA FORTUNA COM QUATRO RENOMADOS ADVOGADOS.
MEU FILHO SAIU ILESO.
PASSADOS DOIS ANOS ELE PASSOU A COMANDAR UMA QUADRILHA QUE ROUBAVA CARGAS DE PRODUTOS ELETRÔNICOS.
MAIS UMA VEZ FIZ DE TUDO PARA LIVRÁ-LO. E CONSEGUI!
LOGO APÓS ESSE FATO, ELE PROMETEU SE REGENERAR, INCLUSIVE PASSOU A FREQUENTAR UMA IGREJA.
CERTO DIA ELE CONVIDOU A MIM E A MINHA ESPOSA PARA IRMOS A UMA CERIMÔNIA RELIGIOSA, NA QUAL ELE ASSUMIRIA UM POSTO IMPORTANTE E DE GRANDE REPRESENTATIVIDADE.
NÃO PUDEMOS MAIS UMA VEZ.
O TEMPO PASSOU E NÃO COMPREENDEMOS POR QUE RAZÃO ELE VOLTOU A MARGINALIDADE, A PONTO DE DESCER AO MAIS BAIXO NÍVEL DA OBSCURIDADE HUMANA.
EU E MINHA ESPOSA VIVÍAMOS EM FUNÇÃO DELE, LIVRANDO-O DE TUDO TIPO DE ACUSAÇÃO E PUNIÇÕES.
HÁ QUATRO ANOS ELE SE ENVOLVEU NUM CRIME BÁRBARO.
ESTÁ PRESO.
NOS ÚLTIMOS ANOS, EU E MINHA ESPOSA TEMOS ADIADO A NOSSA PRÓPRIA VIDA EM FUNÇÃO DO NOSSO FILHO.
TEMOS SIDO OMISSOS PROFISSIONALMENTE, POIS TODO O NOSSO TEMPO É DEDICADO AOS FATOS LIGADOS AO NOSSO FILHO, INCLUSIVE DE TENTAR LIVRÁ-LO DA PENA A QUAL ESTÁ SUBMETIDO.
HOJE MESMO ESTAMOS COM TODO O NOSSO TEMPO DEDICADO A ELE.
ÀS 9 HORAS ELE ESTARÁ SENDO LEVADO PARA A CADEIRA ELÉTRICA.
APÓLOGO

TREPADEIRA INVEJOSA (1982)

No prado verdejante imperava a solitária árvore.
Imponente, frondosa, exibindo-se por excelência e despretensiosa.
Seus galhos, robustos, sustentavam milhares de folhas e vergontas que resplandeciam luzidias, como que esmaltadas pelo deus da natureza.
Seu tronco, majestoso, ostentava sulcos desconformes, parecendo veias gigantescas rasgando o solo... verdadeiro alicerce do imenso vegetal.
A bela espécie, generosa, gabava-se da sua servidão.
Quantas vezes ofertava o frescor de sua sombra a homens e bichos.
Suas cascas emprestavam moradia a vermes, formigas, lagartos e toda sorte de insetos, num trânsito incontinenti e confuso, do troco a copa.
O cimo assistia diariamente o entrudo da passarada, o balançar das casas de abelha proporcionado por incautos macacos.
O vento farfalhava aquela micro-floresta, num vai-e-vem irregular... Ora ríspido...Ora manso e quase imóvel.
Incontáveis ramalhetes de uma flor amarela, almiscarada, pareciam querer chegar ao céu para ser colhidas por mãos divinas.
Sua essência exalava pelo derredor, roubada pelos ares, perfumando o mágico panorama.
Abelhas, vespas, formigas e beija-flores regalavam-se naquele banquete de néctar...
Era assim... nesse ritmo que vivia aquele monumento natural.
Certo dia percebeu que em seu tronco despontou uma planta rasteira com inúmeras vergontas.
Os dias foram se passando e a singular árvore percebeu tratar-se de uma trepadeira, a qual, desautorizada e atrevida, escalava seu caule.
Uma sensação desconfortável apossou-se do enorme vegetal, o qual, incólume, assistia um emaranhado de cipós revestindo seu corpo, sufocando-a como fazem as sucuris às suas presas.
Em poucos dias aquele câncer em forma de veias deslizou desenfreadamente, trilhando galhos, folhas e flores, cobrindo-os sem piedade.
A árvore, inconformada, quebrou o silêncio e bradou:
- O que fazes comigo?
- Ora! – respondeu a trepadeira – estou em busca de luz, afinal é do sol que tiro grande parte do meu sustento.
- Mas para isso precisa subir em alguém?
- Bem sabes que não tenho rigidez necessária para manter-me ereta como você. Necessito de suportes. Sois robusta e forte, tens meios de garantir minha sustentabilidade.
- E por acaso vos ofereço ajuda?
- Não! Mas eu apenas aguardei oportunidade.
- Sois traiçoeira como serpente – disse a árvore – é por isso que teus cipós se parecem com ela. Não seria melhor se vivesses no chão, já que sois fraca de espírito e físico?
- Como sois bobinha, dona árvore! Se tenho em quem subir, por que haveria de ficar sempre em baixo, rastejando-me? Achas que eu preferiria ser pisoteada por animais e homens? Ademais estaria sendo alvo de urina, fezes e cuspe.
- Sois oportunista!
- Que nada. Sou esperta. Isso sim!
- É fácil ser esperta com o suor alheio. Na realidade sois desprezível.
- Cala-te! Veja que já é noite. Olhe como a lua está linda. Veja quantas estrelas no céu!
- Como posso enxergá-los se já me cobres quase completamente.
- Não sejas faladeira, cara árvore. Já apreciaste tanta beleza daqui de cima. Que delícia é o orvalho e a brisa nessas alturas.
- Já não sei mais o que é isto, pois tolheste esse direito natural. Tuas folhagens me fazem definhar.
- É a lei do mais forte. Não é assim que dizem?
- Forte?! Chamas isso de forte? A mim parece fraqueza. Como pode alguém pensar que o mal possa ser forte?
- Lá vens com o teu filosofar!
E estavam nesse diálogo quando começou a brotar da trepadeira incontáveis flores vermelhas, opacas, sem beleza e com cheiro horripilante, a qual já cobria completamente a árvore. O infeliz vegetal já não possuía mais folhas e sim um emaranhado de galhos retorcidos e esmagados pelo peso da hospedeira. Até os bichos a abandonaram, enojados do cheiro nauseabundo.
- Dona árvore, veja como são lindas as minhas folhas e flores – insultou a trepadeira.
- É fácil ser bonita dessa forma. Existe muitos por aí iguais a você! Por favor, já conseguiste o que queria. Agora deixa-me em paz, não percebes que estas me sufocando? Deixa-me produzir minhas flores. Por que não procuraste uma cerca ou árvore morta?
- Ora! Achas que eu iria deixar-te em paz com tua exuberância? Antes ninguém olhava para mim. Nem minhas folhas eram vistas. Veja agora como estou imponente e visível. Cansei de vê-la esplendorosa, imponente, sendo elogiada por todos. Eras o centro das atenções.
- Tu é quem dizes! Se isso ocorria eu não usava para fins de promoção. Mas saiba que todos possuem valores, mas nem todos possuem talento. Nunca busquei exibir-me, simplesmente fui o que sou, mas contigo foi o contrário. És hoje o que nunca conseguiste – por teu próprio suor – ser. Chegaste ao topo por vias torpes. Isso é o que chamas de troféu?! Agora, mas uma vez te imploro: deixa-me ver a luz do céu. Deixa-me ver as estrelas. Deixa-me ver os pássaros. Deixa-me sentir o vento...
- Ora, deixa de bobagem. Agora o único astro aqui sou eu. Eu sou a estrela!
- Reconheça, senhora trepadeira, que o sol nasceu para todos. Olhe para o céu. Veja a infinidade de estrelas. Todas brilham e ninguém rouba o brilho da outra...
- Isso é lá no céu. Aqui é a Terra e hoje eu sou o poder!
- Ainda bem que tu mesmo é quem diz. Mas que poder é esse? Poder?!
- Claro!
- Sois dissimulada e execrável. Bem disse alguém que, se quiseres conhecer outrem, dê-lhe o poder. Ontem mesmo eras tapete. Hoje andas sobre ele. Toma cuidado. Já te disseram que quanto mais alto é o posto, mais forte é a queda? Saiba que grandes impérios ruíram.
- Sois ingênua com essas falácias. Não vês que hoje não sois nada.
- Ingênua? Pelo que vejo não compreendes a vida. Para mim sois uma infeliz que pensa ser alguém. Como podes ser alguém prejudicando os outros? Para mim não passas de uma trepadeira invejosa.
E estavam ainda nesse colóquio quando chegou o dono das terras e ordenou ao capataz:
- Corte todo esse cipó, mas tenha o máximo de cuidado para não ferir a árvore. Há três meses que não vejo a beleza da sua copa nem sinto o delicioso perfume de suas flores!
Em trinta minutos os destroços estavam no chão...
Dois meses depois a àrvore retomou sua forma original
TEMPO E SILÊNCIO (1997)Um jovem perguntou a um velho:
- Onde posso encontrar um sábio que possa responder-me incontáveis indagações que não encontro respostas? Já percorri todos os lugares e perguntei em vão.
O velho respondeu:
-Diga-me o que tanto o intriga.
O menino disse:
- Quero saber qual a igreja ideal. Como posso saber se uma pessoa fala a verdade ou se mente? Como posso identificar a índole de uma pessoa? Como posso saber se alguém quer me prejudicar? Qual o melhor time? Qual o melhor partido?
O velho, fitando-o respondeu-lhe:
- Suas perguntas apenas perecem complexas, mas as respostas são simples demais!
O menino, demonstrando perplexidade, indagou:
- O senhor é um sábio?
- Não! De forma alguma. O sábio que você procura chama-se tempo e silêncio. Saiba, meu jovem, que todas as suas indagações só lhe serão respondidas pelo tempo... e pelo silêncio.
12º PRÊMIO NACIONAL DE REDAÇÃO ASSIS CHATEAUBRIAND CONTEMPLA DOIS ESTUDANTES DE NÍSIA FLORESTA - 2006

Um incentivo à produção do conhecimento e a preservação da memória cultural do Brasil. Com esse objetivo a Fundação Assis Chateaubriand (FAC) promoveu o 12º Prêmio Nacional Assis Chateaubriand de Redação, um dos maiores concursos nacionais do gênero. O tema deste ano foi Nísia Floresta Uma Brasileira a Frente do Seu Tempo, em homenagem a escritora, educadora e militante feminista que nasceu em Papary (hoje Nísia Floresta) – RN, em 1810.
Foram escritos 8463 textos de todo o país. No dia 9 de dezembro, estudantes de vários lugares do país, professores e autoridades estiveram no auditório do Jornal Correio Braziliense para a cerimônia de premiação.
O concurso, destinado à estudantes do ensino fundamental, médio e superior, como parte do Projeto Memória, que trem como objetivo resgatar a vida e a obra de grandes personalidades da história do Brasil. Foram premiados os autores dos três melhores textos de cada categoria.
“Nosso objetivo é motivar os alunos a criação de textos e estimular a educação e a cultural nacional”, disse o Presidente da Fundação Assis Chateaubriand, Edson Zenóbio, ao abrir a solenidade. Ele destacou a escolha de Nísia Floresta como tema de 2006. “Ela honra a cultura brasileira e faz bater forte o coração potiguar por sua vida e obra excepcionais”, comentou.
“Pelo número de trabalhos que recebemos, dá para ver que o resultado foi fenomenal”, afirmou o diretor executivo da fundação e colunista do Correio Brasilense, Marcio Cotrim.
Entre as milhares de redações escritas, doze foram premiadas e dezesseis receberam menção honrosa. O Rio Grande do Norte arrastou o maior número de prêmios, cinco ao todo. Minas Gerais ficou em segundo lugar, com dois vencedores. O Paraná foi o estado que apresentou o maior número de redações, mas somente uma foi premiada.
Dois alunos, residentes em Nísia Floresta causaram orgulho para o município: Newtom Bruno do Nascimento Silva, 19, aluno da Escola Municipal Yayá Paiva, classificado em segundo lugar, orientado pelo professor Luís Carlos Freire e Fídias Augusto Cavalcanti Marques Peixoto Freire, 6, residente na Mazapa, aluno do Colégio Fênix, em Parnamirim, orientado pela professora Isabel Cristina.
“Respiro Nísia Floresta desde os meus quatro anos, pois sou sobrinho da mãe de Nísia Floresta. Minha tia, professora Niseuda, foi uma das participantes de uma peça teatral idealizada em 1992, pelo professor Luís Carlos, e encenou D. Antonia Clara Freire (mãe de Nísia Floresta)”, comentou Bruno, rindo e lembrando que o parentesco é pelas vias do teatro. “Mas seria, talvez, mais interessante se fosse por vias heráldicas”, arrematou.
“Minha mãe me colocou para falar sobre Nísia Floresta durante uma exposição sobre a escritora, em 2005, no Centro Social Isabel Gondim, em Nísia Floresta. Eu estudei muito, mas meu pai também me ensinou muito. Acho que toda criança tinha que conhecer Nísia Floresta”, disse Fídias, premiado em 3º lugar, com 500 reais.
Fídias foi o único convidado a ler sua redação durante a solenidade. O público o aplaudiu de pé.
“Essa criança fez renascer em mim a esperança de um país melhor, pois, diante de tanta alienação, vejo aqui um ser lapidado com uma educação requintada, como era para ser todo brasileiro”, comentou em seu discurso o Presidente da Fundação.

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

NÍSIA FLORESTA E AS MUDANÇAS DE NOMES

Como sabemos, a região de Nísia Floresta era originalmente conhecida como PAPARI (ou Papary). Os documentos oficiais antigos apresentam as duas nomenclaturas. Para não confundirmos, é bom lembrar que em 1607 já existiam homens brancos por estas plagas, a qual era apenas um lugarejo escondido num imenso vale envolto por florestas, conhecido por "PAPARY".
Não consegui encontrar documentos para precisar a data em que o lugarejo passou a se chamar VILA IMPERIAL DE PAPARY .
Sabe-se que a VILA IMPERIAL DE PAPARY foi criada pela lei 242, de 18 de fevereiro de 1852.
Em 1890 o nome foi mudado para VILA DE PAPARY. Como se vê, retiraram a nomenclatura "Imperial" em decorrência da Proclamação da República (1889).
Em 1938 mudaram o nome novamente, retirando a denominação "Vila de", passando a chamá-lo PAPARY ou PAPARI.
Notamos que após 89 anos com outras denominações, o local recebe novamente o seu primeiro nome: PAPARI.
Em 1948 a cidade tem seu nome novamente mudado, deixando de se chamar PAPARI para se chamar NÍSIA FLORESTA, numa justa homenagem a filha ilustre do município NÍSIA FLORESTA BRASILEIRA AUGUSTA (1810-1885).
Como podemos ver, o município passou por 4 mudanças de nomes.
Luís Carlos Freire - 3 de março de 2002

DENÚNCIA FEITA AO MINISTÉRIO PÚBLICO DE NÍSIA FLORESTA

Nísia Floresta, 20 de agosto de 2009

Exma. Sra. Promotora de Justiça da Comarca de Nísia Floresta


Na condição de cidadão comum, brasileiro, casado, professor, atualmente diretor de escola (em Parnamirim), residente e domiciliado em Nísia Floresta, ao lado da Igreja Matriz, dirijo-me a V. Excia. para denunciar e pedir as providências que forem cabíveis com relação a uma obra que está sendo construída próxima ao nosso município.
Como pode ser constatado, encontra-se em execução às margens da BR 101, exatamente no retorno de acesso aos municípios de São José de Mipibu e Nísia Floresta, uma obra de grande porte com o propósito de dar vazão a resíduos, e provavelmente ao esgoto mipibuense.
Pela dimensão do projeto, nota-se que o volume de esgoto in natura que será jogado no ecossistema da região, precisamente no Rio Mipibu e na Lagoa Papari é de milhares de litros diários. Verifiquei que o projeto, pelo andamento da obra, inexplicavelmente não contempla uma estação de tratamento de esgoto – prática inconcebível nos dias atuais a uma obra de tamanho porte –, considerando que diante de tantos problemas ambientais em nível mundial, tenta se criar – em massa – a cultura das idéias inovadoras – e mesmo visionárias – em prol da preservação do meio ambiente.
O mundo inteiro fala em preservação. Os países de Primeiro Mundo – que já destruíram quase tudo o que tinham – tratam suas reservas como verdadeiros santuários. Todos falam em ecologia, mas precisamos praticar tal política. Não é por que estamos no Terceiro Mundo – e no Nordeste – áreas injustamente discriminadas por muitos – que devemos ficar em silêncio.
O que preocupa é que esse resíduo será despejado num rio cujas águas, há séculos abastecem toda população de São José de Mipibu. O referido rio desemboca na Lagoa Papary, em Nísia Floresta, que por sua vez se encontra com as águas do Oceano Atlântico, através da Praia de Camurupim.
O que me entristece – e deve entristecer aos mipibuenses e nisiaflorestenses – é saber que uma catástrofe ambiental se instala mansa e “imperceptivelmente”, no ecossistema de São José de Mipibu e, PRINCIPALMENTE EM NÍSIA FLORESTA, pois a lendária lagoa Papary, d’antes Paraguaçu, amplo reservatório das águas do Trairí, berço das águas oriundas do inverno sertanejo, onde pequenos riachos correm dos tabuleiros arenosos, dando origem a uma imensidão de águas que se interligam com outras lagoas e rios, como o velho Cururu – está prestes a receber esgoto de toda a cidade de São José de Mipibu.
A Lagoa Papari, destacada há quase trezentos anos na cartografia de Marc Grave, elogiada por Henry Koster, em 1810, tendo a comparado ao Mercado de Billingsgate, na Inglaterra por suas águas piscosas; cantada em prosa e verso por autor anônimo que lhe dedicou bela poesia centenária, evocando a lenda de Jacy e Guaracy; citada por inúmeros viajantes europeus em documentos antiqüíssimos –, hoje caminha para uma possível condenação a morte. Exatamente a lagoa mais famosa do município e que durante séculos alimentou índios e brancos, o fazendo até os dias atuais a tantos nativos que precisam de sua pureza para sobreviver.
Sabemos que essa lagoa vem sofrendo sucessivos danos ambientais decorrentes do assoreamento, desde a cheia de 1974, e hoje é sacrificada por inúmeros viveiros que a circundam quase completamente, recebendo diariamente os produtos químicos utilizados como ração e manuseio de equipamentos.
É graças a essa lagoa que o município de Nísia Floresta recebe a alcunha de “terra do camarão”, permitindo-lhe ser conhecida internacionalmente por sua gastronomia.
Lagoa “Mãe dos Pobres” deveria ser mais uma alcunha, pois é dela que, apesar da diminuição de sua fauna aquática, centenas de nativos – muitos deles pobres de Jó – tiram o seu sustento.
É graças à lagoa Papary que ainda assistimos a um cenário antiqüíssimo, no qual famílias inteiras desfilam pelas ruas da velha cidade, levando covos (paris), puçás, cestos, choques, landuás e varas de pesca, os quais passam o dia em suas mansas águas, ora em canoas, ora nos mangues marginais, à cata do pão-de-cada-dia.
O vocábulo indígena “papary” é traduzido por Nestor dos Santos Lima como “salto de peixe”. É graças a esse mar de água doce que ainda não vimos pelas ruas nisiaflorestenses o vulto da mendicância nem ouvimos o ronco da fome.
É graças à lagoa Papary que, aos primeiros raios de sol, nativos embarcam rumo a Natal, percorrendo ruas, gritando “olha o camarão!” “olha o caranguejo!” “olha o goiamum!”. E assim, com orgulho, conservam a tradição e a certeza de que voltarão para Nísia Floresta com o dinheiro da “feira”.
É nesse “Lago Ness” que, há quase duzentos anos, quando a própria natureza o fazia distar a poucos metros do Sítio Floresta, se banhava, não o monstro-bicho, mas o monstro sagrado, chamado Nísia Floresta Brasileira Augusta, o qual, apesar de tanta divulgação em torno de sua memória, as águas de seu espírito político/visionário ainda não umedeceram a secura insensível de alguns nativos, os quais “olham mas não vêem”
O município de Nísia Floresta assiste, em silêncio, a construção dessa obra que dá sinais claros de ser um imenso sistema de esgoto, como se nada os incomodasse. As Secretarias Municipais de Educação e Cultura, de Saúde e de Turismo e Meio Ambiente (dos municípios de Nísia Floresta e São José de Mipibu) pelo menos até o momento – já muito adiantado – não têm desenvolvido nenhuma política de reflexão e conscientização. Não se vê panfletos. Não se vê artigos ou reportagens em jornais, enfim não há reação.
Nenhuma outra Secretaria, além das aqui referidas, tem mais autoridade para conscientizar a população quanto a esse problema. As mesmas, dentro das suas responsabilidades, deveriam estar orientando as escolas e o povo a pensar os danos que estão por vir – e que ainda podem ser evitados –, deliberando até mesmo uma movimentação pública, organizada de forma sensata e respeitosa, mas forte e sistematizada.
As próprias escolas, nas quais circulam professores (filhos ou netos de pescadores), funcionários e alunos (filhos ou netos de pescadores), por representar um ambiente pensante, deveria, por excelência, estar trabalhando o assunto (inclusive com aulas de campo). Para que isso aconteça não é necessário provocação, até porque a obra, por si, provoca (e como!).
É interessante uma caminhada ecológica – em massa – do centro de Nísia Floresta ao local da obra, com convidados ao estilo de IDEMA, IBAMA, FLONA e DENIT. As autoridades ligadas ao turismo, às obras públicas, à educação e mesmo a edilidade que nos representa, que deveriam se unir e convocar os responsáveis pela execução das obras, através de uma conferência ou reunião aberta à população, estão silenciadas.
É preocupante saber que essa inércia, que soa como permissividade, está proporcionando a continuação da construção dessa serpente oca, a qual desliza silenciosa, prestes a jogar seu veneno letal em nossos rios e lagoas. Faz-se necessária uma provocação dos órgãos públicos, pois sem ela não haverá intervenção.
Compreendo que uma andorinha só não faz verão. Mas o pensamento externado neste documento é o pensamento de muitos nativos – com certeza –; o que ocorre é que, com exceção àqueles que se silenciam por razões desconhecidas, há quem se silencie por uma espécie de ignorância ingênua, oriunda da idéia de que os “saltos dos peixes” serão eternos.
É inadmissível que uma obra desse porte, que está em execução em decorrência de uma obra federal – incorra a tamanho absurdo.
É incompreensível que o próprio DNIT, que tem como objetivo estudar os impactos ambientais das suas obras não perceba isso. É estranho que uma obra relacionada a uma obra federal, oriunda de um governo que tem dado uma dimensão exemplar no que se refere a campanhas de preservação do meio ambiente, incorra à falta tão grave –, até porque se trata de um projeto incompleto, pois como é que engenheiros federais, conhecedores da hidrografia e dos relevos contemplados pela BR 101, ignorem o grau de toxidade, a gigantesca quantidade de resíduos, a necessidade de uma estação de tratamento e o destino que esse material tomará.
Como pode aos engenheiros do DNIT ignorarem que estão ligados direta ou indiretamente, a uma obra que destinará, de forma irresponsável, esgoto numa ÁREA DE PROTEÇÃO AMBIENTAL (APA BONFIM/GUARAÍRAS).
Como pode aos engenheiros responsáveis por tamanho projeto, os quais estudam e pesquisam as mais modernas possibilidades de harmonizar obra e meio ambiente –, dentro de uma proposta ecológica – “esquecerem” da toxidade dos dejetos que correrão por tais galerias, rumo a um ecossistema de MATA ATLÂNTICA?
Como pode às autoridades dos Governos Municipal, Estadual e Federal – no caso os realmente responsáveis – no momento que autorizaram os primeiros rascunhos da duplicação da BR-101, ignorar aspectos geográficos sagrados – como a APA e a MATA ATLÂNTICA – integrantes do itinerário da rodovia, aos quais deveria ser reservada atenção especial?
Como pode estar acontecendo tamanha barbaridade dentro de um município que abriga a FLONA (berço de fauna e flora ameaçados de extinção) e uma extensão do IBAMA?
Como pode, numa época em que todos falam sobre a preservação das nascentes e dos recursos naturais – a questão da falta de água no futuro, o Governo Federal ou quem quer que seja, permitirem a construção de uma obra que despejará todo tipo de resíduos sobre um dos maiores aquíferos de toda essa região, onde se incluem 26 lagoas? Vale ressaltar que o lençol freático em Nísia Floresta é extremamente raso. Há lugares que aflora água há menos de um metro de profundidade.
A continuação dessa obra, da forma como está sendo desenvolvida – significará a morte de um patrimônio material e imaterial incalculável. Além da destruição criminosa de todo esse conjunto natural – que por si basta –, se extinguirão múltiplas faces da cultura de um povo, impressas em usos, costumes tradições, lazer, enfim na essência de uma história cheia de estórias.
É conveniente que os responsáveis revejam o projeto (ou até mesmo se certifique de forma mais detalhada das conseqüências da obra), pois, pelo que se percebe, não houve estudos para efetivar a avaliação de impactos ambientais, que é um dos instrumentos da Política Nacional do Meio Ambiente. Sabe-se que o Conselho Nacional do Meio Ambiente (CONAMA) tem por dever elaborar um estudo para licenciamento de atividades modificadoras do meio ambiente, acompanhado pelo IDEMA e IBAMA. Mas, a julgar pelo que se vê, esse estudo não foi feito.
É muito mais barato construir uma estação de tratamento de esgoto que gastar, futuramente, milhões de reais com assistência às inúmeras famílias de pescadores vitimas dos danos ambientais. Sem contar comas doenças que advirão, decorrentes da imundície que tomará conta do que antes era vegetação e da savanização, pois as conseqüências serão irreparáveis.
Diante de tais reflexões, peço a V. Excia, em nome da população de São José de Mipibu e de Nísia Floresta a gentileza de intervir nesse projeto criminoso, convocando os responsáveis e as demais instituições governamentais ligadas ao mesmo. Inclusive solicitando-lhes esclarecimentos públicos junto à população, a qual PEDE A CONSTRUÇÃO DE UMA ESTAÇÃO DE TRATAMENTO ou algo similar.
Na oportunidade, informo a V. Excia. que o presente documento também foi enviado, em caráter de informação e denúncia, ao MINISTÉRIO DO MEIO AMBIENTE, ao IDEMA/Natal, ao IBAMA/Natal, às DRAS. GILKA DA MATA E ROSSANA SUDÁRIO – PROMOTORA DO MEIO AMBIENTE e a alguns órgãos ligados ao assunto, em nível estadual.
Na certeza da atenção de V. Excia externo os meus agradecimentos.
Respeitosamente,



Luís Carlos Freire
Professor
Identidade Nº 482.107-SSP/MS

APRESENTAÇÃO
Este Blog não tem finalidade jornalística, embora consista num instrumento informativo. É apenas uma coletânea de informações diversas, feitas sem a periodicidade típica dos blogs jornalísticos. Aqui será possível encontrar informações relacionadas ao município de Nísia Floresta e a sua filha mais ilustre - de nome homônimo, desde dados científicos, oriundos de fatos históricos, devidamente pesquisados a opiniões do autor. O presente BLOG NÍSIA FLORESTA POR LUÍS CARLOS FREIRE traz também curiosidades, poemas, poesias, crônicas, mensagens, assuntos sobre meio-ambiente, política, antropologia, sociologia, arte - ilustrados ou não, tendo como objetivo divulgar idéias através de um instrumento fielmente democrático - diferente de tantos outros que se passam por tal.
Em caráter de observação, saliento que todo o material aqui contido está protegido, impedindo de ser copiado, tendo em vista que alguns serão publicados e precisam manter o seu caráter de ineditismo. Espero poder contribuir com aqueles que gostam de Nísia Floresta. Considero importante destacar que, com exceção às informações científicas, oriundas de informações do IBGE e órgãos do governo Público, todo os demais conteúdos são de minha autoria.
Professor Luís Carlos Freire
Do. Identidade nº 482.107 - SSP/MS

A LINGUAGEM NO RIO GRANDE DO NORTE

A LINGUAGEM NO RIO GRANDE DO NORTE


DICIONÁRIO DE VOCÁBULOS E EXPRESSÕES REGIONAIS VERNACULARES E CONTEMPORÂNEAS


DITOS POPULARES


COMPARAÇÕES

APELIDOS 

Luís Carlos Freire
Estudo iniciado em 1993

OBSERVAÇÃO: ESTE TRABALHO, COMPOSTO DE 4 TIPOLOGIAS DISTINTAS NÃO ESTÁ COMPLETAMENTE DIGITADO, POIS POSSUI 400 PÁGINAS, MAS AOS POUCOS SERÁ DISPONIBILIZADO AO PÚBLICO. OBSERVAÇÃO 2:AINDA NÃO FOI COPYDESCADO.


DEDICATÓRIA


Ao meu filho Fídias, que desenvolveu-se ao lado deste trabalho, vendo-me conversando com inúmeras pessoas, indagando acerca da pluralidade vocabular nísia-florestense. Quantas vezes implorou-me atenção, sentindo minha ausência nas inúmeras vezes que debruçava-me sobre este estudo por horas a fio.
A todas as pessoas que possuem o poder de detectar valores onde aparentente estes não existem.

INTRODUÇÃO

Em 1992 passei a morar em Nísia Floresta e desde então tenho batido numa tecla que considero fundamental: o resgate e a preservação da  história, da memória e da cultura do município como um todo.
Procurei conduzir os nativos a lançar um novo olhar para o cenário nisiaflorestense. Percebi que o município possuía um patrimônio maravilhoso e que muitos não percebiam, talvez por estarem inseridos nele.
Convidei-os a trilharmos as veredas que nos conduziam aos engenhos, as construções arquitetônicas antiqüíssimas - fantásticas; percorremos os caminhos da história da cidade e da mulher Nísia Floresta, do folclore, do artesanato, da lingüística, enfim viajamos na cultura nisiaflorestense. Encantadora por sinal.
Aos poucos passei a documentar o que considerei mais interessante e assim fui percorrendo a rica e infinita cidade de Nísia Floresta.
Este documento, dentre esse universo todo, trata-se apenas de uma pesquisa lingüística, iniciada em junho de 1992, na qual cataloguei os vocábulos, as expressões regionais, os apelidos e os ditos populares mais comuns.
A história das palavras é a história da humanidade. Elas nascem e percorrem idiomas, mudando quase sempre na forma – para se adaptarem à fala de um povo – e muitas vezes no conteúdo – revelando o olher e o pensar dos novos usuários.
A sua parte mais abrangente é o dicionário e convém chamar a atenção para um detalhe. Algumas pessoas entenderam esta pesquisa como uma coletânea de palavras erradas. O que não procede.
Não existe palavra errada, jeito de escrever ou falar errado quando utilizamos a linguagem do coração. Nela está a emoção e, portanto, a raiz de um povo...
Cada região, por menor que seja possui o seu legado lingüístico, e nele está incluído o falar, o escrever, o declamar e o cantar. Isso ocorre segundo a história e a tradição de um povo, onde harmonizam-se: ditos populares, cacofonias, pleonasmos, hipérteses, aféreses, antíteses, epíteses, apacopações, figuras de linguagem, suarabactis, epênteses, curruptelas e outras formas que vão se lapidando com o tempo, dando origem a uma nova forma de pronunciar uma palavra, um jeito novo de dize-la, enfim uma maneira muito particular de se comunicar no seio de uma família, num povoado, numa vila ou cidade.
O homem parece brincar com as palavras, pois muitas são contextualizadas de uma forma aparentemente estranha, desconexa ou até mesmo improcedente – a julgar pela análise de um erudito, ou mesmo de uma pessoa comum (mas de uma outra região do país). Ele se apossa de palavras, inventa, engola a metade ou o final de outras, enfim, sente-se o dono da linguagem, aliás ele é o dono, ou melhor dizendo, dono do seu dialeto. E tem que ser assim. Ele cria um mar de linguagem, e mergulha alí sem medo, com propriedade. Ele é o doutor daquele mar.
Vamos audaciosamente mergulhar nesse mar, agora. 


Veja esse breve exemplo, na conversa de D. Maria com Pedro, o qual aguarda João:

 - “Dona Maria, Vô chegando! Vim pra votá logo, mas acabamo pegando na conversa. Tô cuma dô fina no pé da barriga. Arra! Cadê você cabra? Derna d’antonti que não lhe vejo. Strudia tu passô prumim sem dá fé, ou tu agora tá querendo sê o cu da porca? Tome jeito, caboco, deixe de catrevagem!
Tibi, macho! eu tava na bodega do seu João. A gambiarra dele teve um pantim da gota serena e foi um furdunço da mulesta dos cachorro! A priziaca caiu de rugero no meio dos mangai. Piquemo a mula pro hospitá. Foi no carro da miliça. Juntô gente feito beia, um friviado da gota! Chegamo lá o dotô disse que foi catrevage dela. A danada fez cena de ciúme módi um pitéuzinho que anda cerando muito a bodega. A gambiarra tava numa retumba grande na casa, toda azeda e não suportou côni o seu João estirou o olho pra bichinha. Foi aí que fez o cu de burro.
– Urra, cumpadi! Que presepada foi essa?
Se existe entendimento dentro de um universo de vocábulos e expressões diferentes, pitorescas, folclóricas ou até engraçadas, quem somos nós para sequer dizer que está errado. Que aprendamos então!
A gente está habituado a aprender inglês, francês, italiano... Sobretudo, a cada dia nos deparamos com palavras novas nos livros, jornais, na televisão e etc. Aqui está uma linguagem nova para muitos. Nova porque de tão antiga caiu no esquecimento. Nova porque você já não tem mais os seus bisavós e nem os seus avós. Nova porque você não é bisneto do seu fulano, o qual não “tirava certa palavra da boca...” Nova porque surgiram novas palavras. No entanto você mergulhará num universo cheio de palavras conhecidas também, as quais ouve dos avós, pais, vizinhos, e que inclusive as utiliza, seja restritamente (apenas em casa com os mais velhos) ou no cotidiano com os amigos, dependendo da abrangência da palavra.
A expressão popular como um todo, seja no falar, no escrever, no cantar, no pintar, no dançar, no brincar, no medicar ou em qualquer outra atitude, constitui um tesouro precioso a ser investigado e preservado.
A nossa história é o nosso folclore!

A INFLUÊNCIA DA TELEVISÃO NA LINGUAGEM – MÍDIA, MODERNIDADE E GLOBALIZAÇÃO.

Na Rússia não existia a palavra fazenda (é óbvio), até que um dia a Rede Globo chegou por lá com a novela Escrava Isaura e bateu todos os recordes de audiência. Hoje, o povo russo utiliza-se da expressão fazenda como se ela fizesse parte do dicionário deles.
Sabemos que os meios de comunicação influenciam muita coisa, porém dentre todas as suas formas, a televisão parece exercer um poder incomparável na linguagem, a ponto de criar uma espécie de globalização do falar.
São muitas as palavras novas que foram incorporadas ao nosso linguajar, e nem percebemos que não foram aprendidas com os nossos pais, nos livros ou na escola.
A linguagem estrangeira, as gírias e mesmo as expressões regionais de São Paulo e principalmente do Rio de Janeiro (de onde são transmitidos os principais programas de televisão) são incutidas naturalmente em todos os rincões do país.
Um exemplo isolado é a expressão “tá me tirando” (é o mesmo que: tá me gozando, zombando ou mangando), a qual é diariamente falada nas pegadinhas da Rede TV. Não há quem não saiba o seu significado, sobretudo tal expressão já está sutilmente sendo usada por aqui.
Quem saberia disso se a Rede TV não atingisse essa região?
Quem não sabe o que é “mina” ou “brotinho”? Pois bem, tais gírias são típicas do Rio de Janeiro, mas estão encravadas em todo o Brasil via Rede Globo (principalmente).
Prova contundente de que a televisão tem o poder fulminante de globalizar a linguagem, pode ser percebida se fizermos o caminho contrário em termos de transmissão do eixo Rio-São Paulo para o Brasil a fora.
Quem nesses dois estados sabe o que é “remancho”, “caviloso”, “cu-de-burro” e tantos outros palavreados comuns por aqui?
Se acaso a Rede Globo e o SBT (por exemplo) fossem transmitidas de Belém do Pará para todo o Brasil, obviamente estaríamos familiarizados a um linguajar totalmente diferente do que veremos neste dicionário.
No que se refere a linguagem estrangeira, principalmente a inglesa, é a que está mais presente na televisão, internet, nas revistas, marcas de produtos, placas comerciais, emissoras de rádio, nos jornais, outdoors, e etc.
Quem nunca ouviu essas palavras de origem inglesa:copy desk, off-set; open market, on line, home page, marketing, índice Dow Jones, hotweiler, pit bul, on, off, discket, micro-sistem e uma infinidade de outras palavras que fazem parte do nosso dia-a-dia? E as francesas (já aportuguesadas): comitê, pivô, vedete, bomboniere. As italianas (também já aportuguesadas): pizza, gorgonzola, mezanino. As árabes (tão aportuguesadas e antigas que podemos chegar a duvidar de sua origem): alfazema, alfafa, álcool, algarismo e uma infinidade de outras em outros idiomas. Quem não ouviu as expressões: Telefunken, Toshiba, Aywa, Fiorucci, Yves Saint Laurent, Lee?
A linguagem estrangeira vai se tornando tão comum a ponto de se aportuguesar. Veja esse exemplo isolado: black-out tornou-se blecaute.
A modernidade típica do momento em que vivemos, a globalização, o mercosul, a facilidade com que as pessoas viajam à passeio ou à negócios para vários países, o livre comércio no próprio Brasil, as emigrações e diversos outros fatores, rompem a unidade da linguagem, impedindo resistências. Tudo isso tem o seu lado positivo e negativo.
Positivo porque de certo modo evoluimos, e negativo porque perdemos um pouco da nossa identidade. Temos que apreciar tudo isso de uma forma consciente.
Um fator curioso é a reinterpretação das palavras, por exemplo: executivo. Os dicionários mais antigos dão-lhe dois sinônimos (quem executa alguma coisa e poder executivo), entretanto atualmente ela adquiriu mais uma interpretação (quem ocupa cargo de chefe de alto nível numa empresa); são os famosos executivos que, inclusive, tal função é sinônimo de status.
Outro exemplo semelhante é a palavra celular. Se há 20 anos um Júlio Verne ou um Aldous Huxley da vida lhe pedisse um celular para fazer uma ligação, com certeza você pensaria se tratar de uma brincadeira, pois se reportaria a célula no sentido biológico.
Esse detalhe nos faz refletir sobre a seguinte questão: a palavra mudou?
Não! O que mudou foi a interpretação da linguagem, ou seja, a maneira como ela agora é interpretada. A linguagem também se moderniza. Trata-se de um processo contínuo.
Algo muito válido de ser analisado é a questão do sotaque, até porque sotaque é comunicação.
As grandes emissoras de televisão e a maioria das emissoras de rádio estão paulatinamente mudando, ou globalizando o sotaque em todo o Brasil. E como em Nísia Floresta não poderia ser diferente, a FM Executivo 87,9 nos ajuda a explicar esse fenômeno. Um determinado locutor desta emissora , nascido e criado em Nísia Floresta se expressa com um sotaque queé uma mistura entre paulista e carioca. Numa fuga total de suas raízes, cuja descaracterização total visa atender um “padrão”, ou estilo, apregoado pelas emissoras. É a tal globalização. Entretanto outro locutor é totalmente regionalista, bem como o proprietário da emissora, cujos sotaques mostram-se fiéis ao Nordeste.
Lançando um olhar sobre a FM Olho D’Água, 87,9, de São José de Mipibu, ocorre o mesmo até o momento. A esse respeito em 1934 Câmara Cascudo já dizia que “... daqui a algum tempo o sertanejo falará como todos nós. O ambiente, renovado pelos jornais, escolas, visitas e viagens, atravessa um período de transformação rápida” (Cascudo, 1984, p. 39)
É loucura exigir que todas as pessoas tenham unidade e fidelidade no sotaque (ou jeito de pronunciar – se assim achar melhor). E não é esse o objetivo deste documento. Mas temos que nos convencer que negar o nosso sotaque é como sentir vergonha da nossa identidade. A impressão que se tem é que alguns se subestimam por não pertencerem a região do eixo Rio-São Paulo. É ridículo absorver propositalmente os sotaques dessas duas regiões como padrões de elegância ou de qualquer outra alienação.
Obviamente que tais regiões têm a sua beleza no sotaque, mas o Nordeste também tem a sua. É essa pluralidade que deixa o nosso país tão interessante.
Enquanto alguns querem ter os sotaques de São Paulo ou do Rio de Janeiro, muitos cariocas e paulistas trucidam o sotaque do Nordeste – basta assistir as novelas ou seriados afins da Rede Globo. De onde eles tiram aquilo?


O SURGIMENTO DESTE DICIONÁRIO
Nasci e fui criado até os meus 22 anos em Bataguassu, no estado de Mato grosso do Sul, cidade situada bem nas divisas dos estados de São Paulo e Paraná, às margens dos rios Paraná e Pardo, numa região geograficamente interessante.
Bataguassu foi fundada em 1953 por um imigrante tcheco-eslovaco, cujos pioneiros brasileiros da região são paranaenses, paulistas, gaúchos, nordestinos, catarinenses e os estrangeiros são alemães, japoneses, iugoslavos, romenos, poloneses, tcheco-eslovacos, paraguaios, húngaros e portugueses.
A cidade tem o tamanho comparado a São José de Mipibu (RN), distando 400 Km da capital Campo Grande, 32 Km do interior de São Paulo, 70 Km do interior do Paraná, 800 Km de Santa Catarina, 400 Km do Paraguai e 800 Km da Bolívia.
Essa curiosa posição geográfica e a mistura de raças, sotaques, expressões populares, e costumes, permitiu a formação de um povo diferente tanto étnica quanto fisica e culturalmente.
Em Bataguassu existem alemães casados com nordestinos, cujos filhos casaram-se com japoneses e os netos se uniram a outras famílias miscigenadas.
Essas misturas exóticas possibilitam aos filhos de alemães sorverem tererê (bebida de descendência indígena), enquanto nordestinos saboreiam cucas (espécie de pão gaúcho), japoneses fabricam linguiças e chouriços temperadíssimos (hábito alemão), paulistas dançam vaneirão (estilo de música sulista), dentre outras absorções que um herda do outro, tornando-se habitual.
Analisando esse contexto por um prisma lingüístico, mergulharemos num linguajar muito interessante.
Todos em Bataguassu sabem que “batchã” significa avó, “ditchã” significa avô em língua nipônica e que “ôma” é avó em germânico. A batchã Kimie pode ter uma filha casada com um paraguaio e este ter uma irmã casada com alguém dos Heresteck, dos Trauttmans ou dos nordestinos Nascimento Goebel, netos da ôma Frida Zielasko.
O lusitano Joaquim Antonio pode ter uma neta filha do seu filho paulista com uma sul-matogrossense filha de nordestinos, e assim caminha a humanidade bataguassuense... Numa miscigenação que não pára, cujas características singulares não são comuns a todo e qualquer estado brasileiro.
Em minha cidade natal a palavra “biscate” tem um significado nada agradável para uma moça. É o mesmo que “rapariga” por aqui. No entanto, biscate por aqui é sinônimo de trabalho informal (vendedor ambulante), conforme reza o dicionário oficial da Língua Portuguesa. Comparação igual pode ser feita em Portugal, onde “rapariga” significa moça (que também são acepções corretas).
Se um nisiaflorestense aparecer em Bataguassu dizendo que “desmentiu” o pé (o que etimologicamente está correto (significa torção) poderá ser alvo de piada, pois lá tal expressão é entendida apenas como uma mentira que foi desfeita (o que também está correto). Com essa concepção é incompreensíve alguém desmentir o pé . Por acaso o pé fala?
Curiosamente ambas palavras estão corretas, porém seus significados duplos permitem que dois estados tão distintos (MS e RN) concebam, cada um, interpretações diferentes.
“Fresco” em Bataguassu não é nada mais que o vento ou a brisa, o peixe e a carne. Em Nísia Floresta também, porém a sinonímia ainda é mais abrangente, significando também homossexual. Lá a palavra “verde” significa uma cor e refere-se a fruta não madura. Em Nísia Floresta ocorre o mesmo, entretanto os significados se estendem para carne fresca e não salgada. Em ambas regiões os significados estão corretos.
Em Bataguassu não se usa o verbo “botar”, e sim “pôr”. Se alguëm disser “bote ali” logicamente será compreendido, no entanto soará muito estranho. O que aqui denominam de “canjica”, lá chamam de “curau”, entretanto a canjica de lá é o que aqui chamam de “munguzá”.
Tanto em Bataguassu quanto em qualquer região do Brasil e do mundo o regionalismo é abrangente e espetacular, tornando ainda mais bela a Língua Portuguesa.
Em 1992 sai de Bataguassu, vindo visitar familiares de São José de Mipibu (RN) e por aqui acabei ficando. Morei ali por dez meses e mudei-me para Nísia Floresta.
Quando sai de Bataguassu (de ônibus) vivenciei uma situação muito interessante (pelo menos para mim) quando na parada de um município mineiro, chamado Formiga, subiu uma família nordestina que retornava para a Paraíba.
Dentre os integrantes daquela família havia uma garoto de cinco anos chamado Heitor, o qual logo começou a conversar comigo, deliciando-me com sua graciosidade de criança e com seu sotaque forte e encantador, repleto de palavras pouco inteligíveis para mim (pelo menos até enquanto eu fosse me familiarizando com as deliciosas expressões populares do nordeste) fato este que foi ocorrendo aos poucos.
No afã de ter aquele professorzinho ao meu lado, fui esticando a conversa e admirando o seu jeito de pronunciar as palavras. Logo peguei a agenda e fui anotando tudo o que era estranho ao meu vocabulário (até então puramente sul-matogrossense).
Guardo até hoje a velha agenda, na qual podem ser encontradas as seguintes palavras: “painho”, “mainha”, arrochado”, “vôti”, “capei o gato”, “mó d`eu”, “torou”, “é chão!”, dentre outras novidades faladas por “Heitô” (como seus pais o chamavam) omitindo o “r” final, a propósito um regionalismo fortemente presente no Nordeste.
Particularmente tenho por hábito anotar fatos que considero curiosos ou interessantes, porém nunca imaginei que aquele garoto e suas palavras estavam sendo a pedra fundamental de uma obra que hoje considero finalizada, em se tratando da sua primeira parte, pois quem sabe poderá vir a segunda.
Assim que vim morar em Nísia Floresta passei a catalogar as palavras que me eram estranhas, ou que tinham significados diferentes das da minha terra. Logo a frente da palavra eu colocava o significado (ou os significados). Não foi difícil, pois na condição de migrante tive grande facilidade em anotar tudo o que era novo, da mesma forma que qualquer pessoa que sair daqui para qualquer parte do país terá, pois nosso regionalismo é vastíssimo.
Os anos se passavam e as anotações iam aumentando. Confesso que mesmo após uma década eu ainda percebia quando num diálogo alguém soltava uma expressão ou um vocábulo diferentes. É por isso que não considero este trabalho finalizado, inclusive há alguns dias um grupo de mulheres conversava ao meu lado sobre a preparação de canjica e uma delas mencionou a palavra “xerém”, referindo-se a “parte mais grossa do milho “moído”. Imediatamente anotei tal palavra, a qual já estava registrada, porém com outros significados: “cocô de cupim” e “milho triturado para pinto novo”.
Nesse interim pude perceber que meu acervo de palavras adquiria uma dimensão que exigia organização, pois muitas das palavras tinham além de sua acepção, uma simbologia, outras uma história, inclusive pitorescas e curiosas, as quais necessitavam ser apresentadas com clareza, com detalhes à parte, com observações no cuidado de não confundir a cabeça do leitor.
Nesse caso, reporto-me a palavras que estão em desuso, quase em desuso (como: “vice!”, conduto, “caquiando”, etc.) ou que sua utilização limita-se a um vocabulário isolado, restrito a uma ou a meia dúzia de famílias ( como: “azul”, “carneiro”, “dízimo do peixe”, etc.). sendo totalmente desconhecidas em toda a cidade, o que é um detalhe curioso.
Não ficaria interessante lançar as palavras em forma de dicionário apenas, sem chamar a atenção do leitor para certos detalhes. Se isso ocorresse seria concebida a idéia de que todas as palavras estavam vivas e em pleno uso. O que não é verdade.
Obviamente que a maioria delas é usada por todos, mas há exceções.
No vocabulário erudito milhares de palavras têm vários sinônimos e a distinção se dá de acordo com o contexto onde está inserida. O mesmo ocorre com o dicionário, como é o caso da palavra “peia”, dentre muitas outras.
Como se trata de uma coletânea de palavras usadas numa região, não pude me restringir a tipos de expressões, portanto aqui está tudo o que ouvi, independente do nível cultural ou educacional das pessoas. Dessa forma foi impossível omitir expressões chulas.
Um trecho do poema intitulado Versos Íntimos, de autoria de Augusto dos Anjos diz “O beijo, amigo, é a véspera do escarro, A mão que afaga é a mesma que apedreja” . Aludindo a este poema não pude fugir à regra, pois muitas das bocas que falavam palavras bonitas falavam palavras consideradas (por alguns) feias, ou, regionalmente dizendo, “podres”.
Eu não pude ser púdico, ou melhor dizendo, hipócrita em ignorar o vocabulário chulo – se era algo real, e nem primar apenas pelo vocabulário não chulo, pois tudo é parte de uma cultura. Se eu tivesse censurado algumas palavras, algo que nunca passou pela muinha cabeça, estaria mudando exatamente essa cultura.
De qualquer forma, cabe-nos refletir sobre a pluralidade de expressões chulas e estrambóticas, faladas pelo povão, da mesma forma que as pessoas “da sociedade” também escarram os seus xingamentos de uma forma julgada mais “educada”.
O interessante é a forma pitoresca como as pessoas humildes (obviamente as de língua solta) xingam, se comparadas com as da sociedade (também de língua solta – é claro). Veja esse exemplo do rico xingando: - “Porra, aquele filho da puta quebrou o computador, não é uma droga?!”. Agora veja o pobre xingando porque alguém quebrou a porta do galinheiro: “Arra!, estopô balaio da gota serena!!! quem foi esse fuleiro que reiou a porta dessa buceta! Isso é uma bosta, cachorra da mulesta! Eu vô fazê um cu de burro aqui e vai tê que aparece o fresco!
Veja como a linguagem do pobre é mais rica e cheia de assessórios.
Percebemos que, por desconhecer palavras mais condizentes e no afã de estravasar toda a cólera, o pobre dá um show de linguagem, verbalizando um espetáculo de expressões que para ele traduzem todo o ódio do momento. É nítido que tais palavreados tem o poder de deixar extrapolar a raiva em sua totalidade. Isso nos mostra o quanto a palavra é importante num contexto e que todas, dependendo da circunstância, precisam de algo mais para serem compreendidas. Esse algo mais funciona igualmente a um bom tempero na comida, e esse tempero, na linguagem popular, torna-se mais delicioso (traduzível) quando dito junto com caras e bocas, ou seja, gestos, chiliques, mungangas, caretas, posturas, com determinada dicção, tom de voz e etc. A palavra, para ser bem compreendida, precisa grandemente desses assessórios. E por incrível que pareça, as pessoas humildes, nascidas nas zonas rurais ou em minúsculas cidades interioranas, cuja escola foi a vida, são mestras nessa prática.
Um detalhe curioso é o resultado esdrúxulo na construção de determinadas frases, onde palavras desconexas se harmonizam e se fazem entendidas em determinadas famílias ou certos povoados e distritos. Vejamos essa frase: “- Arra! estopô balaio da gota serena! Cachorra da mulesta!
Se demolíssemos esta frase, palavra por palavra, e pedíssemos a uma pessoa de uma região totalmente alheia ao Nordeste, que construísse uma frase usando tais palavras, com certeza ela jamais se aproximaria da acepção original. Por quê? Ora, porque realmente é difícil. Com certeza algumas palavras seriam totalmente desconhecidas pela pessoa. Veja tais palavras misturadas aleatoriamente: cachorra – arra – balaio – serena – mulesta – da – estopô – gota. Baseando-se nas palavras dadas, a pessoa poderia até formalizar uma frase mentalmente, mas dando conta que alguma coisa estava faltando – ou que algo estava errado.
Porém, se fizéssemos a mesma proposta a uma pessoa do Nordeste, principalmente da região onde tais vocábulos são utilizados, com certeza ela construiria uma frase com toda propriedade, inclusive alternando palavras, por exemplo: “Cachorra da mulesta! Gota serena! Estopô balaio! Arra!!!
Ocorre que foram atribuídos nomes – ou pseudônimos a coisas que passam longe do que realmente são, por exemplo: lata (rosto); vou chegando (estou indo embora); cu da porca (orgulhoso); esmeril da França (guloso); raposa (feijão amassado com farinha espremido na mão), enfim uma riqueza vocabular.
Embora muito desse vocabulário popular pode ser explicado, muito não deixa de ser uma incógnita. Muitas palavras e frases grandemente usadas para designar determinada intenção, são associadas a animais (a natureza como um todo) doenças, deficiências físicas, preconceito racial (inocentemente praticado), desvios sexuais, enfim a história do surgimento da comunicação primitiva se repete com outra roupagem. O homem da caverna procurava elementos na natureza para riscar as primeiras “palavras” e desenhos nas paredas. As próprias letras tinham toda uma relação com a natureza, principalmente com os animais.
Analise essas palavras e frases: “só quer ser o cu da porca” (gente pedante). Como é que uma pessoa – justamente pedante – teria vontade de ser justamente essa parte do corpo de um porco, sobretudo um animal tão sujo e condenado?. “Vou chegando” (vou indo embora). Olha só que contradição: como é que eu estou me despedindo de alguém e digo o contrário? Se estou indo embora é lógico que terei chegado há muito tempo.
Veja só como os animais são explorados no vocabulário: “Capei o gato” (fui embora). Qual a relação entre capar um gato com ir para casa? Supostamente quer dizer que tomou o destino de casa com muita pressa, comparando-se ao gato que, capado sai em disparada.“Piquei a mula” (é o mesmo que capei o gato). “Picar” com certeza deve ser esporar. Logicamente que dando uma esporada na mula ela dispararia. “Comer raposa” (comer feijão e farinha espremido na mão). O que tem a ver uma raposa com feijão e farinha? Terá sido porque os antigos moldavam uma rapozinha com o feijão amassado para estimular as crianças a comerem?. “Balaio de gato” (confusão) Trata-se de uma expressão que faz jus ao nome, pois imagine uma porção de gatos dentro de um balaio – só poderia ocorrer uma confusão. “Bebe que só a cachorra” (que consome álcool em demasia). Como é que uma cachorra beberia justamente cachaça? A cachorra dessa expressão não seria uma alusão a uma mulher vadia? “Cantar de galo” (ser o dono da área – mandão). Aqui está muito explícito, até porque os galos agem assim. “Cara de boi sonso” (aparência de pessoa bobona).
São muitas as relações com os animais, independente de serem contraditórias ou não.
Observe essas expressões com relação a nomes de doenças: “Aquele fii do cabruncu!” (é um xingamento). Trata-se da curruptela de carbúnculo, que é uma doença horrível. Logicamente que quem diz isso está com muita raiva. “Essa bixiga lixa” – “Esse bixiga taboca” (xingamento). Bixiga é o nome popular da varíola, a propósito ocorreu uma peste dessa doença há mais de um século em Nísia Floresta. Dizem os antigos (de acordo com suas lendas) que foi construído um cemitério no mato, perto da FLONA-IBAMA, pois era tão contagiosa que mesmo pessoas mortas poderiam espalha-la. “Mulesta dos cachorro” (xingamento). Percebemos nitidamente que trata-se de “moléstia dos cachorros”, ou seja, doença dos cachorros. “Isso é a gota serena” (xingamento). Todos sabemos que a gota é outra doença terrível. É curioso como as pessoas mencionam as piores doenças para xingar. Quanto mais raiva, pior a doença.
No que se refere as frutas, legumes e tubérculos, veja alguns exemplos, os quais normalmente estão associadas a comparações: “cara de mamão macho” (rosto grande); cara de maracujá mucho (rosto muito enrugado); “isso é uma cebola!” (uma merda – droga); “não mexe com esse menino que ele parece uma jaca (mole – chorão); “vá catá coquinho” (vá embora); ela já experimentou a macaxeira dele (pênis); “segura na minha mandioca” (pênis); “cara de graviola” (rosto cheio de espinhas); “cabelo de catemba de coco” (cabelo ruim); “cara de quem ta chupando limão” (cara feia ou que fez careta), “esse menino parece uma mangaba” (que chora muito, é mimado ou que vive se espatifando no chão)etc.
Interessantes também são as associações (normalmente chulas) feitas aos órgãos genitais, tanto masculinos quanto femininos, quase sempre estapafúrdias. Veja as referências ao pênis: mangueira; lingüiça; tronco; chulapa; macaxeira; mandioca; pau; peia, etc. É comum atribuir-lhe nomes de objetos ou frutos da natureza, principalmente para dar um tom aumentativo: “qué o meu salame?”; “ai meus coco”; “sua pinta parece um inhame”; “seus pentei parece uma floresta”; “isso é uma rola ou é um tripé?”; “dizem que a pinta dele é um anjinho barroco!” “isso é uma rola ou um palito de fósforo?” (nesses dois últimos casos, referem-se a pequena demais).
Observemos agora as referências a vagina: “chavasca”; “bolsa de couro”; “xana”, “xaninha” (essas duas últimas expressões também são atribuídas a gatos); “chimbiquinha”; (antigo apelido de um carro muito barulhento do início do séc. XIX); buzanfa;
Existe também a inversão do masculino e do feminino em determinadas expressões: “As tomate ficaro podres” (os tomates); “eu já fiz a molha” (o molho); “fui buscá o foto em Batazá!” (a foto).
Podemos ver também o aparente surrealismo presente nessa linguagem: “Fulano pegou ar” (ficou bravo). Como é que alguém pode pegar ar? Qual a relação de ar com braveza? “Fulano deu a piula” – “deu a mulinga” (ficou muito bravo). Como é que alguém dá algo que não existe nem no dicionário? “Cadê você, rapaz?” (cumprimento quando encontra alguém que já estava na intenção de vê-lo). Como é que eu pergunto “cadê você?” para uma pessoa que está na minha frente?. Ficaria mais lógico eu perguntar assim se eu tivesse atendido um telefonema, pois, logicamente não sabia onde a pessoa estava. “Ele ofendeu minha filha” (engravidou). Como é que uma gravidez pode ser uma ofensa, se não houve estrupo, se o casal simplesmente esqueceu a camisinha? “Ele ganhou o mundo” (saiu para passear sem se preocupar com horário de voltar). Como é que se ganha o mundo? Quem teria dado o mundo a uma só pessoa? O que alguém tem – ou fez - de tão especial que ganhou o mundo?
Se fossemos listar, de acordo com a linhagem de cada palavra ou frase, ocuparíamos muitas páginas, mas seguem aqui algumas análises aleatórias: “Aquelas duas fazem sabão” (são lésbicas – sapatão). As pessoas associam a espuma do sabão com a umidade que lubrifica a vagina. Interessante é a criatividade das pessoas, as quais imaginam que o resultado é como a espuma do sabão. “Língua de trapo” (pessoa fofoqueira). Trapo tem língua?. “Fumando num cachimbo” (com ódio). É possível uma pessoa com ódio ficar pitando cahimbo? “Ele furou o couro dela”. (transou). Furar o couro (pele) é ferir alguém com algum objeto pontiagudo ou cortante. Se isso acontecer na vida real é caso de polícia.
POR QUE NÍSIA FLORESTA ?
Como o meu objeto de estudo se nutriu em terras nisiaflorestenses, fiz muitas referências a Nísia Floresta, o que pode dar a impressão de ter colocado a cidade como uma região isolada, dona de um linguajar próprio.
Quero deixar claro que muitas das palavras aqui contidas são conhecidas em quase todo o Nordeste, com exceções, como já expliquei anteriormente. O que difere em muitos casos é a questão da sinonímia e mesmo da intensidade com que algumas são utilizadas em suas respectivas regiões. Dentre muitos exemplos cito a palavra “xerém”, interpretada na cidade de Santa Cruz (RN) como “munguzá”. A diferença do significado que ela tem em Nísia Floresta é grande. Por esse raciocínio podemos perceber que dentro do próprio estado as palavras possuem significados distintos, imagine em outros estados do Nordeste e do resto do país...
Seja como for, o dicionário de vocábulos e expressões regionais registra as palavras tais quais são faladas e entendidas na cidade de Nísia Floresta. Aqui está compilado o que encontrei até agora, e que por considerações de estudo, registrei-as.
O presente documento não se trata de um trabalho acadêmico, é fruto de uma atividade livre, portanto intencionalmente não me prendi às regras típicas. Também não procurei explicar a origem das palavras nem das expressões regionais da maioria, mas considerei interessante ir a fundo e buscar a origem de algumas. Nesse caso, para que o leitor não se atrapalhe, as mesmas estão com o ítem denominado PESQUISA logo após a palavra. E todo o conteúdo de acepção está em negrito..
Lembro que não é muito fácil evidenciar com total clareza o significado de uma palavra, portanto achei melhor inseri-los num contexto.
O leitor verá que cada palavra é seguida do seu sinônimo e logo a frente vem uma frase com o objetivo de explorá-la com clareza.
Há casos de uma mesma palavra possuir significados similares ou completamente diferentes. A assimilação exata depende do contexto.
Muitos vocábulos são seguidos do item denominado OBSERVAÇÃO, visando também uma compreensão melhor. Sem tal recurso os vocábulos ficariam meio vagos. A observação se faz necessária principalmente para as novas gerações, tendo em vista que a linguagem é mutante. Por outro lado pessoas de outras regiões, detentoras de um regionalismo diferente, teriam mais facilidade para compreender.
O item EXEMPLO normalmente é um suporte importante para a observação, visando também uma melhor compreensão.
Outro detalhe influente diz respeito ao ítem CURIOSIDADE. Sua finalidade não é nem tanto contribuir com a clareza da sinonímia, mas levar uma informação ou curiosidade acerca daquele vocábulo.
Com estes recursos procurei dar o máximo de fidelidade a acepção dos vocábulos e das expressões, tornando o dicionário bastante didático.
De qualquer modo é um trabalho de fácil compreensão por todas as idades e culturas.
UMA DÉCADA DE PESQUISA
Aparentemente pode parecer tempo demais ter durado dez anos a catalogação das palavras aqui contidas. A questão do tempo e da quantidade de material nunca consistiu numa preocupação para mim, a propósito é algo muito relativo. Podia ter sido ainda maior o tempo, acaso eu não tivesse resolvido só agora organizá-las, ou talvez não demorasse tanto, acaso eu tivesse me dedicado única e exclusivamente a tal tarefa. A princípio eu não imaginava chegar até aqui. O desfecho desta pesquisa deu-se aos poucos, após o amadurecimento das idéias.
De qualquer modo é importante refletir acerca da importância do tempo num trabalho de pesquisa, pois foi exatamente o tempo que alimentou o meu trabalho. Tudo foi feito paulatinamente. Ás vezes eu passava meses sem tocar no livro de atas (onde eu anotava), porém, de uma hora para outra alguém falava uma palavra diferente e imediatamente eu a anotava em qualquer material que tivesse por perto, para depois escrevê-la no livro de atas. Minha agenda é repleta desse material, pois era o que estava mais comumente em minhas mãos. Mas não foi só a agenda. Anotava em papéis avulsos, capas de cadernos, livros, nas minhas mãos e até na própria roupa. Certa vez, ao ouvir uma palavra, me vi obrigado a escrevê-la discretamente num muro e depois voltar lá para copiá-la. Outra vez, conversando com um velho agricultor em plena roça, tive que escrever no próprio chão, correr em casa, pegar papel e caneta, voltar na roça e copiá-la. Se não tivesse feito isso teria perdido a palavra, pois normalmente as pessoas “soltam” as palavras naturalmente dentro de um contexto. Jamais se lembrariam acaso fossem questionadas. Nesse ritmo cataloguei palavras quase extintas.
Normalmente o que me fazia debruçar dias ou meses a fio no desgastado livro de ata era a necessidade de passar a limpo todo esse material, pois tinha medo que se perdessem. A cada vez que eu recorria ao livro ata (o que não era sempre), a paixão aumentava e não queria parar.
Dessa forma cheguei até aqui após dez anos de dedicação.
A mola propulsora deste trabalho foi, como já disse, a paixão pela pesquisa. pois não existe pesquisa sem paixão. Mas não foi só isso. Existe um combustível forte que é um grande amor pela cultura popular e pela cidade de Nísia Floresta – cidade que adotou-me como filho.
O presente trabalho para os amantes da cultura popular consiste em algo delicioso de ser apreciado, inclusive professores, os quais podem explorá-lo como uma rica fonte de aulas, pois dá margem para muitas reflexões, mas isso não impede que qualquer pessoa o leia, inclusive turistas, pois lhes permite mergulhar num universo linguístico encantador.
FILOLOGIA
A filologia nisiaflorestense tem pontos interessantes, cuja raiz perde-se no tempo.
Não existe nada escrito sobre o assunto. Acredito que a evolução semântica, como ocorreu em quase toda essa região, deu-se sob o falar indígena, holandês e português (refiro-me ao português antigo – dos primeiros habitantes que vieram de Portugal, no qual se inclui o linguajar mouro). Nós, brasileiros, falamos há 503 anos, um bom período para que o jeito de falar fosse se lapidando aos poucos, de acordo com as influências estrangeiras que cada região recebeu.
Por aqui a letra “v” torna-se “r” quando usada em certas palavras. Normalmente o verbo vir costuma ser conjugado com um “r” no lugar do “v”, por exemplo: “rou” (vou), “rai” (vai), “renha” (venha), “reio” (veio), “ramo” (vamos),etc. A maioria das pessoas omite o “s” ao final das palavras, como o caso do ramo, ao invés de “ramos”. É muito comum ouvirmos as pessoas dizendo “andá” (andar), “falá” (falar), “corrê” (correr), “cumê” (comer), “pegá”(pegar). O “r” também é comumente omitido.
Palavras terminadas com “s”ou “z” normalmente são pronunciadas (pelos mais idosos) com um “i” antes do referido “s”, por exemplo: “meis” (mês), “nóis-moiscada” (nós-moscada), “trêis” (três), “veiz” (vez), “cóis” (cós), apóis (após), “nóis” (nós), etc.
É muito comum o uso do “i” depois do “na” seguido do “s”, por exemplo: “naiscer” (nascer) e “nais” (nas).
Os nativos mais antigos costumam pronunciar o “i” após as vogais “a”, “e” e “o”, por exemplo: “aico” (álcool), “aima” (alma), “biscaite” (biscate), “peico” (perco), “páitu” (pátio), “ceica” (cerca), “cóite” (corte), “bôin dia!” (bom dia!). No caso do “bôin dia”, a vogal “o” tem som nasal e um nítido “n” após o “i”.
Normalmente as consoantes “l” e “s” não são pronunciadas quando estão no final das palavras. Veja: “mé” (mel), “fé” (fel), “ané” (anel), “Migué” (Miguel), “Samué” (Samuel), “nai” (nas), “nóis” (nós), etc. Um interessante exemplo está na expressão “apoi” (“apois”).
Uma curiosa utilização do “i” ocorre quando certas palavras têm um “l” ou um “r” no meio, por exemplo: “caiça cuita” (calça curta), “cuito” (culto), “caivão” (calvão), “caita” (carta), “paico” (palco), “poiquêra” (porqueira), “peico” (perco), “poico” (porco), “puiquê” (porque), dentre outras.
Em alguns casos o “n” é omitido, por exemplo: “evelope” (envelope) e “edereço” (endereço).
Constatei casos raros e até incríveis em algumas famílias. Analise esses: “antonti” (antes de ontem), “dernantonti” (desde antes de ontem), “tresantonti” (três dias antes). Podemos perceber que “derna” é uma curruptela de desde.
Nas mesmas casas onde ouvi os raros palavreados acima, ouvi também: “côni” (quando) , “con’eu” (quando eu) e “disparecer” (esparecer).
A interjeição tchau é pronunciada por muitos como “chau” sem o som do “t”. Outros falam “te-chau”.
Por ser a palavra tchau de origem italiana, cuja escrita original é “ciao”, o brasileiro aportuguesou-a apenas na escrita, pois ambos os países a pronunciam da mesma forma. A propósito a consoante “c” em italiano tem o som de “t”. A pronúncia deles é “tiao”.
Outro caso semelhante refere-se às expressões “peitchu” (peito), “muintcho” (muito) e “gostcho”. No caso do “peitchu”, se considerarmos apenas a questão etimológica, ignorando o regionalismo, podemos afirmar que é uma forma errada de falar. Entretanto, por ironia, há uma semelhança incrível com a raiz da palavra. Não me refiro à semântica, mas à morfologia da palavra, a qual no seu original em latim escreve-se pectus, cuja pronúncia assemelha-se muito ao “peitchu” de Nísia Floresta e de grande parte do Nordeste.
Uma outra curiosidade faz-me reportar a palavra “entonce” (então), a qual é falada por raros idosos quase tão fielmente ao entonces espanhol. A diferença é que na Espanha se pronuncia nitidamente o “s”. É importante lembrar que a expressão “entonce”, em vigor em Nísia Floresta, é uma palavra ultrapassada e que era muito comum no português medieval, a qual tem origem no latim intunce e também extunce.
Existem raros casos de nisiaflorestenses que falam “vórrmicê” (vosmicê) (você). Uma forma diminuida de dizer Vossa Mercê (a avó de Vossa Senhoria). Interessante é que mercê (em latim: merces) significa “graça”, “proteção”, “benefício”.
Quem sabe no português medieval Vossa Mercê ou vosmicê também significou vossa graça?, ou seja vosso nome? Pois muitos por aqui usam essa expressão quando querem saber o nome de alguém: sua graça?
No universo pluralista dessas expressões regionalistas podemos encontrar casos extremos, onde pessoas que se servem parcialmente desse regionalismo, costumam “estranhar” e até zombar daquelas mais versadas no falar popular. Tais versados são rotulados de matutos. Veja alguns exemplos: “prá sumana eu vo” (para a semana eu vou – eu vou na próxima semana), “tá quilaro” (está claro), “minhã eu vo” (amanhã eu vou), “istrui” (destruir), “istrudia” (outro dia), “apoi” (“apois” – percebemos aqui que o próprio regionalismo tem outras vertentes, as quais se diferem segundo certas peculiaridades de algumas famílias), “ingreja” (igreja), “strumo” (estrume), “nu ro não” (não vou não), “tu riu” (tu viu?), “ce rai dispois” (você vai depois), “nu dixi” (não disse), “boralá” (embora lá), “borali” (embora ali), “ramo lacolá” (vámos lá acolá – aqui ocorre uma redundância), “Avre Maria!” (Ave Maria!), “lastá-lo ele” (lá está ele), etc.
O que também chamou muito a minha atenção foi constatar casos de crianças entre 5 a mais ou menos 15 anos usando o linguajar dos avós e bisavós como um dialeto. Digo dialeto porque em vários momentos muitas frases fogem a compreensão até mesmo de quem é nativo, pois, como já expus, a prática desse linguajar não é algo homogêneo, diferindo, sim, de um distrito para outro, dependendo da expressão.
A prova maior da existência dessa espécie de dialeto está no fato de algumas crianças não utilizarem na escola ou na rua a mesma linguagem usada em casa com os avós. Entretanto é difícil a criança saber separar o que é “dialeto” e o que não é, exceto quando é alvo de zombaria principalmente na escola. Só assim ela deixa aquela palavra em casa para conversar com os avós (esses com certeza não mangam – diriam).
Podemos perceber com isso que, por mais que a linguagem se lapide, existe uma resistência involuntária, estimuladas pelos idosos (ainda bem!).
Outro detalhe interessante e que reforça a riqueza e a beleza das expressões populares, refere-se ao fato de muitos universitários e pessoas formadas conservarem vivamente o regionalismo.
Constatei que o regionalismo e a existência do que preferi denominar dialeto, torna-se mais forte nas casas onde existem menos pessoas alfabetizadas, que vivem em áreas rurais e que têm em seu seio pessoas idosas.
É possível ainda ouvirmos “pia li” (espia ali), “vareia” (varia) e outras.
Casos de pronúncia apocopada é, de certo modo, comum, por exemplo: “refém” (referente), “hômi” (homem), “mué”, “mulé” ou “muié” (mulher), “Gabrié” (Gabriel), etc.
Casos de suarabacti (ou epêntese) ocorrem na mesma proporção, por exemplo: “empriquitado” (empiriquitado), “espritado” (espiritado), “intriçado” (icteriçado – de icterícia), “tramela” (taramela), “mó” (maior), “pruquê” ou “proquê” (por que ou porque), etc.
É importante salientar que ao distribuir as palavras por ordem alfabética, preocupei-me com a originalidade dos sinônimos, sendo fiel até mesmo nas frases que estão logo à frente. Tive o intuito de facilitar ao máximo a compreensão da essência das expressões. E espero ter conseguido.
Creio que aqui está reunido o essencial em termos de regionalismo constatado em Nísia Floresta, porém não quero dizer que esta coletânea seja um trabalho completo, pois em pesquisa não existe fim, ademais, como já disse, a linguagem é mutante, assim como toda a natureza.

PALAVRAS ...

Palavras não são meras palavras...
Todas têm peso, dimensão, mistério, segredo, enfim uma gama de considerações.
Por mais que possuam uma pluralidade de significados, não deixam de serem singulares...
Palavras encantam e desencantam, matam e ressuscitam... ferem, edificam, dignificam, libertam, calam, emocionam, incriminam, absolvem, infernizam, vislumbram, escandalizam, socializam, transparecem, mentem...
Palavra envelhecem e se extinguem...
Se esvaem no vento...
Ficam guardadas no tempo...
E renascem com novas acepções.
Outras são eternamente o que são.
Palavras se quebram, se dividem e se unem amanhã.
Palavras contam história...
Palavras viajam e se fazem compreendidas nos cinco continentes...
Quebram fronteiras e preconceitos.
Palavras, outras, coitadas, acanhadas vegetam em aldeias e lugares...
Palavras levam prece, elogio, conforto, felicidade...
Palavras levam amarguras...
Palavras que não foram ditas na hora certa podem causar danos irreparáveis.
Palavras, outras, por não terem sido ditas foram a solução.
Palavras, sábias, edificam; as torpes destroem.
Palavras que devem ser ditas todos os dias...
Palavras que precisam ser sepultadas.
Palavras que são como torpedos...
Palavras que deveriam se chamar perfume, flores, anjos, pássaros, céu...
Palavras que rejuvenescem...
Palavras que se tornam empoeiradas...
Palavras que se petrificam...
Palavras...
Que saem da boca dos homens.
Homens são palavras..
Palavras são homens...

Luís Carlos Freire
LETRA “A”
Arra! Que casa amundiçada a de dona Bebé! Andejo como sou, estive lá a convite da véia para comer um peixe na água grande e acabei me metendo numa arenga; foi uma arrumação da gota! Ela, muito avexada, o corpo que era um azedume só, gritando:
- Avia! Avia! Aprocheguem que tá tudo na mesa!
O filho mais velho, meio abilolado, gritava:
- Acunha!!!
E meteu o dedo no arroz de leite, deixando dona Bebé furiosa.
- Seu amostrado, não se astreva de novo!
Naquele aperreio, o bucho nas costas, eu já tava vendo as almas do meio dia quando ela nos chamou pra mesa. De repente o caçula, que também é meio azogado, gritou:
Agora deu, mamãe, tem uma lagartixa no feijão!
Na mesma hora tomei abuso de tudo! Dona Bebé ainda aprumou dizendo:
- Deixa de ser abestalhado, seu abiúdo, o que não mata, engorda!
E olhou pra mim com o olho troncho, arrematando:
Avalie se isso vai fazer mal, mulé!
De repente chegou a vizinha dos fundos gritando:
Dona Joaninha, tem um homem aí na frente pra falar com a senhora!
Naquele aperreio inventei logo uma astúcia:
- Desculpe dona Bebé , mas já vou chegando, é o homi da prestação e o dinheiro tá lá em casa!
- E sai de fininho.Ora! Eu lá ia ser abilolada para comer aquilo! Nem água!!!


ABALAIADO: cabelo desarrumado, cabeleira alta e despenteada (Vôte mulé, que cabelo abalaiado!)
ABANCAR: sentar, ficar à vontade (“Vamos abancar cumpadi, pode entrar!”).
ABANQUEI: sentei, fiquei à vontade (“Eu cheguei e logo me abanquei!”).
ABARDEIRO: aloprado (Esse cabra é abardeiro!)
ABESTADO: abestalhado (“Sai pra lá abestado!).
ABESTALHADO: azogado, lerdo, abobalhado, abigobé, leso; bobão; atrapalhado do juízo zureta (Esse abestalhado nunca acerta !)
ABIGOBÉ: leso, lerdo, abobalhado, abestalhado, zureta; atarantado do juízo (“Não chame aquele abigobé prá cá!”).
ABISCOITADO: doido, abigobé, maluco, abobalhado,atarantado do juízo; zureta; azogado, lerdo, abestalhado, zureta (“Tira esse abiscoitado da frente!”)
ABILOLADO: azogado, lerdo, abobalhado, abigobé, atarantado do juízo; maluco, abestalhado, arigó, zureta (Esse homem é um abilolado!)
ABIÚDO: metido, entrão, que se mete onde não é chamado (Tu foi de abiúda que é!).
ABOTICADO: arregalado; aberto ao extremo (“Que zói aboticado é este? Ta com medo?)
ABRIR: ceder, mudar de ideologia, aceitar uma opinião que antes discordava (“Se Fátima abrir para Wilma a gente não vota nela!”).
ABUFELAR: se apossar de algo, tomar para si (“É só ele vê isso que ele abufela!”).
ABUSADO: irritante, chato, caningado, que incomoda (Lá vem aquele abusado pra empalhar!).
ABUSO: chatice; irritação; caninga (“Deixe de irritação, memino rei!”).
ABRA DO ZÓI: fique atento; se ligue (“Tu abra do zói com esse cabra na sua casa!”).
ACAVALADO: que tem o pênis grande demais; aloprado (“As mulé diz que ele é acavalado!”).
ACAVALADO: desmesurado; descomunal, grande demais (“Que sapato acavalado é esse?”).
ACEIRANDO: aproximando-se com alguma intenção (“Eu não quero esse cabra lhe acerando!”).
ACEIRO: beirada, margem, acostamento (Menino, vá pelo aceiro da pista!; Papai passou o dia nos aceiro do rio!).
ACENTO: modos; compostura (“Tome acento de gente, seu cabra safado!”).
ACOCHÁR: apertar, arrochar (“Acocha a sela desse cavalo!”).
ACOLÁ: ali, quando se refere a um outro lugar (“Acolá tem abelha, cuidado!”).
ACOLONHADO: agrupado, junto, unido, misturado (Você só vive acolonhado com essa mundiça!) OBSERVAÇÃO: É mais usada para referir-se a pessoas. Não há relação com misturar bolo.
ACUNHA: vai atrás para pegar; segura (“Acunha o ladrão!)
ACUNHA: dá uns arrochos, ficar com alguém esporadicamente e sem compromisso (“Acunhei Belinha sábado na festa!”).
ACUNHA: aperta, arrocha, faz força (“Acunha esse parafuso!”).
ADONDE: aonde (“Adonde tu raí?!”).
AFOGUEADO: sapecado no fogo; mal passado (Menino, esse milho só ta afogueado vai lhe desandar a barriga!).
AFOGUEADO: aperreado; preocupado; nervoso (“João passou aqui tão afogueado hoje!”).
AFOLOSAR: ficar folote, frouxo; corrute (“Tu vai afolosar todinha a bolsa enchendo assim!”).
AFRACOU: enfraqueceu, perdeu a força (“Ele afracou quando deu de cara com ela!”).
AGORA: mas; porém; todavia (“O cargo tá vago, agora quero vê quem tem coragem de se candidatar!”).
AGORA DEU!: era só o que faltava!; agora pofe! (“Ela disse que eu cantei ela, agora deu!”).
AGORA POFE!: agora deu!; era só o que faltava! (“O banco acabou de fechar... agora pofe!)
AGORA SEJA: OBSERVAÇÃO: expressão usada para desdenhar, debochar e afins. Normalmente é usada com caras e bocas (“Quem pensar que essa bichinha é inocente, agora seja!”).
ÁGUA GRANDE: usa-se essa expressão para designar que o leite de côco, tradicionalmente usado para preparar várias comidas, foi substituído por água (“Vovô está adoentado e pediu que fizesse o peixe na água grande!”).
AGULHADA: dor muito fina; dor estranha (“Dotô, tô sentindo umas agulhada no pé da barriga!”).
ALARIDO: gritaria, coro de vozes desencontradas (“Que diabo de alarido é esse aí na cozinha?”).
ALCANÇAR: trazer; pegar (“Esse memino, alcance esse livro para mim!”).
ALISAR O COURO: dar uma surra, arrancar o couro, dar uma peia ou cipuada (“Vou já alisar o couro desse maluvido!).
ALMAS DO MEIO DIA: OBSERVAÇÃO: Trata-se de uma expressão que originou-se da superstição que diz que, ao meio dia em ponto as almas saem dos túmulos e caminham em procissão pela cidade. Como meio dia normalmente é hora de almoço, os nativos costumam dizer, quando sentem fome, que a fome é tanta que já estão vendo as almas do meio dia. É uma forma de dizer que a fome está insuportável (“Coitado de voinho, já tá vendo as alma do meio dia. Traga o cume dele!”).
ALMA DE VAQUEIRO: OBSERVAÇÃO: O significado é o mesmo de Alma do meio dia, porém não descobri a origem.
ALOPRADO: pessoa muito audaciosa, que não tem medo de nada, que surpreende as pessoas por suas atitudes, que costuma se exceder ou exagerar em suas reações, gestos ou palavras. (“Eu acho essa mulher muito aloprada!”).
ALOPRADO: homem que possui o órgão genital acima do normal. (“A mulherada reclama muito de João, pois dizem que ele é aloprado!”).
ALPERCATA: pragata; sandália de dedo (“Traz minha alpercata!”).
ALTEAR: aumentar o som (“Alteia aí essa música!”).
ALUMIAR: iluminar, clarear, trazer luz para um lugar. (“Alumia aqui a cozinha pra vê uma coisa!”).
ALUMIAR: trazer uma solução para uma situação. (“Só queria que Deus alumiasse minha cabeça para eu sair dessa!”).
AMARELO: pessoa guenza, tisga, esmilinguido; de cor pálida. (“Aquele amarelo é só se botando pra mim!”). OBS. Normalmente trata-se de deboche, embora, dependendo do contexto, pode-se dizer como brincadeira.
AMARELO-EMPALEMADO: pessoa de aparência doentia, que parece estar sem sangue. OBS. É usado também como deboche ou brincadeira, dependendo do contexto. De qualquer forma o complemento “empalemado” serve para reforçar o amarelo, ou seja, dizer que a pessoa está ainda pior.
AMARRADO: mão-de-vaca; sovina; pão duro (“Nem peça que ele é amarrado!”).
AMARRADO: concordado; deliberado (“Ficou amarrado que a última parcela eu desse no mês de agosto!”).
AMARRAR O BODE: ficar amuado (“Ela tá de bode amarrado desde que ele se foi!”).
AMARRA DE HOMEM: homenzarrão (“Dinho é uma amarra de homem!”).
AMBUANÇA: malquerença (“Ele não queria ir por causa de uma ambuança que tiveram na época da política!”). Maria de Lourdes Freire.
AMOJADO: doido; maluco; débil (“Não mexa com esse amojado!”).
AMOSTRADO: metido, gabola, pedante, orgulhoso, exibido.(“Aquele amostrado já está ali pra meu desgosto!”).
AMUADO: triste, aborrecido, cabisbaixo, de pá virada, tão assim. (“Painho ta tão amuado hoje, o que será?!”).
AMUADO: muito, demais, bastante. (“Esse veio tem um dinheiro amuado!” “Ta um forró amuado na rua!”). OBS.Trata-se de uma expressão usada para designar algo em grandes proporções.
AMUFAMBADO: que está tão bem guardado a ponto de não saber onde esteja; que está num amaranhado de coisas. (“A sua roupa é toda amufambada, seja mais organizado!”).
AMULENGADO: cansado, esgotado, mói de sola, arriado, derrubado. (“Fiquei amulengado depois que cisquei o quintal!”).
AMUNDIÇADO: pessoa portadora de hábitos, atitudes e palavreados mal educados. (“Aquela família dos Pilombo é uma mundiça do inferno, vôt!”).
AMUNHECAR: desequilibrar as pernas, ameaçar cair . (“tô aqui amunhecando de fome!”).
AMUNHECAR: cair (“Eu tentava levantar Juca, bêbado, e ele amunhecava!”).
AMUQUECADO: derrubado, amuado, jururu (“O que ele tem que só vive amuquecado?”).
ANCHO: convicto, com absoluta certeza (“Estou ancho de que essa mulher é do sertão!”).
ANDARELÁ: bater-perna, ganhar o mundo, andar muito (“Prá andarelá ela não pensa duas vezes!”).
ANDEJO: que anda muito, que vive batendo perna. (“Tu é muito andeja, ninguém te encontra em casa!”).
ANDO COM ELE PELO GOGÓ: es tou a ponto de perder a calma (“O cabra chegou e amarrou o bode aqui. Já ando com ele pelo gogó!”).
ANDOU VIROU E MEXEU: passeou muito; saiu pelo mundo (“Ele andou, virou e mexeu e deu aqui de novo!”).
ANEL DE CÔRO: frande; às de copas; ôio de porco; fiofó; furico; fundo; boga; roque mi clei; aro; roscófe (“Pegue pro seu anel de coro!”).
ANGU DE CAROÇO: coisa difícil de se resolver; situação complicada (“Eu que não me meto nesse angu de caroço!”).
ANJINHO BARROCO: homem de pênis pequeno (“Ela diz que prefere anjinho barroco que os acavalados!”).
ANTONTI: ante-onte (“Antonti ele teve aqui!”).
APAPAGAIADO: enfeitado excessivamente, marmota; timóti; adornado de mal gosto, chumbrega, chibunga, brega (“Aquela diretora é tão apapagaiada que reformou a escola, deixando apapagaiada como ela!).
APARANDO OS PEIDOS: bajulando; puxando o saco (“Meca só vive aparando os peidos de Rosa!”).
APARANDO OS PEIDOS: grudado; carne-e-unha; mala sem alça; na cola (“Menina pra viver aparando os peidos da outra, vôts!”).
APARELHO: vaso sanitário, bojo (“Vovô tá no aparelho obrando!”).
APERREIO: preocupação (“Estou tão aperriada, já é meia noite e Maria não chegou!).
APERREIO: incômodo, caninga (“Luizinho, deixe de aperreio com sua avó!”).
APOIS: pois, então, por acaso, por certo (“Apois só de ruim eu não vou no forró!” “Tu quebrou o som? apois conserte!” “Apois vocês pensam que ele é doido?”). OBS: Possui significados distintos ou parecidos – depende do contexto.
APOMBALHADO: zureta; azogado; doido; amojado (“Ele é apombalhado desde que nasceu!”).
APONTAR: surgir, aparecer (“João apontou no alto da ladeira!”).
APOQUENTADO: com raiva, cismado com alguma coisa, aborrecido, amuado, chateado (“Estou apoquentado hoje!” “Eles apoquentaram tanto o Pedro que ele plantou-lhe a mão!”).
APRAGATA: sandália de dedo (“Mãe, de minha apragata!”).
APRAGATADO: achatado, amassado (“Pisaram na lata, olha como ficou apragatada!”)
APROCHEGUE: chegue, aproxime-se, venha até aqui (“Todo mundo se aprochegue pra mesa!”).
APRUMADO: normal, correto, perfeito, certo (“Esse fulano não é muito aprumado do juízo!”).
ARARA: apelido do antigo PDS, hoje PFL; refere-se aos que são oposição aos bacuraus (“Hoje tem comício dos araras!”). OBS: Os araras têm como símbolo a cor vermelha.
ARATACA: maneira carinhosa de referir-se a uma casa pequena, simples e bem zelada. (“Entre na arataca da velha, mas não vá reparar!”).
ARENGA: briga, contenda, confusão (“Deixe de arenga aí, magote de bixiguento!”).
ARESIA: conversa fiada, conversa mole, blá-blá-blá, besteira (“Aquele doido só diz arezia!”).
ARGUÊRO: cisco no olho (“Não tô agüentando esse arguero no olho!”).
ARIADO: sem senso de localização, confuso (“Fulano se ariou em Natal!”).
ARIGÓ: abestalhado, abilolado, azogado, lerdo, tarantado; abobalhado, abigobé; atarantado (“Lá vem aquele arigó!).
ARISCO: solo arenoso, região cuja terra é constituída por areia muito grossa (“O arisco bem adubado dá cada inhame!”). OBS: Trata-se de um solo muito apreciado por ser fofo e que não cansa muito o trabalhador de enxada, mas necessita de muito adubo e de irrigação, pois não é típico de regiões que têm rios ou veios d’água à flor da terra.
ARISCO: pessoa ou animal que não se socializa ou que está sempre desconfiado (“Aquele cavalo é tão arisco quanto o fazendeiro quando vê gente!”).
ARISCOL: coisa, qualquer objeto ou pessoa (“Me dê aquele ariscol ali!” – Sr Valdemar – conjunto Jessé Freire).
ARO: legal, ótimo, bom; tampa (“O pessoal diz que aquele cara é o aro, e que a fazenda dele também!”).
ARO: ânus, boga, furico, roque mi clei, cu, anel de couro; ôio de porco; fiofó; frande; fundo; às de copas; roscófe (“Pegue pro seu aro!”).
ARRA!: urra! vixi! nossa! uia! credo! tibi! varei!(“Arra! Que homem alto!”) OBS. Lê-se como tivesse acento no primeiro “a”.
ARRANCA-RABO: discussão, cu-de-burro, confusão, briga (“Tá um arranca-rabo da piula na casa da Antonia!”).
ARRANCAR O COURO: alisar o couro, surra, lamborada, peia, simpuia, encorar, cipuada (“Eu tô pra arrancar o couro desse maluvido!”).
ARRE ÉGUA!: OBS. É uma interjeição que designa estranheza, espanto, raiva ou medo. É o mesmo que vôt! diabo é!
ARREGANHAR: abrir as pernas (“Menina, deixe de se arreganhar aí nesse sofá, olha que tem homem olhando!”).
ARREGANHOU: teve caso (“Ela arreganhou pros macho da rua toda!”).
ARREGANHANDO: rindo à toa; que só vive com brincadeiragem (“Deixe de viver se arreganhando menina cabida!”).
ARREPARE: repare; olhe; observe (“Arrepare que lapa de homem!”).
ARRETADO: muito bom, ótimo, coisa muito significativa (“Eita forró arretado!”).
ARRIADO: esgotado, muito cansado, mói de sola; amulengado; derrubado, só o pito, mói de sola (“Papai chegou da roça arriado!”).
ARRIBADA: expressão usada para referir-se às pessoas que só vivem mudando de casa ou cidade, como se fossem ciganas (“Aquele povo só vive de arribada!”).
ARRUMAÇÃO: invencionice, cavilação, apapagaiação (“Que arrumação é aquela de Preta, parece que não tem o que fazer!”).
ARROCHA: aperta, acunha (“Não arrocha as bananas!”)
ARROCHA: vai atrás para pegar, segura (“Arrocha esse boi ... depressa!”).
ARROCHADINHA: com calça muito apertada (“Tá tão arrochadinha hoje, prá onde tu rái?”).
ARROCHADINHA: metida abesta, exibida, orgulhosa (“Aquela é muito arrochadinha pro meu gosto!”).
ARROCHADO: corajoso; que não tem medo de nada; audacioso (“Eu sou cabra arrochado, não brinque comigo, não!”).
ARROCHA QUE ELA PEIDA: expressão chula utilizada em circunstâncias de brincadeira ou mangação. OBS. Ouvi depoimentos que surgiu de um caso que envolvia um casal e que realmente foi tal qual a frase explica. Pessoas mais afoitas gritam-na quando vêem casais muito juntinho no escuro.
ARROJO DE DENTE: quando a criança está com os sintomas da primeira dentição; incômodo provocado pelo nascimento dos dentes (“Não chore mulé, essas perebinha no bichinho é arrojo de dente!”).
ARROZ DE LEITE: prato típico da região, feito com arroz não parbolizado cozido no leite de coco e temperado à gosto. É servido como se fosse um arroz papa.
ARRUDIAR: dar a volta (“Arrudia pelos fundos que ela tá no quintal!”).
ARRUMA: consiga; viabilize (“Arruma um emprego para mim?”).
ARRUMA: pega; busca (“Arruma um copo d’água mó d’eu!”).
ÀS DE COPAS: ânus, boga, furico, roque mi clei, aro, cu, anel de couro; fiofó; frande; fundo; aro; roscófe (“Deu hemorróida no seu às de copas!”).
ASTREVA: atreva, tente (“Tu se astreva a fazer de novo que eu lhe toro o focinho!”).
ASTÚCIA: brincadeira, presepada, palhaçada (“Quando Vevé começa com as astúcias dela a gente bola de rir!”).
ASTÚCIA: que tem tino para desempenhar certas tarefas, que faz com desenvoltura (“Lupi é astucioso demais pra desenhar!”).
ASTÚCIA: arteirice de criança (“Vá vê as astúcia de Toinho, ele tá em cima do pé de cajá-manga!”).
ASTUCIOSO: designação para quem tem facilidade de se sair de situações constrangedoras ou difíceis, pessoas matreiras e muito espertas (“Quando lhe perguntaram pelo dinheiro roubado, ele foi tão astucioso na resposta que deu a impressão de que era um santo!”).
ATARANTADO: doido, abilolado, abigobé, leso; lesado; jumento; jirico; zureta; arigó; abobalhado (“Não mexa com esse que ele é meio atarantado do juízo!”)
ATIRADA: saliente; oferecida; cabida (“Ela é muito atirada, parece que é!”).
AUXÍLIO: Trata-se de uma expressão com sentido muito peculiar, típica dos católicos que durante a festa do (a) Padroeiro (a) saem pelas casas pedindo donativos (frango, carneiro, bezerro, arroz, etc) para a festa social, os quais são administrados em prol da mesma. (“Ô de casa, um auxílio pro padroeiro do Alto!”).
AVALIE: observe, analise, verifique, imagine (“Ele é muito gabola, avalie se fosse rico. Avalie só o jeito dele ali no meio dos barão, ó...!”).
AVE-MARIA TREIS VEIS: é um tipo de “cruz-credo” reforçado (“Ave-Maria treis veis, vira essa boca prá lá que eu não quero ver aquele cabra nem pintado a ouro!”). OBS: normalmente fala-se isso dando três pancadinhas, de punho cerrado, em madeira. Trata-se de superstição.
AVEXADO: aperreado, apressado, afogueado (“Deixem de ser aperreado, esperem o café!”).
AVIA: cuida, corra, venha logo, anda, apresse-se (“Avia que o ônibus ta pasdsando!”).
AVUADO: azogado, lerdo, abestalhado, meio esquecido das coisas (“Papai ta tão avuado hoje, coitado!”).
AZEDUME: nhaca, catinga, fedor, cerôte, suor fedido (“Bélico só vive nesse azedume, faz vergonha!”).
AZEITONA: Jamelão, fruta roxa (quase preta) semelhante a zeitona em conserva. OBS: Ninguém costuma chamá-la por seu nome original, que é jamelão, embora distingam a “azeitona” (fruta) da azeitona (fruto da oliveira).
AZOGADO: confuso, ariado, abestalhado, de raciocínio lento (“Menina, tu ta azogada hoje é?”).
AZOGUE: imã, qualquer objeto magnetizado (“Caiu o azogue da caixa de som”).
AZOGUE: pessoa que está sempre acompanhada com outra, que não larga do pé; na cola; muito junto; carne e unha; grudado; pegajoso (“Esse menino é um azogue da mulesta com o outro!”).
AZUL: não tou nem aí; deixe isso pra lá; não dê atenção. (“Eles estão brigando? Azul pra eles!”). OBS: Trata-se de uma palavra típica de dona Raimunda do Pirão Bem Mole, da comunidade do Porto, sendo conhecida apenas por seus filhos e netos.


LETRA “B”


Quando Tintin viu os brotes, os bejus e os bolos-pretos da bodega, botou cada botica de olho, pois era cada bichão!
Sua mulher Janoca botou pra torar, comendo feito beia; nem parecia que tava com o bucho na boca.
Tintin, preocupado, disse:
- Bixiguenta, assim você morre!
- Vá pra baixa da égua, seu baiacu! Pior é tú que bebe que só a cachorra, vá pitá seu brejeiro!
A dona da bodega atalhou:
- Tais vendo? É bem pregado prá você, pois não se faz isso com mulher buchuda!

BABÃO: puxa-saco; paparicador (“Esse babão não larga do pé do filho do prefeito!”).
BABOSEIRA: aresia; palavreado sem futuro (“deixa de baboseira menino besta!”).
BACURAU: apelido do antigo PMDB; opositores dos araras, os quais usam a cor verde como símbolo; partido dos Alves (“A cidadã hoja ta verde de bacurau!”).
BADALO: gente que fala muito, qualquer tipo de barulho (“Maria boca de badalo, deixe de badalo aí na cozinha!”).
BAGANA: alimento fraco e sem muita sustança, comida muito leve e normalmente usada como lanche improvisado, tipo pipoca, sanduíche, iogurte, refrigerante, doces, etc. (“Paulo tá tisgo de tanto comer bagana!”).
BAGUIO: coisa velha e estragada, o que não presta mais para ser usado; trambelho; bascuio; burundanga (Esse sapato tá só o baguio!”).
BAIA: desregrada, à vontade, sem critério; com a mulincha; empolado; com fartura; franco (“Você colocou a comida na baia, agora não reclame!”). CURIOSIDADE: provavelmente originou-se de “beia” (“tem como beia”), que designa demais, muito.
BAIA: no cotidiano, no dia-a-dia (“Coloca toda a roupa na baia e despois fica reclamando!”).
BAIACU: pessoa gorda; bucho de lama; bucho de tintin (“João ta todinho um baiacu, nem parece aquele meninão esguio que conheci!”).
BAIÃO DE DOIS: feijão cozido juntamente com arroz e tempero à gosto. OBS: Poucos nativos ainda consomem esse prato.
BAIXA DA ÉGUA: essa expressão tem sentido de lugar emprestável ou terrível como o inferno, ou muito distante a ponto de não saber onde. (“Vá prá baixa da égua, seu reiado!” “Esse homem só vive na baixa da égua!”). OBS. Normalmente é usada como xingamento. É como se dissesse: “Vá pro inferno”).
BALADEIRA: estilingue, brinquedo feito com pequena forquilha de galho, borracha de câmara de ar (liga) amarrada nas duas pontas e um pedaço de couro, o qual serve para arremessar pedra (“Esse menino só vive com baladeira na mão, tomara que o pessoal do IBAMA veja!”). OBS. Podemos dizer que é uma arma infantil.
BALAIO DE GATO: desarrumação, desorganização (“Que balaio de gato da gota está esse quarto, vôt!”).
BALAIO DE GATO: problema, confusão (“Tá o maior balaio de gato entre eles!”)
BALDAME: alicerce (“Vou usar toda essa metralha para o meu baldame”).
BAMBELÔ: antiga dança folclórica que teve o seu apogeu na extinta Festa dos Pescadores, na comunidade do Porto.
BANDA: pedaço; uma parte (“Dá uma banda dessa melancia mó d’eu!).
BANDA DE LATA: muito, em demasia, em excesso, demais (“Tem manga prá banda lata!”).
BANGUÊ: engenho de açucar movido à tração animal (“No início aqui era tudo bangüê!”) OBS. Expessão dita pelo Sr. Humberto Paiva, do Engenho Descanso.
BARRER: varrer (“Vá barrê os oitão!”). OBS. Arcaísmo que demonstra uma nítida influência espanhola.
BARROADA: batida, pancada, esbarrão, trombada (“O carro dele deu uma barroada no poste!”).
BARROCA: pequena cavidade na buchecha, a qual torna mais visível quando a pessoa está sorrindo; buraquinho na face (“É linda a barroquinha daquela menina!”).
BASCUIO: coisa velha, lixo, burundanga, trambelho; baguio; coisa sem valor (“Esse carro tá umbascuio só!”).
BASSOURA: vassoura OBS. Considerar a mesma justificativa de “barrer”.
BATENDO PERNA: no mundo; andarelando; fora de casa; vadiando; na rua (“Tu só vive batendo perna, sua cabrita andeja!”).
BATENTE: trabalho; serviço (“Eu to num batente danado lá na praia!”).
BATER: ir, dirigir-se a determinado lugar (“Quando eu soube do assunto bati na casa dela!”).
BATER: queimar, fundir (“Você é doido de subir na quinta, vai bater o motor!”).
BATER A CAÇULETA: morrer (“Con’eu bater a caçuleta não quero fulô nem vela!”).
BATER E VALER: eficaz, eficiente, certeiro, que dá bom resultado (“Fale com Vilma Maia que é bater e valer!”).
BATERIA: espécie de prateleira redonda, alta, com vários ganchos, feita de ferro vazado usada para pendurar alumínios (“Vovó tem uma bateria tão antiga!”).
BATEU AS BOTAS: morreu; faleceu (“O coroné bateu as botas!”).
BATEU FOFO: descumpriu um acordo; deu pra trás; desfez a palavra (“Aquele covarde prometeu e depois bateu fofo!”).
BATIDO: carão, esporro, dar uma esculhambação, chamar a atenção de uma pessoa em caráter de correção (“Papai me deu um batido por causa daquele cabido!”).
BEBEU ÁGUA DE CHOCALHO: que tá com a matraca; que fala demais; papagaio (“Tu hoje bebeu água de chocalho!”).
BEBE QUE SÓ A CACHORRA: que é chegado numa cachaça, que se embriaga sempre (“O bichinho é tão novo mas bebe que só a cachorra!”).
BEIA: exagerado, muito, demais, em demasia (“Fulano mente que só a beia!”).
BEJU: iguaria típica feita com polvilho ou mandioca mole assada sobre uma frigideira, placa de ferro ou pedra. Tem formato arredondado. (“Os bejus de dona Joaninha são uma delícia!”).
BEM FEITO: bem pregado; merecido, acho é bom, teve o que mereceu (“Bem feito o fora que ele levou!”).
BEM MUITO: bastante, quantidade exagerada, beia ((“Comi bem muito só prá não deixar prá ela!”).
BEM PREGADO: merecido, bem feito, acho é bom, teve o que merecia (“Bem pregado que ele perdeu a eleição!”).
BENZA DEUS: benza o Deus (“Benza Deus que menina bonita!”). OBS. Interjeição que designa admiração.
BERADEIRO: matuto, caipira, muito tímido (“Cabra beradeiro... Assim não casa nunca!”).
BERÉU: prostíbulo, casa de prostituição, zona (“Cabra de peia, só vive no beréu!”).
BERIMBELO: adornos, enfeites (“Mulé prá gostá de berimbelo no pescoço é essa Isabé!”).
BERIMBELO: qualquer coisa, cujo nome real não foi lembrado na hora (“Prá levar esses meus berimbelos (mudança) precisa de um caminhão!”).
BESTA: bobo, abestalhado, idiota (“Deixa esse besta prá lá, é perda de tempo ouvi-lo!”).
BESTA: orgulhoso, metido, metido, rei da cocada preta, quer ser o cu da porca (“Ficou besta depois que comprou o carro novo!”).
BESTA: égua (“Essa besta é boa no trote!”).
BESTANDO: fazendo de bobo (“Ela me deixou bestando e chegou de noite!”).
BICA: trata-se de um estabelecimento público, construído pela Prefeitura, o qual abriga um recinto utilizado para banho que possui três canos grossos, permitindo o escoamento da água proveniente de uma caixa que a recebe de um olheiro próximo. É o lazer de final de semana da maioria das pessoas mais humildes.Logo ao lado ficam as lavanderias, as quais só funcionam durante os dias úteis da semana.
BICADA: gole de bebidfa alcoólica (“Aquela foi a última bicada dele!”).
BICHÃO: pessoa poderosa e que tem influência sobre algo, pistolão, peixada (“Ele só entrou na aeronáutica porque o pai dele foi empregado de confiança de um bichão lá de dentro!”).
BICHÃO: algo grande, enorme (“Eu pensei que ele era uma coisinha de nada, mas quando chegou: que bichão!”).
BICHÃO: pessoa muito atraente, filé, sensual (“A filha de Nozin tá um bichão!”).
BICHO: maioral; bonzão; tampa de furico (“Eu sou o bicho, vai encarar?!”).
BICHO TRISTE: feio demais, horrível, assustador (“Quem é esse bicho triste que chegou de São Paulo!”). OBS: A expressão “triste” não está no sentido etimológico.
BIGOBÉ: abigobel, abestalhado, abilolado, meio doido; abigobé; zureta; atarantado (“Vá prá lá bigobé chato!”). Obs. É o mesmo que abigobé.
BILAU: pênis, bilola, pinta, rola, peia, piroca (“Ele operou do bilau!”).
BILOLA: pênis, piroca, peia,, bilau (“Menino, vá cobrir essa bilola!”) OBS. É mais usada para criança.
BIQUEIRA: que come pouco (“Painho sempre foi biqueira prá comer!”).
BISACO: mochila; bolsa (“Bote tudo no bisaco e vamos!”).
BISONHO: feio e esquisito (“Vôts! Que menino bisonho!”).
BITOCA: beijo, selinho, forma carinhosa de beijar (“Dê uma bitoca na mainha!”).
BITOLA: pontaria precisa, acerto certeiro (“Por pouco eu acertava na bitola!”).
BIXIGA: gota serena, merda, porra, droga, chato (“Isso é uma bixiga mesmo, quebrou tudo!”).
BIXIGA LIXA: tem o mesmo sentido de bixiga. (“Sai prá lá bixiga lixa”). OBS: A “lixa” é apenas um complemento para reforçar o xingamento.
BIXIGA TABOCA: tem o mesmo sentido de bixiga e bixiga lixa, porém é mais usada quando se quer reforçar ainda mais o xingamento. (“Bixiga taboca! O pneu furou!”).
BIXIGUENTO: nojento, chato, incômodo (“Sua bixiguenta, eu lhe quebro a cara!”).
BIXIGUENTO: expressão usada também para brincar, quando se trata de uma pessoa muito íntima (“Bixiguento, onde você andou que tanto cabelo criou!”).
BIZÚ: fofoca (“me passa o bizú da festa!”).
BOA: grande; considerável (“Daqui prá lá é uma tirada boa!”).
BOA TODA: de primeira, de ponta, de qualidade (“Aquela casa é boa toda!”).
BOA TODA: sensual, muito atraente, filé, tesuda (“Mimi ta boa toda!”).
BOCA DE SINO: penico, urinol, capitão, mijadô (“Cadê o meu boca de sino que estava debaixo da cama!”).
BOCA RASGADA: que chora demais (“Vai pegar aquele menino da bosca rasgada!”).
BOCHECHA DE ANGU: trombudo, entufado, cara feia, chateado (“Hoje ela tá toda bochecha de angu!”).
BOCOIÓ: matuto, bestão, bobo; leso; abigobé; zureta; abilolado (“Esse bocoió não muda mesmo!”).
BODE: conquistador, garanhão, namorador (“Esse cara é bode demais para mim!”).
BODEGA: pequena venda, bar (“Chegou cabumba na bodega do rio!”).
BOFE: homem sustentado por homossexual, pessoa do sexo masculino que se prostitui em troca de bens materiais (“Dizem que fulano é bofe daquele cara!”).
BOFETE: tapa, murro, tabefe (“Pare, senão dou-lhe um bofete, seu leso!”).
BOGA: ânus, roque mi clei, às de copas; ôio de porco; furico; fundo; frande; fiofó; roscófe (“Deram um chute no boga de Quéu!”).
BOI: menstruação (“Tô de boi hoje!”).
BOI-DE-FOGO: confusão, encrenca, briga, cu-de-burro, cumbú (“Se ela não me pagar eu faço um boi-de-fogo da hora!”).
BOIOLA: fresco, gay, baitola (“Hoje houve passeata dos baitola em Natal!”).
BOJO: vaso sanitário, aparelho(“Esse menino só vive obrando na parede do bojo!”).
BOLA DE RIR: ri muito, acha muita graça; se acaba de dar risada (“A gente bola de rir com ela!”).
BOLÃO: pequena vaquejada praticada em quintal ou na zona rural, em caráter de brincadeira, sem prêmio.
BOLO: dar tapa na palma da mão de criança em sinal de castigo (“Dei tanto bolo na mão desse menino buchudo !”) OBS: Antigamente o bolo era dado com a palmatória: um instrumento de madeira semelhante a uma escumadeira, cheia de buraquinhos, os quais sugam a pele da mão ao receber a batida, provocando dor. Por muitos anos foi usado nas escolas.
BOLO PRETO: iguaria feita com rapadura, farinha de trigo, cravo, canela e erva doce, onde tudo é misturado e levado ao forno para assar.
BOM QUE SÓ: bom demais, ótimo, maravilhoso, (“O passeio foi bom que só!”).
BONITEOTÓ: bonito (“Eu sou boniteotó!”). OBS. Provêm da antiga cartilha do ABC, a qual ensinava o alfabeto soletrando.
BONITINHA: atrevida, metida, exibida (“Ei bonitinha, o que você quer aí?”). OBS: Nesse caso não há relação alguma com beleza.
BOQUETE: ânus, cu, às de copas, roque mi clei, furico; frande; fundo; fiofó (Maria tá sentindo um cumichão no boquete!”).
BOQUETE: sexo oral feito no homem (“Lá vai Rita boquete!”).
BORA LÍ: embora alí, vamos alí (“Bora lí comigo!”)
BORRA: substância que após estar suspensa num líquido, acumula-se no fundo da vasilha (“Fui tomar café da vovó e só encontrei a borra!”).
BORRACHA: merda, porra, droga, chato (“Isso é uma borracha! Furei meu dedo!” – Terezinha do cartório).
BORRACHA: esperto, inteligente, desenrolado (“Esse menino é borracha, viu!”).
BOTICA DE OLHO: olhos muito abertos, olhos arregalados típicos de pessoa assustada (“Pedrinho chegou com cada botica de olho que logo desconfiei!”).
BOTOU AREIA: dificultou, atrapalhou, fez com que algo desse errado, desejou o fracasso (“Botaram areia na candidatura de Henrique. De repente o homem apareceu com conta pelo mundo todo!”).
BOTOU PRÁ TORAR: fez bem feito, realizou algo com muita perfeição, investiu muito (“Eles botaram prá torar na Festa do Boi neste ano!”).
BOTOU PRÁ TORAR: deu um carão, chamou a atenção em caráter de correção (“Quando ela soube que foi ele botou prá torar. Chega deu pena do coitado!”).
BOTOU QUENTE: contestou, protestou, chamou a atenção, impôs algo com muita autoridade (“Pedro chegou de meia noite e sua mulher botou quente!”).
BOSSA: estilo, modo, jeito, postura (“Olha a bossa de Zezão!”). OBS: Pode ser usado tanto para expressar antipatia quanto para achar engraçado.
BOSSAL: amostrado, exibido, metido, gabola; pedante (“Esse menino que chegou do Rio é tão bossal!”).
BOZÓ: dado, jogo de dado (“Mainha, vou jogar bozó com Juninho!”).
BRECHANDO: olhando pela brecha, curiando alguém pela fechadura da porta ou buraco de parede (“Zé de Donga tem fama de brechador!”). OBS: Normalmente é mais usada para referir-se a homens, inclusive são muitos os conhecidos por esse hábito.
BREDO: planta comestível que dá no mato; espécie de hortaliça silvestre. OBS: Atualmente é raramente consumida, mas no passado era o prato preferido de muitos nativos, seja em salada ou refogada com peixe (durante a Semana Santa) e camarão.
BREGUESSO: coisa velha, coisa quebrada, quinquilharia, munturo, trambelho; uruvaio; burundanga (“Joga fora esse breguesso, seu lixeiro!”).
BREJEIRO: cigarro caseiro feito com fumo forte enrolado com palha de milho ou papel; cigarro grande e grosseiro (“Tem alguém fumando brejeiro por perto, tá sentindo a catinga!”).
BREJEIRO: desajeitado; amatutado (“De onde tuvem tão brejeiro!”).
BREU: escuridão total (“Tá um breu na rua!”).
BRIGA DE FOICE NO ESCURO: feio demais; tribufú (“Quem é essa briga de foice no escuro que chegou?!”).
BRINCANDO: com duas risadas; com facilidade; com desenvoltura; que faz algo com grande desenvoltura (“Eu faço rede de pesca brincando!”).
BROA: bolacha de leite (“Adoro broa!”).
BROCAR MATO: cortar mato com foice ou facão (“Vovô tá brocando mato na levada! – Pedro Araújo - Porto).
BROCHA: pincel grande de pêlos compridos, usado para caiação de meio-fios e muros. OBS: Normalmente a base, onde ficam fixados os pêlos, tem o formato de um retângulo (“Lave as brocha depois de usar!”).
BROCHE: acessório feminino usado para prender ou enfeitar os cabelos, presilha (“O broche machucou minha nuca!”).OBS: Não há relação com o broche que se prende na roupa na altura do peito.
BRONHA: punheta, masturbação masculina (“Esse menino adora uma bronha!”).
BROTE: bolacha de leite em formato grande. (“Se conforme que é um brote prá cada um, magote de comilão!”). OBS: É bem mais duro e de cor clara, o contrário da soda que é macia e escura.
BROTE: tipo de planta ornamental, cujas espécies variam de cor (“Mulé me dê uma muda desse brote avermelhado!”).
BRUACA: mochila, bolsa, saco de carregar qualquer coisa (“Mainha minha bruaca tá toda rombuda!”).
BRUACA: mulher feia, baranga; estrupício (“Vots! Esse homem é casado com essa bruaca, cruz credo!”).
BRUGUELO: menino pequeno (“Eu só saio daqui com os meu bruguelo!”).
BUBU: chupeta (“Os meu eu nunca dei bubu!”).
BUCHO: barriga; pança (“Hoje eu encho o bucho!”).
BUCHO DE LAMA: barriga muito grande e flácida (“Aquele bucho de lama como feito beia!”).
BUCHO DE TINTIN: barriga muito grande, arredondada e dura, semelhante a um pote d’água (“Depois que Tico casou virou um bucho de lama, faz medo!”).
BUCHO DE TINTIN OVADO: barriga em piores condições de que a bucho de tintin (“Arra! Quem é aquele bucho de tintin ovado!”).
BUCHO INCHADO: empachado, com o estômago excessivamente cheio (“Mainha ta com o bucho inçado!”).
BUCHO NA BOCA: nos últimos meses de gravidez; barriga muito grande no final da gestação (“Ritinha tá com o bucho na boca, acho que não passa de amanhã!”).
BUCHO QUEBRADO: barriga grande demais (“ Quem é esse bucho quebrado que chegou aí?”).
BUEIRA: canaleta sob estradas para escoamento de águas pluviais. (“O carro caiu na bueira!”).OBS. O substantivo masculino “bueiro” assume forma feminina devido o regionalismo.
BUFA: peido, gases intestinais “(Ô bufa podre da mulesta! Quem comeu raposa morta?”).
BUFENTO: que descoloriu-se devido o excesso de uso, coisa desgastada (“Jogue fora essa camisa, tá tão bufenta!”).
BUFENTO: desmilinguido; com ares de pessoa desgastada; empalemado (“Claudinha tá namorando esse menino bufento?”).
BULIÇOSO: que bole em tudo, arteiro (“Vot! Que menino buliçoso esse seu!”).
BUNDACANASTRA: cambalhota (“Beba se machucou brincando de bundacanastra!”).
BURRA DE PADRE: mula sem cabeça; mulher que namora padre. (“Dizem que no Porto tem uma burra de padre!”). OBS: Trata-se de uma lenda muito presente no município, que diz que mulher que tem relacionamento amoroso com padre se transforma numa mula sem cabeça, e sai após a meia noite assustando as pessoas que se aventuram pela madrugada.
BURRINHO: garrafa pequena com cachaça (“Me dê aí um burrinho do bom!”).
BURRO MULO: cruzamento de burra com cavalo. OBS: É um animal estéril.
BURUNDANGA: uma porção de coisa velha, munturo, quinquilharia, uruvaio; trambelho; qualquer coisa (“Que tanta burundanga é essa aí nesse saco?”).
BUTUCA: espreita; de olho; observando (“Fica de butuca que tu pega ela com a boca na botija!”).
BUZINANDO NOS OUVIDOS: gritando; fazendo barulho (“Menino!Deixe de ficar buzinando nos ouvidos. Se aquiete!”).
BUZINANDO NOS OUVIDOS: batendo na mesma tecla; cantiga de grilo; repetindo uma coisa o tempo todo (“Eu não aguento mais ele buzinando nos ouvidos isso!”).

LETRA “C”

- Cadê você, rapaz? Chegue que vou lhe contar um segredo! Disse Duda
tomando uma chamada com Zé Piaba. – A filha de Donana da Moita tá internada. Dizem que é coisa botada. Tá um celebro da gota na casa dela!
- Também ela quer ser o cú da porca!
- A véia tá cascaviando para ver quem fez.
- Con’eu morava no Retiro me meti num coloio de catimbozeiro prá nunca
mais Saí cuspindo bala! Engraçado, a véia é católica, cumé que bota crença nisso?!
- Hômi, esse povo é católico de pau de andor! Aquela véia é cavilosa e
cheia de catrevagem.
De repente chega Deca Preá, gritando:
- Gente, sabe qual é a doença de Zumira? É um bucho mesmo! Ela andou
chafurdando com Jia Pai de Santo. A véia Nana, coitada, quando levou a cipuada ficou cheia de perna e com cara de Amélia!
- Vixi! Com aquele cabra de peia, e ainda por cima cú de cana. Coitada da
pobre, tá reiada!
- Por isso que a cabida tava tão cevada!
Nesse momento todos caem na gargalhada.

CABA: cabra; homem; rapaz (“Diz aí, caba rei!”).
CABA RÉI: pessoa safada, homem emprestável (“Eu não quero esse caba réi em minha casa, não invente de teimar!”).
CABA RÉI: cara, companheiro, camarada (“Diz aí caba réi, quando é que a gente vai de novo?”). OBS. Como se percebe, a utilização de tal expressão depende do contexto.
CABEÇA DE GALO: pirão muito ralo feito com farinha de mandioca, pimenta do reino, ovo, coentro, sal, tomate, cebola e pimentão. OBS: É recomendado para restabelecer pessoas adoentadas e fracas.
CABEÇA DE TABEFE: cabeça grande, feia ou estranha; cabeção (“Vote! Que cara de tabefe, parece um ET!”).
CABIDO: indiscreto, metido, entrão; que se mete onde não é chamado (“Fale baixo que aquele menino cabido tá chegando!”).
CABIDO: enxerido, que possui segundas intenções, galanteador (“Você sabe que ele é cabido pro lado de mulher, não invente de dar conversa!”).
CABIMENTO: enxerimento, ousadia, ato de se insinuar no sentido de dar em cima de alguém com galanteio (“Dizem que ele solta muito cabimento para as meninas!”).
CABORÉ: homem feio e esquisito (“Eu que não quero esse caboré!”).
CABORÉ: OBS. Maneira carinhosa de referir-se a alguém íntimo (“Diz aí caboré, o que tú qué?”).
CABUMBA: cachaça muito forte e que não passou por processos de destilação, pinga grosseira (“Bote uma cabumba do véi Domício mó deu bebê!”).
CABRA DE PEIA: homem bom, homem de garra (“Pedro é cabra de peia, agora você vai ver a cobra fumar!”).
CABRUNCO: coisa ruim, mal, diabo (“Sai prá lá filho do cabrunco!”).
CAÇAR: procurar (“Caça o brinquedo desse menino por seu favô!”).
CACARECO: burundanda; quinquilharia; coisas sem valor (“Que tanto cacareco é esse nesse quarto!”).
CACETEIRO: cara muito legal, benquisto, camarada, amigão, tampa de furico (“Aquele cabra é caceteiro todo!”).
CACETEIRO: garanhão, que fica com muitas mulheres, gostosão (“João é caceteiro, não vá na onda dele!”).
CACHIBREMA: diz-se quando o homem está tomado por cachaça, chifre e problema (“João está numa cachimbrema danada!). OBS: Como muitos pronunciam “pobrema”, o final do vocábulo faz jus a pronúncia. Trata-se de uma palavra que aparentemente originou-se em terras nisiaflorestenses.
CACHORRA DA MULESTA: OBS: trata-se de um xingamento usado por pessoas já de uma certa idade, embora os filhos também usam (“Essa cahorra da mulesta quebrou!”). CURIOSIDADE: tanto faz dizer “cachorra da mulesta” quanto “mulesta dos cachorro”.
CACHORRO: raposa, feijão e farinha misturado e espremido na mão, formando uma espécie de bolinho (“Comi tanto cachorro no almoço que empachei!”). OBS: É uma expressão menos usada. Fala-se mais “raposa”.
CACIMBÃO: poço d’água, buraco profundo cavado para verter água (“Zé Carão fez um cacimbão bom que só na moita!” – D. Joaninha Bajal – rua da Bica).
CACIMBÃO: maneira pejorativa de referir-se a mulher que costuma ficar com muitos homens (“Aquela Maria cacimbão ficou com o meu marido!”).
CAÇOÁ: cesto de cipó normalmente utilizado no lombo dos jumentos para transportar o fruto do trabalho do homem (“Con’eu era pequena papai me levava prá praia dentro de um caçoá. Uma vez eu caí, é por isso que minhas costa é torta!”).
CAÇOAR: mangar, fazer pilhéria; debochar (“Deixe de caçoar das meninas!”).
CAÇOTE: espécie de rã pequena, não comestível (“Ta cheio de caçote debaixo da pia!”).
CAÇOTA: o mesmo que caçote.
CADÊ VOCÊ RAPAZ?: frase muito utilizada entre amigos. É como se dissesse: “onde é que você estava?” ou “por que tu não foi?”. OBS: Trata-se de uma expressão curiosa, pois mesmo vendo a pessoa próxima é dito: “cadê você?”, como se não estivesse vendo a pessoa.
CADEIRA: quadris, quartos (“To com as cadeira que não me agüento!”).
CAFIFE: piolho de galinha e certas aves (“Não entre no galinheiro que tá cheio de cafife!”).
CAGADO E CUSPIDO: cópia fié; igualzinho; dois par de jarro (“Ele é cagado e cuspido o pai!”).
CAGÃO: pessoa guiada pelos outros, sem voz ativa; besta; (“Aquele cagão só vai se a mulé deixa!”).
CAGÃO: medroso (“Aquele cagão não dorme sozinho nunca com essa história de malassombro!”).
CAGA-LONA: que viaja na carroceria (“Eu que não vou de caga-lona!”).
CAÍCO: peixe muito pequeno e seco, muito salgado, o qual é vendido nas bodegas (“Comi tanto caíco que já bebi um litro d’água!’). Obs. É muito apreciado no jantar de pessoas simples, acompanhado com macaxeira, batata ou inhame.
CAIXA BOZÓ: expressão usada quando a pessoa está com raiva ou chateada. (“Quando ela chegou eu dei a porra e mandei ela prá caixa bozó!”). OBS: É um xingamento. Como se dissesse: vá catar lata, vá prá baixa da égua, vá pro inferno; porra, merda.
CAIXÃO: problema, dificuldade, tarefa complicada (“Colocar tudo aquilo em ordem é caixão, viu!”).
CAIXÃO: tiro e queda, bateu-valeu, que vale a pena, que o resultado é ideal, (“Faça o lambedor de cupim que o bicho é caixão!”).
CAIXÃO: muito bom, legal, ótimo, maravilhoso, desenrolado, eficiente (“Esse Papa João Paulo é caixão, viu!”).
CAIXÃO: exigente a ponto de ser um pouco chato (“Não entregue esse trabalho feio assim, pois esse professor é caixão, ele vai lhe dar zero”).
CAIXÃO E VELA PRETA: pessoa que não há quem possa com ela devido às suas astúcias, artimanhas; que tem jeito prá tudo; que se sai bem de um problema constrangedor ou difícil (“Se esse dotô não resolver, procure o dotô Dióge. O cabra é caixão e vela preta!”).
CAIXÂO E VELA PRETA: qualquer coisa ou pessoa muito boa; de primeira; de qualidade, muito eficiente (“O carro dele depois que chegou da oficina é caixão e vela preta!”).
CAIXA-PREGO: lugar distante OBS. É um xingamento do tipo “vá para o inferno!”.
CALABRIAR: sujar; melar; manchar (“Ele calabriou a casa toda com graxa!”).
CALAMBICA: iguaria feita com jerimum cozido e amassado com leite, feito papa (“Luís, coma essa calambica!”).
CALÃO: nome dados às duas varas laterais que sustentam a rede de pesca (de arrasto). (“Ele não segurou o calão direito e os peixes escaparam!”).
CALIBRE: estilo, tipo, top (“Não se vê muita gente do calibre do seu Pedro. Que homem trabalhador!”).
CALIFOM: corpete; sutiã. OBS. Expressão muito antiga, mas ainda usada por raras famílias. O califom, podemos entender como pai do corpete e avô do sutiã. Segundo a professora mais idosa do município, D. Maria do Carmo Bezerra Dias, de 97 anos (ainda viva) o califom original é feito de tecido de algodão macio, cujas tiras usadas para amarrar ficavam embutidas na própria peça, semelhante a parte superior de um biquine, se bem que de temanho muito maior.
CALUNGA: desenho mal feito de pessoas ou animais, garatujas (“Com essas suas calungas você nunca será um artista).
CALVÃO: carvão (“Bote mais calvão mulé!”).
CAMBADA: magote de malandros, grupo de cabras safados (“Essa cambada de vagabundo só vive na minha porta!”).
CAMBADO: troncho, coxo, de andar desajeitado; mocorongo (“Chico cambado mora na moita”).
CAMBETA: o mesmo que cambado
CAMBITO: perna muito fina (“Olha os cambito dela, vot!”).
CAMBURÃO: panelão industrial, típico de escolas, restaurantes e ambientes que preparam grandes quantidades de comida (“Vôts! Quando fulano entregou a prefeitura, levaram até os caburões daquela escola!”).
CAMISEIRO: guarda-roupa, móvel de quarto (“O gato tá atrás do camiseiro”).
CAMPEIRA: espaçosa, assobradada, ampla (“A gente faz o ensaio lá porque a casa dela é campeira, boa que só!” – Maria da Apresentação – Campo de Santana). OBS: É usado apenas para referir-se a ambientes e lugares, não se aplica a objetos.
CANA: cachaça (“Bote uma de cana!”).
CANCHA: garra, boa qualidade, raça (“Garrincha foi um jogador que tinha cancha. Loureço adora futebó, mai nu tem cancha política, o póbi!”).
CANDIÊRO: lampião caseiro movido a querosene (“Lá eles ainda usam candiêro!”).
CANGUEIRO: motorista que dirige mal (“Eu que não ando com esse cangueiro!”).
CANHÃO: pequenos pontos pretos que nascem na pele das aves – na realidade é a ponta da pena que está se desenvolvendo (“Ainda tá cheio de canhão na galinha, bote no fogo prá tirar os penugens!”).
CANINGA: incômodo, chatice, perturbação (“Lá ren aquela caningada módi tirá u sussego da rente”!).
CANJERÊ: ambiente bagunçado, lugar cheio de farra (“Tá um canjerê a casa de Doda!”).
CANJERÊ: zona, prostíbulo (“O marido de Zilda só vive no canjerê de São José!”).
CANJICA: comida feita de milho moído (“Vô adora canjica!”).
CANJICÃO: iguaria feita de farinha de milho, leite, açucar, leite de coco e especiarias, a qual é servida no ponto bem mais duro que a canjica (“Leve uma quartinha de canjicão prá vovó!”).
CANTAR DE GALO: ser o dono do pedaço, impor-se como pessoa que dá as ordens e dita as regras a serem obedecidas, mandão (“Aqui quem canta de galo sou eu!”).
CANTIGA DE GRILO: repetir várias vezes a mesma palavra ou frase, estar sempre falando a mesma coisa (“Você diz que faz, mas eu te conheço, isso é só cantiga-de-grilo!”).
CÃO CHUPANDO MANGA: pessoa que tem o gênio muito forte, geniosa (“Ela é o cão chupando manga e eu sou mil e seiscentos cão comendo rapadura!”).
CAPAR INHAME: decepar o tubérculo exatamente no início da parte que dá origem ao tronco. É retirada para o consumo apenas o pedaço que fica entre o tronco e a raiz. Os agricultores conservam este hábito para guardar a muda para a nova safra, ou para replantar no exato momento que “capou” o inhame.
CAPE-O-GATO: vai embora; cai fora, pegue o beco, risque, vai catar coquinho; sai-te; pipoque daqui; faça carreira; espiche o gato; espiche daqui; pique a mula; risque; cisque; pique daqui; meta os pés; pinique daqui (“Cape o gato daqui, seu galado!”).
CAPENGA: coisa de má qualidade, fuleira, sem valor (“Foi muito capenga o prêmio da festa”!).
CAPENGA: pouco, coisa diminuída (“Eu pensei que você tinha feito canjica, e não essa coisa capenga!”).
CAPENGA: triste, cabisbaixo, combalido (“Que que tu tem que tá tão capenga?”).
CAPENGA: coisa de má qualidade, de quinta categoria; falsificado; fuleiro; imprestável, inferior (“Éssa bolsa é muito capenga!”).
CAPIÓ: extensa propriedade rural próxima ao centro de Nísia Floresta, na qual existe muita roça, pois a terra é muito boa”).
CAPIONGO: com o olhar de sono, olho de japonês; pichinim; triste, cabisbaixo, combalido, capenga (“(“Marcos tá com um olharzinho tão capiongo, será que tá doente?”).
CAPITÃO: penico, urinol, boca de sino (“Mia fia traga meu capitão!”).
CAQUIANDO: tateando, procurando alguma coisa com as mãos (“Menina, o que você está caquiando aí no armário?”). OBS: Normalmente quem “caqueia” é gente idosa ou cega – ou quem está no escuro.
CARA-DE-AMÉLIA: com a cara mexendo; fisionomia sem graça, desconfiado, cara lisa, sem jeito (“Quando lhe perguntei pelo dinheiro ela ficou com cara-de Amélia!”).
CARA DE TACHO: sem vergonha; cara lisa; fingido (“Lá vem ele com a cara de tacho!”).
CARA DE HEREJO: cara de besta; bestando (“Tu pensa que eu tenho cara de herejo, é sinhá puta?!”).
CARA MEXENDO: envergonhado; sem chão; cheio de perna; errado todo; com cara de Amélia, feito bobo; fisionomia sem graça; desconfiado; sem jeito (“Eu fiquei com a cara mexendo quando vi que era mentira dela!”).
CARÃO: esporro, dar um batido, chamar a atenção; dar uma inchincada (“Vovô deu um carão n`eu!”).
CARECE: necessita, precisa (“Não carece de botá mais leite no doce!”).
CARAI- DE- ASA: caralho-de-asa. OBS: Trata-se de uma expressão vulgar.
CARITÓ: maninha; mulher que nunca se casou; moça velha; solteirona; que ficou no caritó (“Netinha ficou no caritó!”).
CARNE-DE-CABEÇA: tipo de carne situada debaixo do pescoço dos bovinos vendidos em feira. OBS: Trata-se de uma expressão típica de feiras livres.
CARNE-DA-FRUTA: polpa da fruta (“Prá fazer o doce do jerimum você tira toda a carne e cozinha com açucar até apurar!”).
CARNE MORTA: carne bovina que fica entre a costela e a coxa do animal. OBS. Trata-se de uma expressão típica de feira.
CARNE-VERDE: carne fresca, carne nova que não recebeu sal e nem sol (“Zeca, traz dois quilo de carne-verde da feira!”).
CARNEIRO: carnê de aposentadoria (“O nhô Pedro foi pegar o carneiro dele!). OBS. Tal expressão, em desuso, era uma referência aos antigos carnês de aposentadoria, hoje substituídos pelos cartões magnéticos. Tal informação foi prestada pelo sr. “Cuia véia”, do distrito do Porto.
CARRADA: quantidade equivalente a uma carroceria ou carro de mão cheios (“Traga uma carrada de strumo amanhã cedo!”). OBS: Trata-se de uma medida matemática.
CARRAPETA: danado, arteiro, malino, endiabrado (“Moleque carrapeta esse seu vizinho!”).
CARREGADO: reimoso, diz-se de qualquer alimento que, se comido, inflama alguma ferida que a pessoa tenha, além de garganta inflamada ou se a mulher estiver menstruada (“Mulé não coma caranguejo, olhe o estado da sua perna!”).
CARRÊGO: agente inflamador (“Peraí que eu vô tirá o carrego da macaxeira!”). OBS: Alguns nativos costumam jogar fora a água da macaxeira assim que a mesma entra em fervura. Logo em seguida recolocam nova água (fria) para que ferva e termine o cozimento. Esse processo tem como finalidade retirar o carrego do tubérculo, pois assim como diversos alimentos, a macaxeira é considerada “carregada”.
CARREIRA DE CASA: uma seqüência de casas próximas às outras, casas de parede-meia; (“No final dessa carreira de casa fica a Casa Marista”).
CARTA DO ABC: cartilha de alfabetização; antigo método de alfabetização utilizado pelos nossos bisavós, no qual se ensinava o alfabeto por etapas, e em seguida formava-se as palavras soletrando sílaba por sílaba, por exemplo, a palavra “camelo” era soletrada assim: “ce-a-ca-mé-é-mé-élé-ó-ló é igual a cá – mé – ló”.
CARUAVE: propenso, que tem tendência a alguma coisa, principalmente a doença (“Mamãe sempre foi caruave a pipoca-roxa!”).
CARUMARU: antigo prato típico da Semana Santa, feito com bredo, leite-de-coco, sal. pimenta-do-reino, coentro, tomate, cebola e pimentão. Raras pessoas comiam peixe durante a referida semana, pois o carumaru era a tradição da época. OBS: Expressão em desuso.
CASA-DA-DINDA: apelido da Secretaria Municipal de Obras Públicas de Nísia Floresta durante a administração do Prefeito Professor João Lourenço Neto. CURIOSIDADE: No início de 1997, a referida secretaria passou a funcionar num antigo casarão construído na década de 30, no qual morou Yayá Paiva (absurdamente demolido em 2002). O pédio situava-se de frente ao Ginásio Poliesportivo. A casa tinha os compartimentos assobradados. A cozinha era imensa e foi exatamente nesse cômodo que teve origem a pitoresca expressão “Casa-da-Dinda”. Lá era preparada toda sorte de almoços e lanches fartos e isso atraia funcionários de vários setores, principalmente na hora do almoço, os quais vinham apressados, ávidos para fazer a lambança nos panelões de “cumê”. O cheiro exalava pelo casarão, atiçando os apetites. Quem chegasse e não fosse gentalha “se abancava” e comia “empolado”. Os mais íntimos chegavam e iam fazendo montanhosos pratos. A “Casa-da Dinda era deliciosa”. Era tudo “na baia”. Logo todo mundo inventava uma desculpa e “pegava o beco” para lá, pois era impossível sair dali insatisfeito. Isso fez com que os próprios funcionários dessem o epíteto de “Casa-da-Dinda” àquela repartição, numa alusão à famosa casa particular do Presidente Fernando Collor – em Brasília (sinônimo de lugar onde ocorreram gastos exorbitantes) que logo se popularizou. Em 2001 foi construído o prédio oficial da Secretaria Municipal de Obras Públicas, no Conjunto Clóvis de Carvalho; a “Casa-da-Dinda” foi abandonada e criminosamente demolida no ano seguinte. Com a sua demolição o apelido foi esquecido, exceto por algumas pessoas que logicamente sentem saudades até hoje. A expressão tem o mesmo sentido de outra nacionalmente conhecida: “casa da mãe Joana”, ou seja, local onde se chega e se faz o que bem quer.
CASCABUIO: coisa que não presta mais; troço velho; uruvaio; trambelho; burundanga (“Jogue fora esse cascabuio!”).
CASCAVIAR: procurar; investigar, pesquisar; buscar; (“Eu cascaviei tudo e não encontrei nada!”).
CATAR COQUINHO: expressão usada quando se quer dizer: vai prá lá!, cai fora!, sai daqui!, vai encher o saco de outro!; sai-te; cape o gato! (“Eu não quero nada com você, vai catar coquinho!”). OBS. Obrigatoriamente tem que ter o “vai” antes da expressão.
CATEMBA: casca do coco (“Faça uma coivara com essas catembas!”).
CATIMBÓ: feitiço; macumba (“Dizem que fizeram catimbó prá essa menina!”).
CATINGA: fedor, mal cheiro (“Arra! que catinga!”).
CATINGA-FRIA: fedor; mal cheiro (“Tá uma catinga fria nesse banheiro, hum rum!”). OBS. É dito quando um ambiente ficou mal lavado, como se o fedor tivesse piorado depois que foi lavado
CATINGUENTO: fedorento, que tem odor desagradável (“Sai prá lá catinguento!”).
CATITA: ratinho novo (“Tá cheio de catita no meu guarda-roupa!).
CATOCO: pequeno, curto, baixinho (“Um catoco desse quer ser gente!”).
CATÓLICO-DE PAU-DE-ANDOR: pessoa que se denomina católica mas que só vai à igreja uma vez perdida (“Esse católico-de-pau-de-andor só vem prá igreja quando tem procissão!”).
CATOMBO: inchaço proveniente de pancada (“Eu to toda encatombada!”)ô
CATOTA: excrementos ressequidos que saem do nariz de uma pessoa; bolinha de caraca tirada do nariz (“Esse menino só vive tirando catota do nariz!”).
CATREVAGEM: coisa errada; safadeza; coisa mal feita (“Esse cabra vive metido em catrevagem!”).
CATREVAGEM: fingimento, chilique inventado (“Foi catrevagem dela. Os médico disseram que ela tava normá!”).
CATREVAGEM: uruvaio; burundanga; quinquilharia (“É tanta catrevagem que faz medo nesse quarto!”).
CAVADEIRA: pessoa que tem facilidade para descobrir, investigar ou agilizar as coisas (“É bom você pedir isso prá Maria, ela é tão cavadeira!”).
CAVADEIRA: fofoqueira, que vive “cavando” ou “cascaviando” coisas sobre a vida alheia (“Lá vem aquela fofoqueira ver se cava alguma coisa aqui em casa!”).
CAVALO BATIZADO: grosso; mal educado; ignorante (“Esse maguila é um cavalo batizado!”).
CAVALO DO CÃO: besouro imenso (“A mata tá cheia de cavalo do cão!”).
CAVILACÃO: invencionice, inventar algo sem necessidade, procurar sarna para se coçar (“Você só vive com cavilação, mulé, tome jeito!”).
CAVILOSO: inventadeiro; criativo; (“Paulo é tão caviloso pro lado de desenho!”).
CAVILOSO: arteiro, que mexe em tudo, traquina (“Deixe isso quieto, menino caviloso!”).
CEBOLA: expressão usada como xingamento, é como se dissesse: merda, porra, caralho (“Torou o cabo do martelo. Isso é uma cebola mesmo!”). OBS: Obrigatoriamente tem que ter a palavra “uma” antes de cebola.
CELEBRO: converseiro e movimento de muita gente; ruma de pessoas farreando (“Tá um celebro danado na casa de Jorge!”).
CERCADO: propriedade; pequeno espaço de terra; espécie de sítio (“Essa água vem do cercado de Deca”!). OBS. A designação “cercado” não se refere a propriedade com cercas, embora possa ter, mas a terreno em si.
CERÔTE: sujeira que se acumula no corpo e na roupa proveniente do suor do dia inteiro; nhaca; azedume (“Letra passou aqui num cerote só!”).
CERANDO: freqüentando muito um lugar com segundas intenções (“Aquela menina tá cerando muito a bodega do meu marido!”).
CERRAR UNHA: lixar a unha (“Tenho que cerrar minhas unhas hoje!”).
CEVADEIRA: ofiício da mulher responsável pela colocação da mandioca no rodete de casa de farinha para ser moída (“Fui cevadeira muitos anos!”).
CEVADO: bem nutrido; bem alimentado (“Tô cevando esse caranguejo módi us minino que ton vindo di San Palo!”).
CEVADO: gordo, forte, encorpado (“Painho tá cevado demais, precisa de um regime!”).
CEVADO: tesudo; gostoso; filé (“Esse garoto tá cevado todo!”).
CHABOCUDA: com imperfeições (“Essa parede é toda chabocuda. Parece a cara dele!”).
CHABOQUE: pedaço (“Tiraram um chaboque da cara dele!”).
CHABOQUEIRA: grosseira; de feições feias (“Quem é essa mulher tão chaboqueira?”).
CHÁ-DE-BURRO: munguzá (“Oba! hoje tem chá-de-burro!”).
CHAFURDAR:1 fofocar; procurar confusão; mexerico (“Lá vai ela chafurdar a vida alheia!”).
CHAFURDAR: 2 mexer, bolir, revirar (“Menino, não vá chafurdar nessa lama!).
CHAFURDAR: 3fazer mal feito, de qualquer jeito (“Essa roupa parece que só foi chafurdada no sabão, tá fedendo!”).
CHAFURDAR: 4 transar, ter relações sexuais (“Dizem que ela chafurda com um homem casado!).
CHAFURDO: bagunça; tumulto (“Tá um chafurdo danado na bilheteria!”).
CHAFURDO: fofoca; picuinha; confusão (“Ela vive fazendo chafurdo pelas casas!”).
CHAMADA: uma dose de cachaça (“Bote uma chamada prá mim!”).
CHAMEGO: ficar juntinho, sussurrando segredinhos bestas; ficar com nhénhénhém pelos cantos (“Deixem de chamego vocês dois, que azogue da mulesta!”).
CHAMEGANDO: se esfregando com alguém maliciosamente (“Essa cabrita só vive chamegando com aquele cabra aí no muro, na luz do dia!”).
CHAMEGANDO: transando (“Dizem que ela tá chamegando com ele há anos”).
CHAPADO: alcoolizado; bêbado (“Ele hoje tá chapado!”).
CHAPÉU-DE-COURO: iguaria feita a base de trigo, sal, leite (ou água), onde se mistura tudo e coloca-se pequenas porções numa frigideira untada com óleo para assar, a qual fica parecendo panqueca (“O tempo passou, mas eu ainda adoro chapéu-de-couro!). OBS. Trata-se de uma comida ainda apreciada por muitas famílias humildes.
CHARANGA: pequena fanfarra composta por instrumentos básicos, a qual é muito comum nas animações de jogos de futebol, viagens de ônibus com estudantes e excursões, etc (“A charanga de Manuel Salvador vem vindo”).
CHEGADO: que gosta muito; simpatizante (“Esse cara não é muito chegado não”).
CHEGUE: venha, aproxime-se, avia (“Chegue almoçar vovô!).
CHEGOU ÀS BOAS: fez as pazes (“Ele chegou às boas com ela!”).
CHEIA-DE-PERNA: envergonhado, sem jeito, com a cara mexendo; sem chão; errado todo; envergonhado (“Ele ficou cheio-de-perna quando me viu”).
CHEIO DE ONDA: cheio de nove horas; que gosta de enrolar com conversas, cheio de nhenhenhem (“Tu é cheio de onda, cara!”).
CHEIRANDO OS PEIDOS: aparando os peidos; bajulando (“Ele não dá emprego pros meu porque eu não vivo cheirando os peido dele!”).
CHEIRANDO OS PEIDOS: que só vive junto com alguém; grudado; carne-e-unha; na cola; mala sem alça (“Ele só vive cheirando os peido de Pedu!”).
CHIBANCA: picareta; instrumento de trabalho semelhante a um grande martelo com pontas afiadas e o cabo semelhante a de um machado. Normalmente é usada para furar asfalto, quebrar calçadas , paredes, arrancar paralelepípedos e pedras.
CHIBUNGA: brega, chumbrega, apapagaiado (“Muito chibunga esse seu vestido!”).
CHIBUNGA: de má qualidade, reiêra (“Tais vendo, comprou essa bolsa chibunga e logo rasgou!”).
CHICOLETE: expressão usada para ironizar ou debochar de algo que foi dito com muita convicção de estar certo ou errado, e que, no entanto, o informante está absolutamente enganado quanto a sua colocação, por exemplo: Uma mulher coloca muitos chifres no marido, no entanto ele nem imagina que é traído (mas toda cidade sabe). De repente o marido chifrudo está conversando com uns amigos sobre chifre, dizendo que graças a Deus sua mulher é fiel. Nesse momento os amigos podem dizer entre os dentes: “É tanto chicolete!!!”.
CHINCADA: carão; chamar a atenção de alguém; dar uns esbregues; dar um esporro (“Eu dei uma chincada naquele cabido que ele ficou sem chão!”).
CHINELA: alpargata; pregata (“Grudou chiclete na minha chinela!”).
CHINELA DE DEDO: o mesmo que chinela
CHOQUE: instrumento de pesca, de origem indígena, ainda em uso, feito de taboca, com o formato de um cone. É todo peneirado. A parte de cima só cabe um braço. Os nativos caminham sorrateiramente sobre as águas e assim que dão fé do peixe, atiram o choque imediatamente. Em seguida enfiam a mão no buraco e pegam o peixe.
CHORAR MISÉRIA: reclamar das condições financeiras (“Deixa de chorar miséria e compre o carro de mão, rapaz!”).
CHOVA PAU OU PEDRA: aconteça o que acontecer; dê no que der (“Chova pau ou pedra eu vou falar com ela!”).
CHUMBREGA: brega; chibunga; apapagaiado (“Ô mulé chumbrega essa fulana!”).
CHUNCHADA: dor que cumincha, ou seja, dor fina; que vem de uma vez como agulhadas (“É cada chunchada no dente que não me aguento!”).
CHURUMINGAR: reclamar demais (“Deixa de churumingar que agora não tem mais jeito!”).
CHURUMINGAR: típico resto de choro, no qual se funde soluços com respiração profunda e uma espécie de miado (“Se continuar churumingando leva mais peia!”). OBS. É muito comum em crianças e em mocinhas que perdem o primeiro namorado. Dizem que corno também churuminga às escondidas.
CIBAZOL: OBS: é um xingamento não vulgar (“Quebrou a torneira, isso é um cibazol mesmo!” – D. Iraci - Tororomba).
CIGARREIRA: banca de revista (“Ô lugar esquecido! Aqui não tem nem cigarreira!”). OBS. Trata-se, particularmente, de uma das mais curiosas palavras da redondeza.
CIPUADA: surra; peia; cintada; lamborada, lambada; pisa; reiada (“Acabe com esse chafurdo, senão eu dou-lhe uma cipuada!”).
CIPUADA: relação sexual, transa; trepada (“Dizem que eles costumam dar uma cipuada na mata da moita quando voltam do trabalho”).
CIPUADA: carão; chamar a atenção de alguém (“Quando eu soube da fofoca, peguei ela e dei uma cipuada boa. A bicha ficou toda sem jeito e negou tudo!”).
CISCA: pegue o beco, vá logo, faça carreira, ande ligeiro; meta os pés; cape o gato; cisque; pique a mula; risque; pipoque daqui; pinique; espiche daqui; espiche o gato; pique daqui; pinique daqui. (“Cisca daqui seu atrevido!”).
CISCA: limpa o quintal com ciscador (“Cisque só do rio prá trás!”).
CISCAR: limpar o quintal com o ciscador (“Venha ciscar o quintal!”).
CISCADOR: rastelo, ancinho, instrumento usado para ciscar quintais (“O ciscador quebrou!”).
COCA: cócoras (“Trepe aqui na minha cóca!”). OBS. Dupla síncope e apócope de cócoras.
COCADINHA: a expressão “cocadinha” designa qualquer doce cortado em forma de cocada ou de pequena rapadurinha. Tanto pode ser literalmente uma cocadinha quanto uma “cocadinha” de amendoim.
COCOROTE: bater com as mãos fechadas na cabeça de alguém, de modo que acerte o quengo com a dobra dos dedos, dar um cascudo (“O cocorote foi tão grande que levantou um galo!”).
COCOROTE: bolacha de leite de gado e coco. Seu formato é grande, tem cor clara e é muito macia (“Fábio comeu tanto cocorote que inguiou!”).
COIOTE: magérrimo, esquelético, vara-de-bater-pecado; sibito baleado; franzino (“Coitado dele, tá só o coiote!”).
COISA BOTADA: feitiço, catimbó, coisa feita, macumba; macacoa (“Isso é coisa botada, leve numa curandeira!”).
COISA FEITA: É o mesmo que coisa botada.
COISINHA: um pouquinho; uma pequena quantidade; tiquinho; uma porção de qualquer coisa (“Me dê uma coisinha de açucar!”).
COISINHA: alguém; pessoa de qualquer sexo (“Coisinha, você pode me dar esse chinelo?”). OBS. A expressão “coisinha é usada quando não se sabe o nome da pessoa a que está se dirigindo.
COIVARA: ruma de mato seco juntado nos quintais e sítios após limpeza (“Painho, pode queimar as coivaras?”).
COLOIO: vocábulo usado para referir-se a uma porção de pessoas, cujos comportamentos não são muito aprovados pela sociedade, por exemplo: mafiosos, politiqueiros, vândalos (“Não se misture com esse coloio, senão eu corto relações com tú!).
COM A BEXIGA: com a porra, com a mulinga, dando a piula, com muita raiva; com o cu nas costas (“Hoje eu tô com a bexiga, nem fale comigo!”).
COM A BIXIGA LIXA: com ódio; com a porra; com a mulinga; com o cu nas costas (“Teca tá com a bixiga lixa módi o carro que quebrou!”).
COMBALIDO: estragado, rachado, fraco, inválido, piúba (“Toda a madeira da casa está combalida!”).
COMBALIDO: triste, capiongo, amulengado, derrubado (“Essa diarréia deixou ele combalido!”).
COMBINAÇÃO: peça da vestimenta feminina antiga, feita de tecido leve, a qual era usada sob o vestido ou saia (“Vó inda usa combinação!”).
COM DUAS RISADAS: com muita facilidade; com desenvoltura; com habilidade; brincando (“Fulano faz isso com duas risadas!”).
COME NO MESMO COXO: é da mesma iguala; é da mesma laia (“Xepa fala de João, mas os dois comem no mesmo coxo!”).
COMO BEIA: demais; em abundância (“Tem manga como beia!”).
COMONGOL: tipo de janela de uma peça só, pequena e de cimento, elaborada com elementos geométricos, abstratos ou figurativos, o qual faz as vezes de uma grade de proteção de casas. Normalmente é usado em banheiros como única ventilação varandas, muros ou locais que requerem passagem de ar sem precisar ser muito aberto.
COM O CÚ NAS COSTAS: com a pá virada; com muita raiva; com ódio; dando a piula; com a porra (“Espiche daqui que hoje tô com o cu nas costa!”).
COMO SEM FALTA: certamente; por certo; logicamente (“Irei como sem falta amanhã!”).
CONDENADO: amaldiçoado; desgraçado; maldito; infeliz; filho de uma égua (“Se eu pegar aquele condenado eu esfolo vivo”). OBS. Apesar de ser usado como xingamento, quando a pessoa está com muita raiva, pode ser usado também como brincadeira, dentro de um contexto lógico, por exemplo: “Diz aí, condenado, se aprochegue!”.
CONDUTO: mistura, complemento da alimentação básica (“Quando não tem conduto esse cabrito não come nada. Conduto é a língua, seu cabra!).
CON’EU: quando eu (“Con’eu como esse troço me revira o estombo!”). É cacofonia que funde a locução interrogativa quando com o pronome pessoal eu . Por sua vez torna-se um suarubacti (ou epêntese).
CONFEITO: bala, docinhos à granel (“Mainha dê dinheiro mó deu comprá confeito!”).
CÓPIA FIÉ: cagado e cuspido; igualzinho; grande semelhança (“Benza Deus! Ele é a cópia fie do pai!”).
CORDA: feixe de caranguejo, goiamum ou siri vendido de porta em porta. (Papai encomendou uma corda de caranguejo!). OBS: Os crustáceos são amarrados uns aos outros com cipó, palha de coqueiro ou embira.
CORONGO: peixe semelhante ao mussum, porém é esbranquiçado (“Quando eu era pobre comi muito corongo!”).
CORONHA: muito curta; cotó; pequena (“Essa calça já está coronha para você!”).
CORPETE: califom; sutiã (“Quebrou o meu corpete!”). OBS. Podemos dizer que o corpete é filho do sutiã e neto do califom.
CORRUTE: desgastado devido a muito uso; frouxo; folosado; afolosado; rombudo (“Tem que trocar essa torneira, pois está corrute!”).
CORRUTELA: curriola, coloio de pessoas (“Eu que não ando com gente da curriola dela!”).
COTÓ: suru; sem rabo; sem penas no traseiro (“Vovô comprou só franguinho cotó!)
COTOCO: muito pequeno, baixo, curto (“Quem é esse homem cotoco que chegou aqui!”).
COTOCO: desgastado (“O meu lápis grafite tá cotoco”).
COVO: instrumento artesanal feito de taboca ou cipó, usado para pescar camarão, mussu, moré, siri, carangueijo, cara e etc. (“Olha só como os covos estão cheios!”).
COZIDO: prato feito com pés, mãos ou pernas de gado, preparado com muitos legumes e batata doce, temperado à gosto. Normalmente se faz pirão com o caldo. (“Hoje eu faço um cozido nem que eu me réi!”).
COZINHADO: hábito tradicional de fazer cozido nos quintais das casas ou nas beiras dos rios e lagoas, reunindo a família e os amigos. (“O pessoal foi pra um cozinhado em Campo de Santana”).
CRAVO: espécie de nódulo de carne semelhante a um calo que se forma debaixo dos pés, provocando muita dor e dificultando a pisada. OBS. É uma expressão antiquíssima usada por pessoas muito idosas.
CRIATURA: tratamento pessoal (“Criatura, onde Diabo tu vai?!”).
CRISTÉ: laxante; supositório (“Vovó tá precisando de um cristé, faz dias que tá enturida”).
CROTE: planta ornamental existente em diversas cores e tipos (“É tão bonito aquele crote que tem no quintal de Luzia!”).
CUBANO: brechando; curiando (“Ele tava cubano a menina e tocano bronha!”).
CUBANO: pastorando para ter provas do que se suspeitava, lançar olhar analisador; observando com intuito investigativo (“To cubano há dias aquele safado! Quero pega-lo com a mão na massa”).
CUBANO: desejando; cobiçando; pigorando; olhando com água na boca (“Tô cubando aquela canjica!”).
CU-DA-PORCA: metido, orgulhoso, que quer ser o que a folhinha não marca (“Ele só quer ser o cu-da-porca!”).
CU-DE-APITO: quem solta muitos gases, que peida muito (“Urra! Que sola! Quem foi esse cu´-de-apito?”).
CU-DE-APITO: bunda muito reta, bunda de tábua. (“Aquela cu-de-apito só quer ser a tal!”).
CU-DE-BURRO: confusão, briga, baixaria, boi-de-fogo, cumbú; furdunço; fuzarca; encrenca (“Se não deixarem cumê prá mim faço já um cu-de-burro aqui!”).
CU-DE PINTO: tersol (“O bichim tá com um baita cu-de-pinto!”).
CU-DE-CANA: alcoólatra; pessoa que bebe demasiadamente. (“Risque daqui seu cu-de-cana!”).
CUECA: fuleiro; sem valor; desqualificado; inferior; fraco (“Aquilo é um vendedor fuleiro da mulesta dos cachorro!”).
CU ENTUPIDO: enturido; sem conseguir defecar (“Ai, mãe! Ma ajude, tô com cu entupido!”).
CUICUI: cuscuz (“Mãe, bote meu cuicui!”).
CUIDA: avia; seja rápido; anda logo. (“Cuida, cuida que o ônibus tá saindo!”).
CUITÉ: espécie de cabaça – fruto redondo de uma árvore de médio porte, o qual atinge normalmente o tamanho de uma bola de futebol. Quando seco, corta-se ao meio obtendo-se duas tijelas, as quais são muito usadas nas residências rurais e do interior para apanhar água, cereais e outros produtos. Usa-se também como vaso de flor. É um material muito resistente.
CUMA?: como? (“Tu disseste o quê? cuma?”).
CUMAÉ: como é (“Cumaé o nome dele?”)
CUMBÁ: bolsa de pano utilizada por agricultores para apanhar feijão. Normalmente fica na altura do peito, presa por um cordão em diagonal entre a cintura e o ombro (“O cumbá de vovô furou!”).
CUMBÚ: briga, confusão, encrenca, cu-de-burro, boi-de-fogo (“Tá um cumbú da gota no Alto!”).
CUMÊ: alimento, comida de panela pronta para comer (“Mãe, bote meu cumê!”).
CUMÉ: como é (“Cumé? tu rai ou não?”).
CUMÊ QUE OFENDE: comida passível de causar algum desarranjo no organismo em virtude da pessoa estar com algum problema (“Esse cumê ofende, nem dê, pois o pobre ontem cagou até as tripa!”).
CU NAS COSTAS: com ódio; com muita raiva; com a pá virada (“Hoje levantei com o cu nas costas, nem fale comigo!”).
CURAR: tirar mal-olhado através de rituais e mezinhas de uma benzedeira (“Leve o menino prá curar antes que o sol se ponha”!).
CURIANDO: observando com muita curiosidade; olhando com intenções investigativas; curiando para ter certeza que o suspeitável é ou não verdadeiro; (“Ele ficou curiando toda tarde e ontem pegou ele com a boca na botija!”).
CURIANDO: brechando; com cada botica de olho (“Ele vive curiando as meninas quando elas vão pro rio!”).
CURRIOLA: coloio de pessoas depreciadas; grupo de gente de mal caráter, mesquinhas, de mal comportamento (“Eu não quero tu nessa curriola!”).
CURUDO: encruado; quando algum cereal não cozinha por estar muito velho (“Esse feijão tá curudo, nem invente de cozinhar!”).
CURUDO: pessoa que não cresce (“Esse menino parece que vai ficar curudo!”).
CURUDO: estagnado, que não evolui (“O viveiro de camarão de painho ficou curudo de uma hora prá outra!”).
CUSCUZ DE MANDIOCA MOLE: cuscuz feito com a massa da mandioca mole (“Eu adoro o cuscuz de mandioca mole de vó!”). OBS. É uma iguaria muito rústica e raramente apreciada nos atuais dias.
CUSPE-DE-FUMO: OBS. Essa expressão foi muito comum no linguajar das parteiras. Assim que faziam o parto, davam uma cusparada de fumo de corda no umbigo da criança e esfregavam com a mão para não infeccionar. Toda parteira ia fazer o parto já com o seu cachimbo preparado. As parteiras evangélicas, por não fumarem, pediam para alguém fazê-lo em seu lugar.
CUSPINDO BALA: nervoso, bravo, que deu a piula, deu a mulinga, deu a porra (“Paulo tá cuspindo bala!”).
CUSTÁ: demorar (“Se for custá eu venho depois!)


LETRA “D”

- Nossa! Como Ritinha desarnou! A menina era tão dormente quando morava na moita.
- É que os pais dela desencavaram uma escola da hora em Natal e a danada desenrolou.
- Que bom Jurema, deixa que o pai dela já foi tão distrambelhado!
- É, mas a mulher dele deu a piula e dixi que se ele continuasse naquela danação ela ia embora.
- Se ela tivesse dado mole ele teria se desmantelado.





DADÁ: dindim (“Vovó vende dada!”).
DA HORA: ótimo; legal; massa; caiu bem; do bom; é o máximo (“Esse carro é da hora!”).
DÁ-LHE: dar uma peia, surrar, bater (“Eu vou dá-lhe se não me disser quem quebrou o pote!”).
DANAÇÃO: esculhambação, bagunça, arteirice (“Deixe de danação nos quarto seus malino!”).
DANADO: arteiro, malino, espritado (“Menino danado, desça daí!”).
DANADO: esperto, inteligente (“Que menino danado esse de Tonha, passou no vestibular sem fazer o tal cursinho!”).
DANDO MASSADA: fazendo algo com muita lentidão propositadamente, remanchando (“Ela dá cada massada no besta e ele nem percebe!”).
DANO: dando (“Você só vive dano o que tem!”). OBS. É uma caso de suarubacti.
DANO-LHE: planto-lhe, dou-lhe, sento-lhe (“Deixem de abuso senão eu dano-lhe a peia!”).
DAR CONVERSA: dar corda para alguém através de um longo papo (“Não dê conversa prá esse leso que ele é inxirido!”).
DAR PRÁ TRÁS: desandar, falir, entrar em decadência (“Eles deram prá trás porque gastam muito!”).
DAR PRÁ TRÁS: pisar prá trás, descumprir um trato, não ter palavra; não assumir o que prometeu ou o que afirmou (“Besta de quem fizer negócio com ele, pois sabe que ele gosta de dar prá trás!”).
DEIXA QUE: mas, porém, todavia, contudo, entretanto (“Marleide ficou de vir hoje, deixa que até agora nada!”).OBS. Essa expressão funciona como uma espécie de conjunção coordenativa adversativa. Não está no sentido de verbo. São duas palavras que têm o significado de uma, como se fossem fundidas “deixaquê”. É um caso curioso, cuja significância foge totalmente da seara gramatical, travestindo-se de conjunção.
DE MORTE: é o cúmulo, absurdo, horrível, demais, feio (“Essa história foi de morte!”) OBS. Designa coisas que fogem dos padrões normais.
DE PÉS: a pé, com os próprios pés (“Deixa que eu vou de pés pra a rua, chega de esperar carro!”).
DERNA: desde (“Derna dantonti Pedu num aparece!”).
DERRUBAR: humilhar, desmerecer, inferiorizar (“Você adora derrubar as coisas dos outros!”).
DERRUBADO: cansado, mói de sola, só o pito; com a ôia (“Hoje eu tô derrubado!”).
DERRUBADO: no fundo do poço, muito triste, depressivo, deprimido (“Ele tá derrubado depois da morte da esposa!”).
DESABAR NO CHORO: chorar muito, debulhar-se em lágrimas (“Ela vai desabar no choro quando souber!”).
DESAFERROU: escapou do anzol (“Ele deu a mulinga, pois o maior de todos desaferrou!”). OBS. É uma expressão usada apenas por quem pesca.
DESANDAR: disonerar, perder o ponto durante o preparo de certos alimentos (“Se você fizer isso a massa vai desandar!”).
DESANDAR: entrar em decadência, falir, regredir, dar prá trás (“Ele começou a desandar depois que assumiu os negócios do pai!”).
DESANDADO: com diarréia, desenteria (“Depois daquele cozido eu tô todo desandado!”).
DESARNAR: desenvolver, progredir, evoluir, desenrolar, (“Depois que colocaram aquela lesa naquela escola ela desarnou!”). OBS. É muito usado para designar crescimento físico e mental.
DESATOLADO: desenrolado, competente; que tem tino para certas coisas (“”Isso não é problema pra um cara desatolado como Tico!”).
DESCANSAR: dar a luz, parir (“Jordânia vai descansar em janeiro!”). OBS. É uma expressão predominantemente usada para referir-se a parto e pouco usada para designar repouso.
DESCOBRIU O BRASIL: OBS. É uma maneira irônica de se contrapor uma informação dada como grande novidade, mas que todos os informandos já sabiam. É uma forma de cortar o barato de uma notícia dada com atraso.(“Lula ganhou?!!! Poxa, você descobriu o Brasil!”).
DESENCAVAR: descobrir, elucidar, cascaviar, escafunchar, cavoucar (“Ele desencavou todos os podres do metido a santo!”).
DESENROLADO: desatolado; competente; que tem tino para resolver as coisas (“Ele é desenrolado, duvido se ele não resolve isso hoje mesmo!”).
DESENXAVIDO: com gosto aquém do normal, meio insosso; meio insípido (“Essas mangas estão muito desenxavidas!”)
DESENXAVIDO: sem tipo, feio, desmilinguido (“Márcio, o póbi, sempre foi tão desenxavido, coitado!”). CURIOSIDADE: é o mesmo que enxavido.
DESMANTELO: desordem, desorganização, bagunça (“Esse quarto tá um desmantelo!”).
DESMANTELO: confusão, briga, intriga (“Tá um desmantelo na casa deles, dizem que já saiu até sangue!”).
DESMANTELADO: quebrado (“Não mexa no guarda-roupa que tá desmantelado!”).
DESMANTELADO: amalucado, abilolado, doido, distrambelhado, sem escrúpulo (“Ele sempre foi desmantelado, besta é quem mexe com ele!”).
DESMANTELADO: irreverente, relaxado, (“Êta candidata desmantelada, é dessas que eu gosto!”).
DESMANTELADO: relaxado; que não tem zelo por si próprio e nem por nada; relaxado; (“Ele ta reiado porque sempre foi desmantelado!”).
DESMAZELO: descuido, desordem, desarrumação (“Que desmazelo nessa casa!”).
DESMAZELADO: que não tem zelo por si próprio e nem por nada designa o que está em desmazelo (“Essa mulher sempre foi muito desmazelada!”).
DESMENTIR: torcer o pé, pisar de mal jeito e machucar o pé (“Acho que desmenti o pé!”). OBS. Usa-se tanto nesse sentido como para referir-se a uma mentira que foi desfeita.
DESPADRUADO: quem gosta muito de viver deitado (“Esse cabra parece que tá despadruado!”).
DE OITO HORAS: OBS. Este horário aleatório apenas ilustra a maneira como os nativos referem-se a horas. Normalmente colocam a preposição “de” antes dos algarismos referentes as horas, por exemplo: “O comiço é de seis horas!” “De nove horas eu vô!”.
DESTÁ: deixa estar, espere para ver, me aguarde (“Destá que você me paga!”) OBS. É uma espécie de suarubacti (ou epêntese).
DESTIORADO: estragado, esculhambado, danificado (“O engenho Descanso tá muito destiorado!”).
DESTREINADO: todo errado; sem pernas; envergonhado; sem chão (“Quando ela chegou ele ficou todo destreinado!”).
DEU A BOBA: lascou; deu errado; era só o que faltava (“Agora deu a boba, o cano estourou!”).
DEU BRAVO: deu a porra, deu a mulinga, deu bravo, cuspiu bala, enfureceu-se (“Ele deu a piula quando soube do chifre que vinha recebendo!”).
DEU A MULINGA: o mesmo que deu bravo; deu a piula; deu bravo; cuspiu bala (“Tonho deu a mulinga com os meninos!”).
DEU A PIULA: o mesmo que deu bravo; deu a mulinga; deu bravo; tá com a porra; cuspiu bala (“Maria deu a piula quando viu o ex-marido!”).
DEU A PORRA: o mesmo que deu bravo; deu a mulinga; cuspiu bala; tá com a porra; deu bravo (“Ela dá a porra quando a chamam de perna de alicate!”).
DEU MOLE: deixou por isso mesmo; foi omisso; foi besta (“Ele deu mole com a parte da herança dele!”).
DEVER: tarefa escolar para ser feita em casa (“Cinara já fez o dever?”).
DIADEMA: ornamento usado na cabeça para prender ou enfeitar os cabelos; tiara (“O diadema de Ziza é lindo!”).
DIABO É!: OBS. É uma expressão exclamativa que externa espanto ou estranheza a uma situação. É muito usada por certos idosos (“Diabo é! Que furdunçu é esse aí na bodega?!”).
DINDIN: espécie de picolé preparado em saquinhos de plástico (“Vende-se dindim!”).
DISONERAR: desmanchar o ponto no preparo de certos alimentos, desandar (“Você vai desonerar isso menina!”).
DISPLANTE: ação desnecessária, na qual a pessoa que age está se rebaixando; fazer uma coisa sem precisão (“Mulé, como é que você se dá o displante de tirar satisfação com aquele tipo de gente?!”).
DISTRAMBELHADO: OBS. Tem o mesmo significado de desmantelado e suas vertentes.
DIXI: disse (“Eu num dixi derna dantonti que ia chuvê? Os passo cantaro!”).
DIZ!: diga (“Diz amigo!”). OBS. Maneira de cumprimento entre jovens na rua.
DIZ!: diga (“Quando o rapaz riscou na loja o balconista disse:- diz!”). OBS. Maneira de se questionar uma pessoa que chega a procura de alguma coisa.
DIZ AÍ!: OBS. Tem os mesmos significados de “diz!”.
DIZ AÍ,CABRA: maneira de cumprimento entre homens.
DIZ AÍ, DOIDO: o mesmo que: “diz aí, cabra!”. OBS: mais comumente usado entre jovens.
DIZ AÍ, MACHO: o mesmo que “diz aí, cabra!”
DIZ AÍ, SEU PORRA: OBS. Embora não pareça é um jeito de certos meninos se cumprimentarem.
DIZ AÍ, SONSEIRA: OBS. Embora não pareça é um jeito de certos meninos se cumprimentarem.
DÍZIMO-DO-PEIXE: OBS. Essa expressão foi muito comum durante a famosa Festa dos Pescadores, a qual foi organizada até 1947 na comunidade do Porto. Era uma festa grandiosa, cuja rua principal ficava cheia de barracas com comes e bebes.Os pescadores embarcavam no porto, logo de manhazinha ou à noite, e retornavam muitas horas depois com centenas de peixes, os quais eram vendidos durante a festa. Na ocasião, os nativos embolados pelo forró ao vivo (com sanfona, pandeiro, zabumba e triângulo) varavam a noite. Grupos folclóricos como “Fandango” e “Marujada” varavam a noite. O encerramento se dava com uma grande missa, na qual os pescadores ofertavam dez por cento do seu pescado a igreja. Esse era o dízimo do peixe.
DOENÇA-DO-MUNDO: doença venérea (“Dizem que ela tem doença do mundo há tempos!”).

DOR-DE-VIADO: espécie de cólica que dá em homem, dor insuportável que dá entre a bixiga e o rim (“Isso passa, é só uma dorzinha de viado!”).
DOR FINA: dor estranha e aguda – não muito comum (“Dotô, tô cuma dô fina no pé da barriga!”).
DORMENTE: pessoa sem atenção, lesa, abestalhada, que vive no mundo da lua (“Essa dormente tá precisando de umas peias no lombo!”).
DRAMA: espécie de teatro onde se conta uma história cantando, gesticulando e dançando, embora não seja padrão essas três inserções. (“O Pirão-Bem-Mole é um drama que a finada Biluca Gadelha ensinava muito em Tororomba!”).

LETRA “E”

- Maricota, filha de D. Maria, chegou do Rio toda estrumada, nem parece aquela empalemada que saiu daqui tão curuda – disse João da Bomba a Zé da Várzea.
-Conversa! Aquela encorujada semprefoi feia – exclamou o amigo.
- Eu segue da gota serena se você reconhecê-la. Égue, lá vem ela.
- Êeeeeeee! Deixa de enrolação! Aquela escrota ali não é ela nunca!
- É a boazinha!
- E boa que só! E toda espalhafatosa!
- Homi, deixe de enxerimento!
Zé da Bomba, com seu espírito zombeteiro, começou a fazer uns gestos para se aparecer para a moça, quando João atalhou:
- Cabra, se essa mulé cisma com tu ela lhe dá uma esculhambação, macho!
- É, realmente não é bom eu nem esperançar!




ÊÊÊÊÊÊÊ!!!: OBS. Usada exclusivamente por crianças e adolescentes, essa expressão designa admiração ou estranheza a determinados fatos (“Êêêêêêêê!!! Quem é esse papangu vestido de mulher?”).
É A BOAZINHA!: OBS. Maneira irônica de referir-se a uma pessoa má (“Essa sua tia é a boazinha!”).
É BOM QUE SÓ: é bom demais (“A festa foi boa que só!”).
É CHÃO: é longe, a estrada é longa demais; é uma tirada boa (“Da Barreta a Búzios é chão!”).
ÉGUE: OBS. É uma expressão que designa contentamento ou estranheza por uma determinada situação. Tem o mesmo sentide de: êêêêêê, vixi, vot, acertei, consegui, toma.
EITO: pequeno pedaço de terra cultivada (“O eito que vai até o aceiro é meu!”).
EMBIRA: palha seca da bananeira, retirada tanto do caule quanto da parte do meio da folha, a qual se usa para amarrar diversos produtos da roça (“Letra tem a mania de amarrar a saia com embira!”).
EMBIOCAR: emburacar, entrar de uma vez, meter a cara, se embrenhar (“Essa metida entra na casa dos outros e se embioca nos quartos!”).
EMBOLAR: embuluar; misturar; confundir; atrapalhar (“Menino, não invente de embolar essas linhas!”).
EMBOLÉU: ao léu, à toa, no mundo, largado (“Aquele menino só vive aos emboléu!”).
EMBOMBO: caroço, catombo (“Eu to cheio de embombo no corpo!”).
EMBRENHAR: embiocar; se enfiar; se meter; emburacar (“Ele se embrenhou na mata e fugiu!”).
EMBROMAÇÃO: enrolação, remanchamento, inventando desculpas para demorar, demora proposital (“Deixe de embromação e pague logo a conta!”).
EMBRULHANDO: enguiando, com ânsia de vômito, com azia (“Depois do pirão fique com o estômago embrulhando!”).
EMBUCHAR: pegar um bucho, engravidar (“Eu que não quero mais embuchar desse bebo réi!”).
EMBUCHOU: engravidou, fez um bucho (“Ele embuchou a fia do seu Juca!”).
EMBULUADO: misturado, confundido, atrapalhado; embolado (“Tá tudo embuluado nessa bolsa, agora nem eu sei onde é que tá o dinheiro!”).
EMBULUADO: turvo, com a visão enfraquecida (“Sem meu óculos eu fico vendo tudo embuluado!”).
EMBURACAR: embiocar, entrar de uma vez e sem permissão, se embrenhar (“Quando viram a miliça emburacaram na mata!”).
EM CIMA: perto; próximo (“Ele só chega em cima da hora!”).
EMPALHANDO: dando massada; demorando; remanchando; embromando; sendo lento; ronceiro (“Essa cabrita é só empalhando, desse jeito a gente vai sair muito tarde!”).
EMPALHANDO: atrapalhando; que fica no meio do serviço dos outros incomodando, passando no meio, dando palpites (“Se ele não ficasse aqui me empalhando, eu já teria terminado!”).
EMPALEMADO: guenzo, esquálido, pessoa descorada, amarelo-empalemado (“Esse empalemado ganhou o concurso? Êêêêê!!!”).




EMPELEITA: empreita; serviço provisório, cujo desenrolar do mesmo ocorre mediante acordo prévio, onde é dado o preço (“Esse serviço foi por empeleita!”).
EMPOLADO: com fartura, na beia, franco, à vontade; na baia; na beia (“Foi cumê empolado na festa!”).
EMPOMBADO: com muita raiva; de pá virada; com o cu nas costas; com ódio (“Hoje ele ta empombado, nem diga nada!”).
EMPOMBANDO: engravidando as moças; bolinando com as mulheres (“Ele só vive empombando as fia alhea! O dia que alguém fizé com a dele...”).
EMPRIQUITADO: muito enfeitado, apapagaiado, adornado em excesso (“Ela chegou empriquitada como um pavão!”).
ENCABRUNHADO: encabulado; desconfiado; lambido; com o pé na frente e o outro atrás (“Que ele tem que tá todo encabrunhado?!”)
ENCANGADO: montado, trepado, em cima (“Pai passou o dia encangado nesse cavalo!”).
ENCANGADO: na cola, carne e unha; azogue; grudado, muito junto (“Esses dois menino é um encangado noutro, chega enche!”).
ENCANGANDO GRILO: sem fazer nada; desocupado (“Ele passa o dia encanando grilo!”).
ENCARNAR A SANTA: OBS. Expressão antiquíssima, em desuso, usada pelos católicos quando davam uma nova demão de tinta nas imagens de santos. Era como dizer: “pintar a santa”. No passado não havia muito cuidado em recuperar as pinturas com originalidade, talvez por isso que muitas imagens folheadas receberam sucessivas demãos de tinta.
ENCHE A BOCA: se ufana, se vangloria, se orgulha (“Eles enchem a boca dizendo que fazem universidade, mas os pobres escrevem dez palavras e nove são erradas!”).
ENCHEU A RUA: fez fofoca, espalhou um fato; fez mexerico; fez enredo; divulgou uma notícia (“Ela encheu a rua, agora não adianta mais esconder!”).
ENCORAR: dar uma surra, dar uma cipuada, dar uma peia (“Eu encorei aquela danada com cipó de goiabeira!”).
ENCORAR: chamar alguém nos prumos para dar um carão, pegar alguém para dar uns esbregues (“Eu encorei aquela faladeira na rua mesmo!”).
ENCOROU: deu uns esbregues; chamou a atenção; deu um carão; deu um batido (“Eu encorei o
cabra que ele disse tudo ali mesmo!”).
ENCOROU: teve relações, transou (“Dizem que ele encorou ela uma vez!”).
ENCORUJADO: quietinho num canto, amuado, sem vida (“Vovó tá tão encorujadinha na cama, parece uma bola!”)
ENCRUADO: atrofiado, que não evoluiu, que cresceu pouco (“Esse menino tá iguá os meu mii encruado!”).
ENFADO: cansaço, desgaste físico ou mental, só o pito, só o mói de sola, amulengado (“Depois da festa fiquei com um enfado danado!”).
ENFEZADO: enraivado, chateado (“Ele tá tão enfezado com a mulé depois da baixaria!”).
ENGRAÇADO: bonito; simpático; charmoso (“Márcio é engraçado!”).
ENJIADO: enrugado (“Ele saiu d’água todo enjiado!”).
ENFIADO: metido, socado, embiocado (“Ela só vive enfiada na casa do namorado!”).
ENGOMAR: passar ferro na roupa (“Mandei engomar sua roupa ontem!”) OBS. Não está no sentido de por goma na roupa, embora é um derivado dessa antiga prática.
ENGUIANDO: com ânsia de vômito, com mal estar (“O cheiro dessa comida tá me enguiando!”).
ENREDO: fofoca, picuinha, mexerico (“Essa bichinha adora um enredo!”).
ENREDO: barulho, gaiofança, fuzarca (“Acabem com esse enredo aí na cozinha!”).
ENROLAR: fazer uma curva, virar (dobrar) uma esquina (“Enrole à direita quando chegar no supermercado!”).
ENSACAR: colocar a camisa por dento da calça usando ou não o cinto (“Quando ele tá ensacado é porque vai pra algum lugar importante!”).
ENTREGAR: dedurar, denunciar (“Eu não sou de entregar amigo meu não!”).
ENTRONCHADO: feio, desajeitado, desmazelado, descuidado (“Diga prá ela que eu náo quero aquele entronchado nem folheado a ouro!”).
ENTRONCHADO: estragado, quebrado (Esse radinho tá todo entronchado!”).
ENTRUDO: brincadeira típica do carnaval, onde as pessoas saiam às ruas atirando água, goma, farinha de mandioca e de trigo e outros produtos nas pessoas. OBS. Embora a brincadeira existe até hoje, a expressão é quase extinta. Só poucos idosos a utilizam.
ENTUFADO: trombudo, de cara feia, de cara fechada (“Zé só vive entufado!”).
ENTURIDO: com prisão de ventre; sem conseguir defecar; com o cu entupido (“Estou enturido depois das jaboticaba!”).
ENXAVIDO: de má aparência; descolorido; sem vida (“Essa moça ta tão enxavida!”).
ENXAVIDO: sem gosto; insípido; com sabor diferente do normal – entre insosso e com menos açúcar (“As manga desse pé são toda enxavida!”). CURIOSIDADE: tal expressão tem o mesmo significado que desenxavido.
ENXERIDO: metido, que se intromete no que não lhe diz respeito, cabido (“Esse enxerido chega aqui e se embioca nos quartos sem ordem de ninguém!”).
ENXERIDO: galanteador, insinuante, que se bota, que dá em cima dos outros (“Lá vem aquele enxerido que não pode ver mulé!”).
ERRADO: marginal; que pratica atos ilegais ou não apreciados pela sociedade (“Tico é cabra errado. Doido é quem se acompanha com ele!”).
ERRADO: sem pernas; sem chão; envergonhado (“Fiquei todo errado quando ela falou isso na frente de pai!”).
ESBREGUE: carão, dar um batido, chamar a atenção (“Ciça deu um esbregue que ele ficou todo errado!”).
ESCAFUNCHAR: escavacar, procurar algo, revirar, cavoucar o chão (“Escafuncha a gaveta que eu acho que você encontra as fota!”).
ESCANCHAR: montar, subir, trepar (“Eu escanchei no lombo do burro e risquei!”).
ESCANCHAR: aproveitar da bondade de outrem e se prevalecer (“Ela se escanchou na casa da amiga e dizem que até dando ordem está!”).
ESCAPANDO: sobrevivendo; driblando os problemas da vida (“É, meu fii, o véi t aqui escapando!”).
ESCAVACAR: o mesmo que escafunchar (“Eu escavaquei toda a terra e não encontrei o anel!”).
ESCAVACAR: curiar, investigar, pesquisar (“Ela só vive escavacando a vida alheia!”).
ESCROTO: escraxado, irreverente, corajoso, audacioso (“Esse escroto começou a dançar no meio do povo!”).
ESCULHAMBAÇÃO: esporro, carão, xingamento; dar um batido; dar uns esbregues; fazer um espalhafato (“Eu dei uma esculhambação boa nele!”).
ESCULHAMBAÇÃO: bagunça, espalhafato, desarrumação, desordem (“Essa casa é uma esculhambação da gota!”).
ESCULHAMBADO: quebrado, estragado, desmantelado (“O telefone tá todo esculhambado!”).
ESCURRAÇAR: dar uma esculhambação, xingar, dar um esporro (“Ele disse que vai escurraçar ela!”).
ESSE MENINO: OBS. É um tipo de vocativo usado para referir-se a alguém cujo nome é desconhecido (“Venha cá esse menino, apanha essa moeda prá mim!”).
ESMERIL DA FRANÇA: impingi, guloso, comilão, forrageira, que traça tudo; lambais; morta-fome (“Esse caba prá trabalhar é uma criança, mas prá comê é um esmeril da França!”).
ESMIGAIÁ: despedaçar, quebrar em pedacinhos, esfarelar (“Você tem que esmigaiá bem as sementes e fazer o chá!”).
ESMILINGUIDO: caindo aos pedaços, estragado (“Minha mala tá toda esmilinguida!”).
ESMILINGUIDO: amarelo-empalemado, sem vida, sem tipo; tisgo; guenzo; pálido (“Esse esmilinguido que é o namorado dela?”).
ESMULAMBENTO: mulambento, maltrapilho, mal-vestido (“Esse menino só anda esmulambento, dá até raiva!”).
ESPAÇOSO: sem desconfiômetro; cheio de liberdade em casa alheia; que se abanca em qualquer lugar, como se estivesse em casa (“Cara espaçoso aquele, nem dê cabimento!”).
ESPALHAFATO: bagunça, desarrumação, esculhambação (“Tá um espalhafato danado nesse quarto!”).
ESPALHAFATO: esporro, xingamento, carão (“Você pare senão eu faço um espalhafato que não sobra ninguém prá contar a história!”).
ESPALHAFATOSO: empriquitado, ornamentado com exagero, enfeitado ao estilo perua ou brega (“Ela estava muito espalhafatosa na festa de 15 anos!”).
ESPANAVIADA: espritada, toda sacudida, cheia de repentes (“Vôt! que menina espanaviada!”).
ESPARRAMO: boi-de-fogo; cu-de-burro; esculhambação (“Ela fez um esparramo com o marido na festa, foi o maior escândalo!”).
ESPAUTA: espátula (“Traga a espauta mó d’eu ajeitá a parede!”). OBS. Trata-se de uma epêntese muito interessante.
ESPERANÇAR: ter esperança, acreditar, confiar, imaginar (“Eu esperancei que um dia ele voltaria, mas vi que não adiantou nada eu esperançar!”).
ESPICHE DAQUI: sáite; cai fora; cape o gato; pegue o beco; espiche o gato; faça carreira; pique a mula; cisque; risque; pique daqui; meta os pés; pinique daqui; estire daqui (“Espiche daqui, seu cabra safado!”).
ESPICHE O GATO: o mesmo que espiche daqui.
ESPILONCADO: murcho, cheio de péias, flácido (“Coitada dessa póbi, tá com os peito tão espiloncado que dá prá butá nu bolso!”)
ESPINHAÇO:: costa, coluna, espinha (“Tô com o espinhaço quebrado de tanto fazer força!”).
ESPINHO DE BANANEIRA: bicho de pé (“Renha qu’eu tiro esse espinho de pé de tu!”). OBS. Trata-se de uma curiosa expressão onde o surrealismo presente faz crer que bananeira tem espinho. Os mais velhos costumam dizer que não é bom andar descalso para não pegar espinho de bananeira.
ESPÍRITO ZOMBETEIRO: excessivamente falante, brincalhão com as pessoas; frechado; com todo o gás, como que tomou água de chocalho (“Baixou o espírito zombeteiro em Dulce!”)
ESPORRO: carão, xingamento, esculhambação (“Vou dar um esporro naquele cabido!”).
ESPRAGATADO: amassado, pisoteado (“Espragatarm toda a caixa que eu ia usar!”).
ESPRITADO: danado, arteiro, bagunceiro, com o pitoco ligado (“Não traga aquele menino espritado aqui, por favor!”).
ESPRITADO: espanaviado, todo sacudido, cheio de repentes, (“Ela é muito espritada, nem combina com ele!”).
ESPUMANDO PELA BOCA: virado num bicho; virado no diabo; virado numa porra; com ódio; com a bixica lixa; dando a piula; dando bravo (“Ele tá espumando pela boca depois que soube do chifre que a mulher lhe botou!”).
ESTALECIDO: quando a pessoa está com gripe tipo coriza e espirrando muito (“Faça um chá pro estalecido de João!”).
ESTATALADO: olho aboticado, olho arregalado (“Ele ficou com o olho estatalado quando me viu!”).
ESTATALADO: que caiu de rogero, que caiu com todo o corpo (“Quando eu vi estava estatalado no chão!”).
ESTIRANDO O OLHO: olhando com muito interesse – ou de desejo, curiosidade ou ódio – depende do contexto (“O seu João da bodega estirou o olho praquele pitéuzinho o tempo todo!”).
ESTIRAR: ir, pegar o beco, riscar; pegar o beco; cair fora; espichar o gato; picar a mula; meter os pés; pinicar (“Eu não sabia disso. Vou estirar agora pra lá!”).
ESTOMBO: estômago (“Eu tô cumas facada no estombo derna dantonti di minhã!”).
ESTOPOR BALAIO: porra, caralho, merda (“Isso é um estopor balaio da porra!”). OBS. É um tipo de xingamento com muita raiva.
ESTOPORO: indigestão seguida de morte (“O pai dela morreu de estoporo na lagoa!”). OBS. Os antigos têm pavor a idéia de comer e mergulhar em rio. Eles acreditam que todos os órgãos do corpo entram em convulsão e estouram. É os estoporo.
ESTRIBADO: muito rico, estrumado (“Ela só tá com esse caboré estribado mó du dinheiro!”).
ESTRIBUCHANDO: debatendo-se no chão, esperneando-se (“Ela tá lá se estribuchando toda!”).
ESTRUMADO: estribado, muito rico (“Eta veião estrumado esse!”)
ESTRUMADO: de físico atraente e sensual (“Tá estrumada toda essa bichona... ah! eu com ela!”).
ESTRUPÍCIO: bruaca; mulher feia; baranga (“Quem é esse estrupício que chegou?”).
ESTRUPÍCIO: esculhambação; desmantelo; grande desarrumação (“Fizeram um estrupício da mulesta na cozinha!”).
EU HÉIN: cai fora, vôt, diabo é (“Ele pediu prá eu experimentar maconha... eu héim!”).
EU CEGUE!: eu duvido, eu aposto (“Eu cegue se você pagou ela!”).
EU CEGUE!: eu juro, eu dou a minha palavra (“Eu cegue que eu paguei!”).
EU CEGUE DA GOTA SERENA: OBS. Tal expressão designa uma colocação feita com convicção, com um tipo de certeza, por exemplo: “Eu cegue da gota serena se aquele caba não vaza por trás!” ou: “Eu cegue da gota serena se eu não esmigaiá a cara dela con’ela chegar!”).
EVELOPE: envelope (“Vó, me dê um evelope mó d’eu bota a carta!”).OBS. É um tipo de epêntese muito comum, inclusive já ouvi professores assim falando, inclusive uma que já ocupou por duas vezes uma respeitável pasta no município. Com certeza isso dá mais vida ao regionalismo.

LETRA “F”
- Eu fiquei besta com a palhaçada de Neide.
- O que foi, mulé?!
- Ela tá furunfando com o menino do viveiro.
- Ah! Descobriu o Brasil... aquilo é uma fuleira de carteirinha!
- Inda por cima folote!
- E o pobre do marido não sabe da frangagem dela.
- Mas dizem que ele dá o frande também!
- Vôt! Mulé, que absurdo, o caba é fresco é?
- Não! Só dá o fiofó!!!
- Que friviado da mulesta!



FAÇA CARREIRA: cai fora; sáite; espiche daqui; cape o gato; pegue o beco; espiche o gato; pique a mula; cisque; risque; pique daqui; meta os pés; pinique daqui (“Faça carreira daqui, seu galado, senão tu se arrepende!”).
FACHIAR: hábito típico dos nativos litorâneos, no qual faz-se um cesto de arame, pendura-o numa vara comprida, enche-o com pedaços de pneu velho e coloca fogo. A peça serve para iluminar a noite nos arrecifes, nos quais se apanha os aratus. Isso é fachiar.
FANIQUITO: inquietação, espritado, muito ativo, com o pitoco ligado (“João tá com o faniquito hoje!”).
FARDA: uniforme escolar (“Painho já comprou a minha farda!”).
FARINHA DE SEMENTE DE JERIMUM: iguaria feita do miolo da semente de jerimum torrada e pilada. OBS: Serve-se pura.
FARNIZIM: cansaço nas pernas (“Tô com um farnizim danado!”).
FAROFA D’ÁGUA: farofa feita com farinha de mandioca, manteiga, sal, água fervente e coentro. Faz-se da seguinte maneira: coloca-se numa vasilha água fervente, manteiga, coentro e sal, mexe-se bem e vai acrescentando, aos poucos, a farinha – de maneira que vá ficando um pouco emboloada e levemente grudenta. OBS. É considerada uma das farofas mais deliciosas da região.
FAROFA DE BANANA VERDE: iguaria feita com banana verde cozida e coco rapado, os quais são pilados até ficar semelhante a uma farinha. A partir desse ponto, penera-se e acrescenta sal.
FAROFA DE COCO: iguaria feita com coco rapado, pilado com farinha de mandioca e sal a gosto.
FARRAMBAIO: burundanga, uruvaio, coisa velha, munturo, quinquilharia, breguesso (“Nessa casa sá tem farrambaio!”).
FASTIADO: com fastio; sem apetite (“O coitadinho ta tão fastiado!”).
FASTIO: sem apetite (“Coma, menino, não dê gosto a fastio!”).
FATO: vísceras de boi: tripa, bofe, bucho, livro (“Comi fato feito forrageira!”).
FAÚLA: variedade de miúdos do boi vendida misturada, na qual se encontra: pedaço de úbere, tripa, bofe, bucho, livro, etc. (“Não se esqueça da minha faúla na feira!”).
FECHAR A CARA: ficar trombudo, com a cara feia, encorujado; chateado, com a cara deste tamanho (“Ele fechou a cara quando viu a ex-mulher!”).
FECHAR O BELÉM: parar de comer, dar-se por satisfeito (“Por hora eu vou parar de comer!”).
FEDEGOSO: planta de folhas arredondadas e felpuda, cujo sumo, segundo a medicina popular, cura algumas doenças como o “ramo”.
FEITINHA-DE-CORPO: expressão muito usada entre mulheres para se referir às mocinhas que têm o corpo muito bem feito - tipo violão (“Amália é feitinha de corpo toda!”).
FEITIO: costume, hábito, estilo (“Não é do meu feitio falar pelas costas como tu!”).
FEITO: igual, semelhante, tal qual (“Ele come feito um bicho!”).
FERRO DE COVA: ferramenta de trabalho semelhante a uma espátula, porém grande e com o cabo do tamanho de uma foice. É usado para cavar buracos. (“Kêde o ferro de cova que estava no quartinho?!”).
FILÉ: moça nova e bonita; bichona (“Chegou um filezinho da hora de Natal!”).
FILHO DA LUA: pessoa muito branca (“Aquele filho da lua casou com um tição daquele?! Vôt!”).
FINA: bem magrinha; pouquinha (“Taciana é tão fininha!”)
FIOFÓ: ânus, furico, boga; roque mi clei; frande; aro; oio de porco; fundo; às de copas; anel de couro; roscófe (“Pegue pro seu fiofó!”).
FIQUEI BESTA: surpreendi-me, fiquei admirado (a), nem acreditei (“Eu fiquei besta com a covardia dele!”).
FIZ CARREIRA: corri, capei o gato, peguei o beco, meti os pés, risquei; saí; fui embora; pipoquei; cisquei; piquei a mula; piniquei; espichei o gato; piquei dal[i; piniquei dalí (“Quando eu vi a confusão, fiz carreira!”).
FIXI: fornida, maciça, de grande durabilidade, de qualidade (“Tem que botar uma porta fixi por causa dos ladrões!”).
FLORESTA: extenso pedaço de terra existente em Nísia Floresta, o qual tem início na propriedade do Sr. Joel Paulino e termina nas terras da D. Joaninha dos Padres. OBS. Essas terras estão na propriedade que no passado foi o famoso Sítio Floresta, onde morou a escritora cujo nome foi dado a esta cidade.
FOBÓ: forró (“Ele saiu pro fobó!”).
FOFOCA: alegria, muita conversa; quando um ambiente está muito divertido e com muita gente ccnversando (“Tá a maior fofoca na casa do seu Pedro. É que a filha dele chegou do Rio!”).
FOGO-DE-MUNTURO: fogo-de-palha, tempestade em copo d’água, fazer um cu-de-burro sem motivo e depois deixar tudo prá lá como se nada tivesse acontecido (“Isso é fogo-de-munturo; é só ele estalar o dedo que ela vai correndo com o rabo entre as pernas!”).
FOI E NÃO FOI: de vez em quando, uma vez por outra (“Foi e não foi eu visito o abrigo dos velhos!”).
FOI MAL: OBS. É uma forma usada por adolescentes para pedir desculpas por uma colocação ou situação, por exemplo: (“Foi mal, eu pensei que não tinha ninguém no banheiro!”).
FOI PODRE: foi horrível, decepcionante, não prestou (“Foi podre a briga deles!”).
FOI PODRE: foi engraçado demais (“Quando ele começou a falar piada, foi podre, ninguém se segurou!”).
FOLE: velho demais, só o pito (“O meu sofá tá só o fole!”).
FOLOSADA: que está folote, frouxo; gasto; rombudo (“Essa cueca tá tão folosada!”).
FOLOSADA: que tem a vagina muito folote, com o priquito muito usado; laxo (“Niquita tá toda folosada!”).
FOLOTE: largo demais, muito frouxo, muito mole (“Esse parafuso não encaixa mais aí; tá todo folote!”).
FOLOTE: mulher que transou com muitos homens; laxo (“Nenhum homem anda mais com ela; a bicha tá toda folote!”).
FORNIDA: fixi, maciça, muito resistente, de grande durabilidade (“Essa bacia fornida ainda é do meu casamento; tem trinta anos e está perfeita!”).
FORNIDO: robusto, cheio de carne (“Meu filhão tá é fornido!”).
FORRAGEIRA: comilão, guloso, que traça tudo o que é comestível, esmeril da França; impingi; lambais; morta-fome (“É só aquele forrageira aparecer por aqui que a geladeira fica vazia!”). OBS. É uma alusão a um maquinário agrícola que tem esse nome, o qual tritura capim em segundos.
FOTO: fota, fotografia (“Tenho que ir em Baltazar tirar um foto!”). OBS. Muitos nativos masculinizaram o substantivo feminino fotografia, denominando-o “o foto”. É falado tanto por crianças como por adultos. O mesmo ocorre com a palavra ‘tomate’. Veja: FOTA.
FOTA: foto, fotografia (“Eu fiquei tão xaboqueira nessa fota, nem parece eu!”). Muitos nativos também falam “a fota”.
FRANDE: ânus, bunda, furico, fiofó; oio de porco; frande; fundo; boga; roque mi clei; anel de couro; aro; roscófe (“Ai meu frande, quem foi o frechado botou esse espinho na cadeira?!”)
FRANDE: zinco, lata (Esse armário é todo de frande!”).
FRANGAGEM: frescura, provocar uma pessoa em caráter de brincadeira, fuleragem (“Sai prá lá com as suas frangagens seu porra!”).
FRANZIDO: ânus; boga; fiofó; roque mi clei; furico; ás de copas; oio de porco; fundo aro; roscofe (“Defequei tão duro que meu franzido tá ardendo!”).
FRANZINO: magrinho, miudinho, sibito baleado (“Ele é muito franzino prá pegar esse peso!”).
FRECHADO: brincalhão, inventador, espritado, que mexe com todos, com o espírito zombeteiro (“Zé é muito frechado que chega a incomodar!”).
FRECHADO: excomungado, fuleiro, filho-da-puta (“Eu acabo com a vida desse frechado!”). OBS. Podemos perceber pela distinção dos significados a questão do contexto em que tal palavra é usada. Isso ocorre frequentemente com muitas outras.
FRECHANDO: caningando, incomodando, chateando (“Ninguém gosta dele porque vive frechando os outros!”).
FRESCAR: provocar uma pessoa em caráter de brincadeira ou não; ficar frechando; com o espírito zombeteiro (“Deixe de frescar com a cara da gente!”).
FRESCO: gay, baitola, homossexual (“Dizem que ele deu prá fresco!”).
FRIENTO: friorento, que sente muito frio (“Eu sou tão friento!”).
FRIORENTO: friento, que sente muito frio (“Dê um lençol praquele fiorento!”).
FRISO: grampo de cabelo (“Cadê meus friso?”).
FRIVIADO: gaiofança, grande animação,converseiro, agitação, grande movimento (“Tá um friviado danado na bodega do João!”).
FRIVIADO: desarrumação, desordem (“Essas gavetas de Cida é um friviado da gota!”).
FUÁ: cabelo muito cheio, pichaim (“Prá esse fuá não dá jeito nem juá!”).
FUDEROSO: o bixão, o rei da cocada preta, o máximo (“Nem mexa com ele que o caba é fuderoso!”).
FUITI: pequeno peido que ao ser solto deixa expelir uma pequena quantidade de fezes (“Ai meu Deus! Soltei um fuiti!”). OBS. Pronuncia-se como tivesse acento agudo na vogal “U”.
FULEIRO: emprestável, filho da puta; safado; canalha (“Aquele fuleiro vai ver o que é bom pra tosse!”).
FULEIRO: material fraco; coisa de quinta categoria; produto falsificado; capenga (“Sapato véi fuleiro, comprei ontem e veja só o laxo!”).
FULEIRA: mulher vadia, rapariga; puta (“Eu não quero você com aquela fuleira!”).
FUMANDO NO CACHIMBO: bravo, com a piula, dando a porra, fora de si, com ódio (“Sua mãe vem alí fumando no cachimbo!”).
FUMANDO NUMA QUENGA: o mesmo que fumando num cachimbo.
FUNDO: furico, fiofó, frande, boga, roqui mi clei; oio de porco; fiofó; roscófe; às de copas; anel de couro; aro (“Pegue pro seu fundo!”).
FURAR O COURO: ter relação sexual com mulher, transar, furunfar, copular (“Foi lá em Maria Boa que ele furou o couro pela primeira vez!”).
FURDUNÇU: gaiofança, animação, farra, fuzarca, friviado, latumia; ruge-ruge; movimentação de gente (“Eita furdunçu bom da mulesta dos cachorro!”).
FURDUNÇU: baixaria, esculhambação, armar o barraco, fazer um cu-de-burro (“Ele fez o pior furdunçu, dizem que até chamaram a polícia!”).
FURICO: frande, fundo, fiofó, boga, roqui mi clei; oio de porco; às de copas; anel de couro; roscófe (“Eu tô com um cumichado no furico, acho que é verme!”).
FURTUM: seiva da cebola, a qual provoca ardência nos olhos (“Mulé, não lave a cebola, pois tira todo o furtum que é bom!”).
FURUNFAR: ter relação sexual, furar o couro, copular (“Dizem que ela vai pras cana furunfar com eles!”).
FUXICO: tipo de artesanato feito com retalhos, os quais são costurados em forma de círculo e posteriormente unidos, dando origem a colchas, fronhas, almofadas, peças de roupa e etc.
FUZARCA: bagunça, agitação, farra, friviado, furdunçu, gaiofança; ruge-ruge; latumia (“Essa fuzarca não vai parar hoje não é?!”).


LETRA “G”

- Vovó, aquele gaiatinho do menino de Maria está aí fora pedindo um gorpinho d’água, todo gangento! Agora deu!
- Mulé, dê água pro bichim, tá um calô medonho! O pobre parece um galeto sem colorau!
- Dê a gota serena e eu não do! Olha lá o galado fazendo gachimonha prás meninas na rua!
- Mulé, deixa de besteira e dê água pro menino, logo ele ganha o mundo!
- Toma a água gabiru e risque daqui! Eu grele se eu lhe der água outra vez!
- Nossa Ritinha, você tá tão gasguenta, fique com a sua água!”.



GABIRÚ: rato bem grande (“Os gato correro cum medo dus gabirú, vot!”).
GABOLA: metido, pabulador, amostrado, que tem mania de superioridade (“Ele é gabola demais com as meninas!”).
GACHIMONHA: gaiatice, marmota, munganga, gestos feitos com o intuito de provocar (ou não) alguém (“Menino, deixe de gachimonha, que coisa feia!”).
GAGAU: mingau (“Mainha já vai dar o gagau, tá bom?!”).
GAIATO: brincalhão, divertido, que fica frescando (“Eu não sabia que você era tão gaiato!”).
GAIATO: entrão, metido, que se mete onde não é chamado (“É bom dá uns tranca porque ele é muito gaiato, daqui é pouco se embioca nos quartos!”).
GAIATO: cabido, enxerido, que se bota pros outros com malícia e galanteio (“Deixe de ser gaiato que eu já tenho namorado!”).
GAIOFANÇA: farra, bagunça, furdunçu, barulheira de gente; friviado; ruge-ruge; fuzarca; latumia (“Era a maior gaiofança na madrugada!”).
GALA: esperma (“A calça dele tá suja de gala!”).
GALADO: sujo de gala
GALADO: canalha, frechado, filho da puta (“Eu quebro a cara daquele galado!”).
GALALAU: muito alto, vara de bater pecado (“Quem é aquele galalau?”).
GALETO SEM COLORAU: pessoa excessivamente branca (“Esse galeto sem colorau não pode ficar muito tempo no sol!”).
GALO CEGO: virado um bicho, com muito ódio, com a piula, fumando num cachimbo; muito bravo; dando a porra (“Ele teve aqui igual a um galo cego atrás de você!”).
GAMBIARRA: amante, rapariga de alguém (“Aquela é só a gambiarra dele!”).
GAMBIARRA: extenso fio elétrico, portátil, com vários bocais e lâmpadas para iluminar eventos ao céu aberto, onde não existem postes. (“Cadê a gambiarra da igreja?”).
GANJENTO: criança birrenta que incomoda muito, menino sujo e chorão; menino buchudo (“Levem esse ganjento daqui que meus ouvido não tá prá alugué!”).
GANGENTO: ciumento com pertences; que faz questão de tudo (“Menino gangento! Ele não quer cumê seus brinquedo não!”).
GANGENTIA: cuidado excessivo com os próprios pertences; ciúme doentio dos bens (“Deixe de gangentia com essas bolsa veia bufenta! Me dê uma!”).
GANHAR O DIA: lucrar, obter êxito, conseguir algo muito bom (“O gringo comprou tudo assim que apareci na praia! Ganhei o dia ”).
GANHAR O MUNDO: pegar o beco, riscar, ir embora, sair, capar o gato; vadiar; fazer carreira; pipocar; ciscar; meterv os pés (“Quando eu dei fé ele já tinha ganhado o mundo!”).
GÁS: certos derivados de petróleo, como: querosene e óleo díesel utilizados em candeeiros. OBS. Não tem relação alguma com gás de cozinha.
GÁS: energia, muita disposição, estar com tudo (“Ele hoje tá com todo o gás!”).
GASGUENTO: que fala muito, que tomou água de chocalho; que parece um badalo; matraca; papagaio (“Lá vem aquele gasguento, agora o sossego acabou!”).
GASGUENTO: de voz feia (“Eu tô gasguenta por causa do estalecido!”).
GASGUITO: criança que grita fino e estridente (“Quando aquele menino gasguito chega, haja ouvido!”).
GENTINGA: minúsculas moscas (ou mosquitos) que sobrevoam aos montes sobre frutas excessivamente maduras, panos úmidos, cú de cachorro e certos lixos (“Tá uma gentinga danada aqui na cozinha!”).
GORDA: vômito aguado, amarelado e amargoso (“O coitado tá vomitando só uma gorda!”).
GORDA: uma demão de tinta (“Passe só uma gordinha de tinta!”). OBS. Pronuncia-se como se tivesse acento na voga “Ó”.
GORPADA: cusparada, expelir grande quantidade de líquido pela boca (“Vovô deu cada gorpada no chão, acho que não é cuspe, isso é vômito!”).
GORPINHO D’ÁGUA: pouquinho d’água, golinho d’água, copinho d’água (“Vovô tá pedindo um gorpinho d’água!”). OBS. Pode ser usada a expressão “gorpinho” para referir-se a outros líquidos como: leite, café, etc.
GOTA:OBS. Tal expressão tem uma diversidade de sentidos. Pode ser usada para designar admiração, raiva, xingamento ou para referir-se a uma coisa em excesso: “Eita gota, o que foi isso?” “Tô com uma dor de dente da gota!” “Papai tá com a gota atrás de você!”.
GOTA SERENA: tem quase o mesmo sentido de “gota”. A diferença é que a expressão “serena” serve para dar mais ênfase a “gota”.(“Hoje eu tô com a gota serena!”).
GOTO: ato de engolir a saliva, movimento que ocorre no interior da garganta no momento que a saliva desce goela abaixo (“ Eu tô com tanta fome que chega tô dando o goto vendo a comida!”).
GRAXA: gordura animal, a qual se forma no fundo das panelas onde se preparam carnes guisadas (“Eu gosto mais da graxa do que da própria carne!”).
GRELE: designa algo que é dito sem admitir dúvidas; uma afirmação cheia de convicção e um misto de certeza (“Eu grele se não foi ela que roubou seus ané!”). OBS: pronuncia-se como se tivesse um acento agudo no primeiro “e”.
GRELEI: ter uma sensação súbita de medo; estremeci; (“Eu chega grelei quando quebrei o copo!”).
GRELHO: clítoris, ponto “g” (“Ele adora um grelho de menininha!”).
GRENGRENA: troço, coisa errada, coisa ruim (“Essa grengrena só me faz raiva!”).
GROLADO: pirão de peixe fresco (“Menino, você comeu grolado, não vá pro rio que pode lhe dar estoporo!”). OBS. Trata-se de um costume antiquíssimo, no qual os pescadores preparam o grolado às margens do rio, assim que pescam os primeiros peixes. É a refeição que dará sustança para passarem o dia inteiro na pesca.
GROSSO: gordo, muito encorpado, forte (“Paulo ficou grosso de uma hora para outra!”).
GRUDE: estar sempre junto com alguém, na cola, muito junto, encangado; que não larga do pé; carne e unha; azogue; pegajoso (“Esses doi é um grude só!”).
GRUDE: iguaria preparada com coco rapado; goma e sal. Mistura-se tudo e coloca-se numa forma untada para assar. Normalmente é preparado no fogão à lenha, mas pode também ser à gás. OBS: os antigos ainda preparam o grude na folha de bananeira, ao invés da forma. Dizem que o gosto é melhor.
GUENZO: pálido, esquelético, amarelo, amarelo-empalemado; tisgo; esmilinguido; com feições doentias (“Ele tá muito guenzo, precisa comer coisa com sustança!”).
GUINÉ: pequeno inseto que ferroa causando dor insuportável (“Ai que dor! Um guiné me picou!”).
GUINÉ: galinha-d’Angola, uma espécie de galinha (“Adoro guiné torrada!”).
GURGUMIO: palito, pinguelo situado na garganta (“Será que esse comprimido passa no meu gurgumio?”).
LETRA “H”
- Mãe, venha ver uma coisa, olha só a vó e o vô de Dona Noquinha se beijando na boca!
- Hum rum!
- Eles é que estão certos, feio é tu que vive beijando na boca dos cachorros no quintal!
- Hum rum!!!




HUM RUM: “é, fazê o quê?!”; “deixa pra lá!”; “tô nem aí”; “isso não me diz respeito!”; “bobagem!”; vôt!; “que besteira!”. OBS: : expressão usada em vários contextos, tendo um “quê” de deboche. É completamente nasal.
LETRA “I”
- Quando eu me casei com essa imagem ela era uma mulé toda impiriquitada, toda invocada! Hoje a pobre é toda intriçada de dor, só vive com a iracunda. Quando chega o inverno a coitada piora, fica impando pelos cantos. O médico lhe proibiu um monte de coisas, mas ela parece impingi. Ô mulé isprivitada!!! - Homi, deixe de inventiva!



IDÉIA DE JIRICO: idéia sem nexo, sem fundamento, colocação sem sentido (“Que idéia de jirico é essa? Tá pensando que São Paulo é Nísia é? Vai nessa!”).
IMAGEM: pessoa gente (“Bom, eu vou lavar a imagem!”).
IMBINGANDO: movendo o quadril para frente e para trás, mengando, fazendo gesto de cópula (“Esse cabido fica imbingando nas meninas!”).
INFELIZ DA COSTA ÔCA: xingamento (“Esse infeliz das costa ôca não faz nada que eu peço!”). OBS. Também pode ser usada como brincadeira, dependendo a circunstância, por exemplo: “Onde tu tava infeliz da costa ôca?!”).
IMORAL: absurdo, fim do mundo, era só o que faltava (“É imoral essa rua toda escura no centro da cidade!”).
IMPANDO: espécie de gemido solto pela boca e nariz, fruto da respiração rápida quando a pessoa está fazendo muita força ou um serviço desgastante (“O coitado chega tá impando!”). OBS. É também fruto de tique nervoso.
IMPINGI: guloso, que traça tudo, comilão, forrageira, esmeril da França; morta-fome; lambais (“Essa impingi comeu todo o cumê que eu deixei na geladeira!”).
IMPRIQUITADO: enfeitado, apapagaiado, adornado excessivamente (“Lá vai ela toda empriquitada!”).
INCHADO: “de vez”, quase maduro, estado de desenvolvimento de uma fruta entre verde e maduro (“Essas gioabas estão inchadas!”).
INHACA: fedor, catinga, mal cheiro (“Esse homi só fede a inhaca!”)
INCHINCADA: chamar no eixo, dar uma lição de moral, carão; dar uma esculhambação; dar um esporro; dar um batido; chamar a atenção (“O dia que você der uma inchincada nessa menina ela deixa de ser atrevida!” – Bertoldo Marques de Carvalho - Centro)
INTIRIÇADO: cheio, com bastante, repleto (“Cumade, eu tô toda intiriçada de dor!”).
INVENTIVA: invencionice, cavilação, criar coisas sem necessidade; criar desculpas esfarrapadas (“Deixe de inventiva suas durmente!” – Natália do Nascimento - Centro).
INVERNO: chuva (“Toda era de quatro o inverno é bom!”). OBS. Em caráter de curiosidade vale salientar que tal expressão foge totalmente da significação que tem no Sul e no Sudeste, onde designa frio intenso e geada.
INVOCADO: bem apessoado, bonitão, bem arrumado (“Olha só como ela tá invocada hoje!”).
INVOCADO: cismado, desconfiado, com o pé na frente e o outro atrás (“Esse menino é invocado todo, nem fale com ele!”).
IR AQUI: sair, retirar-se, ir para outro lugar (“É, até minhã, deixa eu ir aqui!”). OBS. Trata-se da inversão do sentido dos advérbios, onde é dito “aqui” por “alí”.
ISOLA: vira essa boca prá lá OBS. É uma maneira de refutar uma colocação que não causou agrado. Normalmente bate-se a curva dos dedos (com a mão fechada) numa madeira ao mesmo tempo que diz essa expressão. É uma superstição.
ISPRITADO: muito ativo, inquieto demais, com o pitoco ligado (“Não mexa com esse menino espritado!”).
ISPRIVITADO: é o mesmo que ispritado
ISTRUÍ: desruir, estragar, esbanjar, botar na beia; deixar empolado (“Menino, não istrua o cumê!”).
ISONOR: isopor (“A professora pediu dois isonor!”).
LETRA “J”
- Ciço vem ver Tonho trepado no jirau! - - Vôte! Que menino jegue! Tá de terno xadrez!
- Deixa de ser jumento, num tá vendo que ele tá indo pra quadrilha!
- Coitado desse rapaz, dizem que nenhuma menina fica com ele.
- Mas por quê? - Dizem que ele é jegue! - Por isso que ele só vive jururú! - Já prestou!




JABURU: mulher muito feia (“Quem diabo quer um jaburu da mulesta daquele?!”).
JÁ PRESTOU: esteve bom, mas não está mais OBS. Expressão muito usada quando a pessoa se vê numa situação em que algo de súbito aconteceu e lhe desagradou. Usa-se também quando surge alguém que não foi bem vindo
JEGUE: jumento, jirico, burro (“Vá de jegue que é mais rápido!”).
JEGUE: feio demais, brega, apapagaiado, malamanhado, esquisito (“Vôt! Quem é esse jegue alí na mesa?”
JEGUE: pouco inteligente (“Seu jegue, São Paulo nunca foi Sul!”).
JEGUE: aloprado, que tem o pênis grande demais (“Nenhuma mulé fica com Zeca; dizem que o caba é um jegue da gota!”).
JEQUITAIA: molho de pimenta (“Um pirão de carangueijo é bom com bem muita jequitaia!”). OBS. Expressão antiquíssima.
JIA: espécie de grande rã comestível (“Nenéu adora jia!”).
JIA CHOCA: rã prenhe (“Corre que é jia choca!”).OBS. Dizem os nisiaflorestenses que quando a jia está choca ela corre atrás das pessoas e morde.
JIRAU: espécie de mesa de madeira, cujos pés ficam fincados no chão. Normalmente é usada para lavar e secar louça (“Menino leve a louça pro jirau!”).
JIRAU: mesa de madeira com os pés enterrados no chão, cuja lateral da parte de cima é toda emoldurada como se fosse uma caixa, onde se coloca terra adubada e se planta verduras. É uma horta suspensa (tipo palafita - estrado).
JIRICO: jegue, jumento (“Vai haver corrida de jumento no arraiá do sinhô Fídias!”).
JIRICO: pouco inteligente (“Isso é um jirico, não sabe de nada!”).
JUJUBA: doce industrializado, feito de goma. Normalmente é vendido em forma de bolinhas, cones ou rodinhas.
JUMENTO: OBS. Possui o mesmo significado de jegue.
JURURÚ: triste, deprimido, cabisbaixo, chateado; capiongo; combalido; amulengado; derrubado; tão assim; morocoxô (“Isabel tá tão jururú, o que foi?”).



LETRA “K”



- Zeca, kêde Ciço?
- Num seio.
- Kêde Pedu?
- Tomêm num seio.
- Kêde Rola?
- Tá no mundo!
- Vôte, tá todo mundo no mundo!!!



KÊDE: cadê (“Kêde Maria que nunca mais vi?”).



LETRA “L”

- Trabalhei igual lançadeira fazendo labirinto, foi assim que consegui comprar essa língua de terra!
- É, a senhora lavou a burra! - Também vendi muito lambedor bom, pra toda doença! - Pois é, eu tenho uma lapa de mulher, mas tão parada! - Bote a cabra prá trabalhar! - Só se for pra ela fazer uma latumia da gota. - Vôt! Cumpadi, um homem lascado como o senhor e ainda não tem moral! Vai vivê de laminha de côco? - Nem isso cumadi, tá tudo lambido lá, deu praga e agora dá capim na cintura. - Pois cumpadi eu vô sê bem franca, pelo que eu tô vendo, lambido aqui é só a cara do senhor!



LABIRINTO: tipo de renda feita em tecidos industrializados, como cambraia, linho ou algodão, os quais são submetidos a vários processos, alguns deles chegam a durar meses, tais quais as engenhosidades dos desenhos. O processo é o seguinte: Desfiar: cortar fio por fio tirando 3 linhas e deixando 5 no sentido do comprimento do tecido. Na largura tiram-se 4 linhas deixando-se 6. Prender a peça: fixar o tecido na grade com barbante, deixando-o bem esticado para facilitar o manuseio. Encher: colocar o modelo do desenho sob o tecido, este norteará todo o trabalho; contar as “maias” (buraquinhos). Esse segundo detalhe permitirá saber quantas vezes será possível repetir o mesmo desenho. Torcer: passar uma agulha com linha em volta de todos os buraquinhos com a finalidade de destacar a renda. Perfilar: (fala-se “prifilá”) dar acabamento em toda a peça e checar alguma imperfeição. Lavagem: retirar a peça e lavá-la com sabão neutro. Engomar: passar uma goma rala sobre o tecido ainda úmido. Após a secagem, corta-se as belotas (beiras). Está pronto.
LABROJEIRA: desajeitada, desarrumada, malamanhada, de qualquer jeito (“Essa labrojeira tá mais prá peniqueira que prá modelo!”).
LABROJEIRA: sebosa, fedida, mistura entre cabelo despenteado com malamanhada e suja (“Essa é uma doida, só anda assim, labrojeira, chega dá nojo!”).
LAMBADA: lamborada, surra, peia; cipuada; chicotada; reiada; surrôte (“Eu dei uma lambada boa que ele se aquietou!”).
LAMBAIS: guloso; comilão, forrageira, esmeril da França; morta-fome; impingi; que traça tudo o que é comestível (“Aquele lambais comeu tudo!”).
LAMBEDOR: remédio caseiro feito com açucar derretido (ponto de mel), no qual se acrescenta água e ervas diversas (dependendo a finalidade) deixando ferver um bom tempo. Normalmente é muito usado como expectorante, anti-gripal, antitussígeno e outras enfermidades.
LAMBIOLHA: lagartixa de parede, as quais costumam morar nos tetos das residências devido a luz próxima que lhes atrai insetos - seu prato predileto. (“Diabo de lambiolha infeliz, cagou no meu café!”).
LAMBIDO: desconfiado, com um pé na frente e outro atrás; encabulado; encabrunhado (“Ela chegou tão lambida, pois já sabia que eu sabia!”).
LAMBIDO: cabelo bem penteadinho como se um boi tivesse lambido (“Cabelinho lambido esse seu, vai prá onde?).
LAMBIDO: descampado, vazio ou com pouca coisa (“Eu achei o sítio tão lambido, parece a careca de Eugênio!”).
LAMBIOIA: o mesmo que lambiolha.
LAMBORADA: chicotada, cipuada, lambada, surra, peia (“Depois da lamborada o cabrinha ficou amuado na sala!”).
LAMBRECADO: melado de alguma coisa, todo manchado de algum produto (“Quando o mecânico deu fé o bebê tava lambrecado dos pé a cabeça!”).
LAMINHA-DE-COCO: polpa do coco verde, remela do coco novo, carne do coco verde (“Eu adoro laminha-de-coco!”).
LANÇADEIRA: excessivamente, demais, com exagero (“Eu aqui trabalhando igual a uma lançadeira, e tu no mundo, atrás de macho!”). OBS. A expressão “lançadeira” tem um “quê” de máquina ou animal que é pau para toda obra, ou algo que traça tudo.
LANGANHO: pelanca e toda a carne mole que se tira do frango quando está tratando-o para cozinhá-lo (“Paulo, enterre os langanho da galinha módi os gato num sarrabuiá no quintá!”).
LANGANHO: péia, pele flácida de pessoas muito idosas; pelanca - normalmente acomete o pescoço, a parte inferior dos braços, barriga e ancas (“Depois que Neusa fez a plástica ficou sem nenhum langanho!”).
LANGANHO DE TERRA: pequeno pedaço de terra, tripa de terra; tira de terra (“Eu herdei de papai só aquele langanho, não cabe nem uma casa!”).
LAPA: coisa avantajada, tamanho acima do comum (“Rose tem cada lapa de cocha!”).
LAPADA: surra, peia, lambada; encorada; cipuada; lamborada (“Fique quieto prá não levar mais lambada!”).
LAPADA: uma boa dose de cana (“Dê-me uma lapada da boa!”).
LÁPIS: caneta esferográfica, caneta escolar tradicional (“Alguém tem um lápis aí?”). OBS. Curiosamente a maioria das pessoas de Nísia Floresta e cidades vizinhas dizem lápis por caneta.
LAPISEIRA: apontador de lápis.
LÁPIS-GRAFITE: lápis tradicional escolar de madeira com grafite (“Ele quebrou o meu lápis grafite!”). OBS. Para diferenciar o lápis-grafite do lápis (caneta), basta acrescentar o complemento “grafite” logo à frente.
LASCAR: complicar, reiar, fazer uma coisa ruim; prejudicar (“ Eu vou lascar a vida daquele canalha!”).
LASCAR: arremessar a mão em algo, esbofetear, danar a mão (“Eu vou lascar a sua cara!”).
LASCADO: liso, na miséria, reiado (“Esse cara é um lascado, não vai te pagar nunca!”).
LASCADO: complicado, com sério problema (“Ele tá lascado com o banco!”).
LASCOU: foi mal, se reiou; se deu mal (“Quando o coitado caiu teve um gaiato que gritou: - “Lascou!”).
LATA: rosto, cara (“Mulé da lata lambida, vot!”).
LATUMIA: algazarra, furdunçu, barulhada de gente, gritaria, gaiofança; friviado; ruge-ruge (“Deixem de latumia aí no quarto, magote de menino réi nojento!”).
LAVEI A BURRA: obti muito sucesso, saí ganhando, levei lucro; venci; me dei bem; levei a melhor; consegui o que quis (“Eu lavei a burra com a troca do carro!”).
LAXO: rasgo, rachado, trincado, partido no meio (“Olha o laxo no vestido daquela crente!”).
LAXO: xereca folote, vagina muito usada (“Só qué se moça, mas espie o laxo!”).
LAXADO: rasgado, rachado, trincado, partido no meio (“O espelho tá todo laxado!”).
LEIRÃO: pequenos montes de terra de aproximadamente cinquenta centímetros, compridos, feitos com enxada, em linha reta e em seqüência, divididos com um sulco em cada um, onde os agricultores plantam tubérculos, macaxeira e etc. (“Vovô tá no leirão!”).
LEITE-NINHO: rasga anjo; quem namora pessoas que estão na puberdade ou na adolescência (“Aquela leite-ninho descarada devia sentir vergonha de se botar praquela criança!”).
LERDO: abestalhada, lesada, lesa, abigobé; azogado; zureta (“Aquela lerda não botou selo no evelope!”).
LESO: que tem o raciocínio lento, esquecido, lesado (“Dui é muito lesa, não trouxe a roupa!”).
LESADO: é o mesmo que leso
LESEIRA: mistura de cansaço com preguiça (“Hoje tô com uma leseira, acho que foi a retumba de sabo!”).
LETRA: Letra é o apelido de uma pitoresca senhora de aproximadamente sessenta anos, por nome Lindalva, a qual adquiriu tal alcunha pelo fato de usar aleatoriamente e com grande frequência o vocábulo letra, por exemplo: “Me dê uma letra de café! Eu quero uma letra de dinheiro!”. É uma expressão tão pitoresca que muitos nisiaflorestenes a usam eventualmente.
LEVADA: lugar encharcado de água, trecho pantanoso, beira de rio, margens de oleiros e lagoas (“Não dá prá ir para o Monte por aqui módi as levada!”).
LEVADA: ver levado
LEVADO: arteiro, bagunceiro, sapeca, mexelão (“Leve esse menino levado daqui!”).
LEVANDO PEIA: tendo relações sexuais com homem; recebendo o pênis (“Ela só vive levando peia dele, mas ele não quer nada com ela!”).
LEVANDO PEIA: apanhando, levando surra (“Ele tá levando uma peia da gota, agora!”).
LIGA: minúscula correia de latex, de espessura igual a um barbante, a qual é usada para prender dinheiro de cédula (“Dê-me essa liga, pois quero prender esses lápis!”).
LIGUENTO: pirão de peixe fresco preparado às margens dos rios, normalmente improvisados em panelões velhos e até latas. O tempero é o mesmo utilizado na culinária local. (“Dizem que o menino de Brechó morreu assim que comeu o liguento e pulou no rio. Foi estoporo!”). OBS. É uma prática muito comum em toda a região, principalmente por pescadores que passam o dia na água.
LÍNGUA DE TERRA: tira de terra, langanho de terra, lote muito cumprido, porém muito estreito (“Ele dá uma de fazendeiro, mas é dono de uma língua de terra!”).
LÍNGUA DE TRAPO: língua solta, pessoa faladeira, que não tem ponderação com o que fala, que não guarda segredo (“Nem diga essa história perto daquela língua de trapo!”).
LÍNGUA SOLTA: é o mesmo que língua de trapo.
LISEU: liso, sem dinheiro, duro (“Hoje eu estou no liseu!”).
LISO: ver liseu
LOCA: buraco nas partes verticais das cabeceiras (barrancos) dos rios ou nos troncos das árvores (“Isso aí é bem uma loca de sapo!”).
LOMBO: costas (“Seu maluvido, pare com isso senão lhe arranco o couro do lombo!”).
LONJURA: muito longe (“Eu que não risco prá uma lonjura daquela! Nem por ouro”).
LUNDUM: de pá virada, macacoa, com muita raiva, tão assim (“Ela tá de lundum hoje!”). OBS. Designa também uma mudança abrupta de comportamento, inclusive pra outras reações como: tristeza, quietude.




LETRA “M”

- Mainha tá com a macaca! Aquele malenjorcado do Zé Pinéu tomou uma meiota e vomitou a bodega toda!
- Vôt macho bote aquele morgado prá limpar!
- O que vocêis tão dizendo? Peraí que ele não tá com a mulesta de deixar isso assim – Perguntou mamãe e meteu os pés atrás do caba, trazendo-o pela camisa.
- Agora limpe! Limpe! Seu mondronco! Senão eu te réio!
- Que é isso Maria-tomba-homem? – resmungou Zé Pinéu.
Nesse instante chegou o padre, assustado, dizendo:
- Vixi Maria, que cheiro de manipueira misturado com munguzá podre! Que diabo é isso no chão?
Ouvindo o palavreado do padre ninguém aguentou. Todos cairam na risada, até a velha brava.
- Esse padre é medonho prá dizer macacada!
- O que, o que... hã!!! – Resmungou o padre que era mouco.
- Há! há! há! há! – Todos riram.




MACACA: certo tipo de chicote usado por vaqueiro (“Danei a macaca no lombo do jirico chega o bicho riscou na mata!”).
MACACA: alterado, enraivecido a ponto de não querer que ninguém chegue perto (“Tirço tá com a macaco hoje, nem peça a ele!”).
MACACO: feijão espremido na mão com farinha, cachorro (“Eu adoro um macano no almoço!”).
MACACOA: encosto, pissica; coisa ruim tipo olhado (“Mulé vá se curar, isso é macacoa de terreiro bravo!”).
MACACOA: mal estar no corpo, cansaço geral com dor até nos ossos (“A retumba de ontem me deu foi uma macacoa da mulesta dos cachorro!”).
MACACOA: lundum, que muda de estado de espírito de uma hora para outra (“Ele tá com a macacoa!”).
MACHO: ´macho, homem, cabra (“Diz aí macho, cadê o pessoal!”). OBS. É uma expressão tipica de cumprimento entre homens.
MACHOCHÔ: homem de sexualidade duvidosa (“Ui! Ui! Ele é machochô!”). OBS. Como bem ilustra esta frase, é uma expressão muito irônica e de sentido debochado).
MACHO TODO: machão, macho ao extremo (“Esse menino é igual ao pai: macho todo!”) CURIOSIDADE: Em outro contexto tem o mesmo sentido de machochô, em se tratando de duvidar da sexualidade de alguém.
MACHO TODO: fresco (“Esse aí pelo jeito é macho todo!”). CURIOSIDADE: Dita com ironia, tal frase externa duvida acerca da masculinidade de alguém.
MADORNA: determinada parte do sono (“Vovó já durmiu uma madorna boa por hoje!”). OBS. É o mesmo que dizer que a pessoa já está no 1º, no 2º, no 3º sono e aí por diante.
MAGOAR: ferir alguma parte do corpo (“Painho magoou o pé num prego!”).
MAGOAR: causar algum dano na própria ferida (“Ele magoou a ferida que já estava quaji fechada!”).
MAGOTE: razoável número de pessoas; pequena aglomeração (“Seu delegado não me prenda com esse magote de menino!”).
MAIOU NA REDE: engalhou na rede de pesca; se enganchou na rede (“Vôt! Só maiou um peixe na rede!”). OBS: linguagem de pescador.
MAIOU NA REDE: se deu mal; se lascou; se reiou (“Bem pregado, maiou na rede!”). OBS: linguagem de pescador.
MALAMANHADO: desalinhado, malenjorcado, mal arrumado, jegue, jirico, maleitoso, com roupas bufentas (“Onde tu vai todo malamanhado?”).
MALASSADA: iguaria feita de ovos misturado com verduras e tempero, cujo formado depois de pronto é semelhante a uma pequena pizza, pois normalmente se faz em frigideira (“Oba! hoje tem malassada!”).
MALASSOMBRO: coisa sobrenatural, algo do mundo dos mortos (“Dizem que naquela casa aparece uns malassombro!”).
MALASSOMBRO: pessoa muito feia (“Cruz-credo, quem é aquele malassombro alí na praça!”).
MALDA: que pensa com malícia; que raciocina com maldade, que pega por baixo (“Ela malda da minha, mas esquece de olhar o furico da fia dela!”).
MALEITOSO: malamanhado, desalinhado, malenjorcado, mal arrumado, jegue, jirico, com roupas bufentas (“Menino maleitoso, não tem mãe prá cuidar de você não?”).
MALENJORCADO: é o mesmo que malamanhado e maleitoso.
MALUVIDO: que finge que não ouve propositalmente; desobediente; desatencioso, sem atenção (“Seu maluvido, quer que eu alise já o seu lombo?”).
MANGAI: trambelhos, quinquilharias, ruma de coisas antigas – a maioria delas em desuso (“Tira esses mangai véi desse quarto!”).
MANGAR: caçoar, fazer piada com alguém, debochar, ridicularizar (“Deixem de mangar da pobre, vocês são tão bonitos!”).
MANICACA: sovino, mão de vaca, que não gosta de gastar dinheiro (“Eu não gosto de sair com gente manicaca!”).
MANICACA: homem dominado pela esposa (“Nem chame aquele manicaca que a dona dele bota areia!”).
MANINHA: mulher que fica para titia, que não se casa; que ficou no caritó; moça velha; solteirona (“A fia de Deda ficou prá maninha!”).
MANIPUEIRA: OBS. No momento que se prensa a mandioca nas casas de farinha, escorre grande quantidade de seiva. Com essa seiva as pessoas mais humildes adicionavam açúcar e leite de coco, servindo como um suco para as crianças.
MANIVA: caule e galho da macaxeira, depois que os tubérculos são arrancados OBS. Normalmente os agricultores cortam pedaços de aproximadamente 15 centímetros, plantando-os em leirões para formar nova roça.
MANJUBA: pênis, rola (“Dizem que ela adora uma manjuba!”).
MANOBRADO: dominado por alguém, manipulado (“Aquele corrupto tem manobrado muito ela, é por isso que a pobre não ganhou a política!”).
MÃO DE MILHO: medida equivalente a cinquenta espigas de milho (“Eu encomendei três mãos de milho pro São João!”).
MARMOTA: algo muito feio, mistura entre apapagaiado e esquisito (“Que marmota é essa que chegou alí na casa de Maria?”).
MARUAGEM: mentira, enrolação (“Deixe de maruagem que comigo a coisa é outra!”).
MARIA-SAI-DA-LATA: sem vergonha; cínica (“Eu não quero você no mundo, grudada com aquela Maria-sai-da-lata!”).
MARIA-TOMBA-HOMEM: mulher que se dedica mais a trabalhos considerados masculinos; mulher que gosta de lidar com serviços pesados e grosseiros, sem que isso infira em sua sexualidade (“Dona Lúcia é toda Maria-tomba-homem!”).
MARISCO: raspadeira de coco (“Mãe traga o marisco que já parti os coco!”).
MARUIM: minúsculo mosquito hematófago. OBS. Costuma incomodar mais que a moriçoca, pois são quase imperceptíveis e têm a picada mais ardida que tal inseto.
MARUJADA: fandango. OBS. Antigo folguedo folclórico que teve o seu auge na extinta festa dos pescadores, no Porto. Atualmente o único grupo que resiste no RN é o de Canguaretama.
MASSA: bom, legal, bacana, da hora (“Essa roupa ficou massa nela!”).
MASSADA: remanchar, demorar propositalmente, ficar com enrolação; embromando (“Deixe de dar massada senão eu vou embora!”).
MASSA DE PONÇAR: massa para rejunte especialmente de madeira, a qual era feita com três ingredientes: óleo de linhaça, pó de cré e pó-secante. OBS. Essa expressão “cré” não foi muito bem explícita pelo informante – sr. Bambão – por mais que ele tentasse. Por muitos anos a zelosa Yayá Paiva comprava esse material para que o pai do informante cuidasse das coisas da igreja, inclusive servia também para tapar imperfeições das madeira e de buracos feitos por cupim. Embora se trate de material totalmente diferente, tinha a função da massa corrida, de hoje.
MATEIRO: homem que tem muito conhecimento sobre as matas, que conhece muitas espécies de plantas e demais elementos que integram tal universo (“Papai era mateiro e conheceu toda a região de Camurupim!”).
MATUTO: caipira; que fala com forte carga de regionalismo e se veste mal; caboré (“Aquele matuto inventou de chegar de calça social e tênis!”).
MATRACA: pedaço de madeira do tamanho de uma tábua de carne, o qual possui um espaço vasado na parte superior onde se encaixa a mão para segurá-lo. No centro está fixado um pedaço de ferro grosso, roliço, de formato semelhante a uma trave de futebol com um “l” nas duas bases, prendidas de forma que fica flexível, o qual, às custas de movimentos rápidos, feitos com as mãos, se choca fortemente de um lado e de outro na madeira emitindo estalos bem fortes. É um instrumento usado por coroinhas que guiam procissões, cuja finalidade é avisar que o cortejo vem vindo. É uma forma de impor respeito às pessas desavisadas. OBS. A expressão “matraca”, no sentido figurado, é usada para referir-se às pessoas que falam muito, no entanto, é um regionalismo nacional.
MATRACA: que parece que bebeu água de chocalho; que parece um badalo; papagaio; gasguento; que fala sem parar (“Deixa essa matraca falando sozinha!”).
MATRACA: boca (“Fecha essa matraca, seu falado!”).
MAZARULHO: ruma; poia; monte (“Tem um mazarulho de trambelho nesse quarto!”).
ME AGUARDE!: deixa estar; você não perde por esperar; quem viver verá (“Dizem que depois de ser escurraçada, ela simplesmente falou: - me aguarde!”). OBS. É muito usada também no sentido de brincadeira.
MEDONHO: arteiro, menino danado e inquieto, com o pitoco ligado (“Diabo de menino medonho é esse, ave-Maria!”).
MEIOTA: meio copo (americano) de cachaça (“Bote uma meiota aqui pro véi!”).
MENGAR: embingar, movimentar o quadril prá frente e para trás com sentido insinuante (“A menina disse a professora que o menino ficava mengando quando passava atrás ela!”).
MELADO: alcoolizado, bêbado (“Nem venha falar comigo melado!”).
MENINÓ: menino OBS. Trata-se de uma forma curiosa de se aplicar o tão comum vocábulo “menino” no sentido de chamar autoritariamente a atenção de um menino. A pronúncia desse “menino” soa como se tivesse um acento agudo misturado com circunflexo na sílaba “o”. Dito nesse sentido tal expressão impõe respeito e ordem (“Quando Lorica chegou e viu aquela bagunça, disse: -meninó! Não ficou ninguém!”).
MENINO-BUCHUDO: criança manhosa e sem modos, que não costuma ser corrigida pelos pais, criança com maus hábitos (“Tire aquele menino buchudo dali!”).
METI OS PÉS: fiz carreira, peguei o beco, risquei (“Quando eu soube da morte meti os pés e fui avisar papai!”).
METIDO: enfiado, embiocado, socado (“Palo só vive metido na casa das guengas, vôt!”).
METIDO À BESTA: exibido, pedante, amostrado, que quer ser o que não é (“Esse metida a besta já se enfiou aqui!”).
METRALHA: entulhos de prédios demolidos, restos de paredes de alvenaria que se amontoam de fronte as obras (“Vou aproveitar aquela metralha dele para fazer o meu baldame!”).
MEU DEDINHO: OBS. Usa-se esta expressão para referir-se a pessoa que está por perto, mas sem mencionar o seu nome. Normalmente tem o propósito de não chamar atenção de quem está próximo, por exemplo: “Não diga essas palavras pois o meu dedinho está ali ó! Quem quebrou o copo foi o meu dedinho!”).
MI: homem (“Vem cá mi, eu não tô lhe chamando?”). OBS. É uma forma extrema de diminuir a palavra homem.
MIAEIRO: cofrinho (Quando abri o miaeiro tinha um bom dinheiro!”).
MILIÇA: polícia (“A miliça foi quem levou a mulé do seu João!”).
MI RÉIS: mil réis (“Eu paguei dois mí réis nesse carro!”). OBS. Trata-se do antigo nome da unidade monetária, o qual é muito falado por idosos, embora tal denominação entrou em desuso a quase meio século.
MIL E SEISCENTOS CÃO: OBS. Esta frase é usada como xingamento – e dos grandes. Pode aplicá-la também como brincadeira – depende do contexto. (“Ele que vá pro inferno dos mil e seiscentos cão!”).
MILACRIA: qualquer coisa que não presta; tanto faz referir-se a burundanga ou a doença, por exemplo: “Toda milacria pega em mim, olha minha pele!” “Menino, joga essas milacria fora!” “Saiu tanta milacria do meu ferimento!”).
MINHOQUEIRO: bolsa improvisada feita de infinitos materiais, a qual é usada por pescadores para carregar minhocas que servem de isca para peixes (“Ele não pegou mais porque o minhoqueiro virou na levada!”).
MOCONHO: enibido, meio envergonhado, cabisbaixo, ressabiado, desconfiado (“Esse moconho não entra por quê?).
MOCORONGA: desconfiado, sem jeito, meio envergonhado (“Quem é aquele mocoronga ali no canto!”).
MOCORONGA: desiludido; na mais pura tristeza; deprimido (“Depois da morte do marido ela passou a viver toda mocoronga!”).
MÓI: muito, bastante (“Tem um mói de gente no velório!”).
MÓI DE OSSO: muito magro, esquálido, vara de bater pecado (“Esse caba tá só o mói de osso!”).
MÓI DE SOLA: muito sado, derrubado, só o pito, amulengado (“Pedro chegou da moita só o mói de sola!”).
MOITA: extensa área rural dividida em vários sítios e chácaras, situada na parte mais elevada do município, cuja terra – do tipo arisco – é muito apreciada pelos agricultures principalmente no inverno. Muitos nisiaflorestenses que não têm propriedade, costumam arrendar uma tira de terra na moita.
MOLHA: molha (“Mãe, vê se a molha do macarrão ficou boa!”). OBS. O subastantivo masculino molho é muito falado no feminino.
MONDRONCO: pessoa de andar troncho (“Quem é aquele mondronco, é Zé?”).
MORGADO: pessoa sem iniciativa, alheio às coisas que estão ao seu redor (“Do jeito que ele é morgado vai terminar o serviço amanhã!”).
MORRINHA: doença epidêmica que acomete os galináceos (“A morrinha esvaziou o meu galinheiro!”).
MORTA-FOME: guloso, que não se contenta com nada (“Aquele morta-fome quer mais o quê!”).
MOUCO: surdo (“Tá mouco seu cabra maluvido?”).
MUAFO: cabelo muito cheio, cabelo pichaim (“Olha o muafo que tá a minha cabeça!”).
MUAFO: desarrumado, desorganizado (“Esse quarto de vocês tá um muafo só, vot!”).
MUCAMBO: sujo, seboso, imundo (“Menino de mucambo, vá prá dentro se banhar seu peste!”).
MUCICA: sopapo que se dá na vara de pescar assim que o peixe fisga a isca (“Assim que dei a mucica fui ver e era uma caçota!”).
MUFINO: abatido, combalido, triste, cabisbaixo, adoentado (“Esse gato tá mufino de tanto aqueles menino réi pegá o pobre!”).
MULA: antiquíssima expressão usada para referir-se a certas doenças venéreas (“Ele tá com uma mula da porra!”).
MULESTA: moléstia, gota serena, porra, diabo (“Maria tá com a mulesta hoje!”).
MULÉ: mulher. (“Mulé, dê a minha boneca!”). OBS. Tal expressão é muito usada por pessoas do sexo feminino, inclusive entre meninas. É o jeito de referir-se umas às outras.
MULINCHA: demais, bastante, em excesso, exageradamente (“Tem gente que só a mulincha!”).
MULINGA: bravo demais, dando a piula, com muita raiva, fazendo um cu-de-burro (“Ele deu a mulincha porque você não trouxe o dinheiro!”).
MUNDIÇA: pessoas sem educação e sem compostura, que não possuem o mínimo de bons modos (“Eu não quero aquela mundiça nos quinze anos da menina, por favor!”).
MUNGANGA: careta, gachimonha, macaquice, fazer gestos não obcenos (“Deixe de munganga menino chato!”).
MUNDRUNGA: feitiço, mal feito, catimbó (“Isso me cheira a mundrunga!”).
MUNGUZÁ: comida feita com milho seco inteiro, cozido na água com leite-de-coco, leite de gado, cravo, açucar ou sal – juntos (ou separados). Normalmente é servido com o mesmo aspecto do feijão, embora uns preferem mais aguado.
MUNTURO: ruma de lixo, velharias, burundanga, entulhos empilhados (“A carroça levou todo o munturo do quintal!”).
MUQUIFO: ambiente desarrumado e feio, cortiço (“O coitado tá em São Paulo morando num muquifo!”).
MURIÇOCA: pernilongo, mosquito hematófago (“Aqui no Porto dá muriçoca demais!”).
MURRINHA: suvino, mão de vaca, que não gosta de gastar dinheiro com nada (“Esse murrinha com certeza vai levar pro túmulo!”).
MUSSU: peixe de cor preto-amarelada, semelhante a uma pequena cobra (“Hoje tem mussu no coco lá em casa. Apareça lá!”).
LETRA “N”
Quando eu vi aquele menino todo espalhafatoso, não prestou! Para zonar com ele eu gritei:
Kiko, vem cá que eu tô só no osso!
Ele, que não é sério, gritou:
Não quero com nojo!
E eu, nem água!


N’ÁGUA E SAL: única; somente (“O vestido dela é esse aí n’água e sal!”). OBSERVAÇÃO: palavra ouvida em Pium.
NÃO É SÉRIO (A): expressão usada para desmerecer a sexualidade de uma pessoa; maneira de insinuar que alguém é fresco ou sapatão. No caso de referir-se a mulher também pode ter sentido de sapatão; depende da circunstância (“Sei não, mas acho que esse caba não é sério!”).
NÃO PRESTOU: expressão usada para designar que algo foi o contrário do que se esperava, podendo ser algo engraçado, feio ou desagradável.
NÃO QUERO COM NOJO: maneira debochada de recusar alguma coisa; fazer uma desfeita (“Ele tá pensando que eu vou dar bola prá ele? Nâo quero com nojo!”).
NEM ÁGUA!: OBS. Essa expressão designa negação, uma reprovação; é como se dissesse: “não deu certo”, “nada a ver”, “não valeu”, “não conseguiu”, “não teve êxito”.
NHACA: fedor, catinga, mau cheiro, azedume (“Essa mulé tem uma nhaca da mulesta!”).
NHÔ: senhor, sinhô (“Nhô, eu tô aqui!”).
NHORA: senhora (“Nhora, mainha, o que é?”).
NICO: sagui, suim, mico (“Tem nico demais no Ibama!”).
NO CRÚ: sem anestesia (“Eles costuraram o ferimento no cru!”).
NO CRÚ: sem calcinha ou sem cueca, no osso (“Eu tô no crú, não me puxa a toalha!”).
NO MUNDO: batendo perna; sem rumo; que só vive fora de casa (“Ela cria os filhos no mundo!”).
NO OSSO: no cru, sem calcinha, sem cueca (“Ai meu Deus que vento, eu tô só no osso!”).
NOJENTEZA: porqueirice, sujeiragem (“Deixem de nojenteza na mesa!”).
NOJENTEZA: atos libidinosos, gestos obcenos, comportamento vulgar (“Dizem que essa mulher faz cada nojenteza com os homens!”).
NUM PÉ E NOUTRO: rápido (“Vá num pé e noutro que eu tô querendo dormir!”).
NUM PÉ E NOUTRO: muito impaciente (“Volte logo que o seu pai tá lá num pé e noutro resmungando!”).


LETRA “O”



- Zequinha estava obrando nos oitão, quando plantei-lhe a simpuia.
- Menino! Aí não é lugar de obrar, tome vergonha!
- Painho, deixe de ser mal, a comida me ofendeu, tô com o oio de porco que não me aguento!
- Arra! Esse menino é osso!



O Ó DO BOROGODÓ: difícil, desafiador, trabalhoso (“Limpar toda essa casa antes das três hora é o ó do borogodó!”).
Ó DO BOROGODÓ: geniosos, de personalidade muito forte, chato (“Esse professor é o ó do borogoó!”).
Ó DO BOROGODÓ: não é o que se imaginava; não condiz com o que se pensava (“Essa festa tá o ó do borogodó!”).
OBRAR: defecar, cagar (“Espere um pouco que eu vou aqui no aparelho obrar!”).
OFENDE: faz mal, causa dano (“Dizem que abacaxi com ovo ofende, não vá comer seu impingi!”).
OFENDEU: embuchou, engravidou, fez mal (“Tá um rolo danado lá, dizem que ele ofendeu a prima!”).
ÔIA: preguiça, sem vontade de fazer nada (“Hoje eu tô com uma ôia danada!”).
ÔIA: sem dinheiro, liso (“Eu passei o mês todo numa ôia danada!”).
ÔIA: nata esbranquiçada que se forma em poça de urina (“Quando ele saiu da rede olha só o tamanho da poça de mijo, tava só a ôia!”).
ÔIO DE PORCO: ânus, cu, boga, furico, roqui mi clei; franzido; ás de copas (“Mainha, meu oio de porco tá cuminchando muito!”).
OITÃO: espaço lateral da casa entre o muro e a parede (“Luís vá limpar os oitão!”).
OITEIRO: trouxa de roupa, ruma, monte (“Vou pegar o beco, pois tem um oiteiro de roupa prá mim engomar!”).
OLHADO: força negativa que recai principalmente sobre crianças, a qual é atribuida a pessoas que a tenha olhado com cobiça ou inveja (olho grande). O olhado deixa a criança mole, sem apetite, pálida, triste, com insônia, vômito ou diarréia. Nesse caso a vítima tem que ser levada imediatamente para ser curada (benzida) antes do pôr-do-sol. OBS. 1: Adultos também pegam olhado, cujos sintomas são idênticos. Plantas também, as quais murcham e secam assim que são admiradas por alguém. OBS. 2: Dizem que em muitos casos o olhado não é intencional, ou seja, a pessoa cobiçou sem intenção de proporcionar tal consequência. É por isso que diz a tradição que quando admiramos algo devemos dizer: “benza Deus”.
OLEIRO: olheiro
OLHEIRO: olho d’água, vertente (“Pegue o balde e vá pro olheiro!”).
OMBREIRA: cabide (“Bote nas ombreiras essas camisas!”).
OSSO: difícil, trabalhoso, desafiador, o ó do borogodó (“Esse exercício de matemática é osso!”).
OSSO: genioso, pessoa de personalidade forte (“Vovô é osso viu!
LETRA “P”
Quêde voinho?
Vovô pegou ar com os menino da oficina, nem fale com ele pois o véi tá de pá virada!
Porra é! O que eu tenho a ver com isso, seu pomba-lesa!
Não precisa ficar passando sibila também, só tô dizendo a presepada dele.
Voinho parece criança, é cheio de pabulação com esses menino, parece que todos são pareceiro dele!
Eu conheço as pintura do véi e nem ligo. Um dia desses ele me chamou de pé de priziaca, eu só fiz rir!
Olha só ele alí chupando poli.
Eu não dixi, esse papangu é pinturento!



PÁ VIRADA: com raiva, chateado, aborrecido (“Hoje ele amanheceu de pá virada!”).
PABULOSO: contador de vantagem, gabola, metido a sabe tudo (“Esse menino é tão pabuloso, eu não quero ver você com ele!”).
PAÇOCA: comida típica feita com carne de sol pilada (ou passada no liquidificador), misturada com farinha de mandioca, cebola, alho, sal e coentro (“Hoje eu comi paçoca da boa em dona Lourdes!”). OBS 1: É uma espécie de farofa. OBS 2: Curiosamente a expressão paçoca trata-se também do doce feito de amendoim moído com açucar, cujo nome é conhecido em todo o Brasil.
PAID’ÉGUA: .............................................................................................
PALETA: pé (“Menino réi, vem botar as sandaia nessas paleta!”).
PANGAIO: coisa velha, burundanga, quinquilharia, troço (“Pegue os seus pangaio e risque daqui!”).
PANTIM: medo; susto (“Fique quieto que eu vô fazê um pantim prá ele atrás da porta!”).
PANTIM: boi-de-fogo; tempestade num copo d’água; esparramo (“Isso é só pantim dele. Daqui há meia hora acaba tudo!”).
PANTIM: chilique; síncope; piripaco (“Ela teve um pantim quando soube que o filho fumava maconha, ta lá no hospital!”).
PAPANGU: pessoas que se fantasiam com roupas estrambóticas durante o carnaval. Não é necessariamente uma fantasia tradicional, mas um desajeitamento aleatório – às vezes simples – às vezes muito apapagaiado. Os papangus saem pelas ruas (quase sempre em grupos) e passam pelas casas colhendo “auxílio” (dinheiro, comida ou cachaça), pois ficam o dia todo na folia. Ainda é algo muito presente na região (“Olha alí a ruma de papangu que vem entrando em casa!”).
PAPANGU: pessoa muito feia e esquisita (“Vot! Aninha tá namorando aquele papangu?”).
PAPARI: nome original do município de Nísia Floresta.
PAR DE JARRO: parecido demais; cagado e cuspido; cópia fie (“Quem são aqueles par de jarro que chegaram?”).
PAR DE JARRO: duas pessoas vestidas iguais “Eu vou me trocar. Não vou ficar aqui feito um par de jarro com aquela fulana!”).
PARECE QUE É: OBS. Expressão usada para desmerecer a sexualidade de alguém, maneira debochada e irônica de insinuar que alguém é homossexual (“Esse bichinho parece que é, se não for tem as ferramentas todas!”).
PARECE QUE ENGOLIU UMA VASSOURA: pessoa muito empinada, exibida e pedante (“Quem é quela ali que parece que engoliu uma vassoura!”).
PARECEIRO: pessoa que não seja da família mas que temos muito contato; colegas (“Não fale desse jeito comigo que não sou seu pareceiro, seu atrevido!”).
PAREDE-MEIA: parede que divide duas residências, casas coladas (grudadas) umas nas outras (“Eu nunca gostei desse troço de casa de paredemeia!”).
PARRUDO: pessoa entroncada – não gorda – que tem pernas, braços e todo o conjunto corporal grosso (“Esse menino de Joaninha ficou parrudo!”).
PASSANDO PITU: é o mesmo que passando sibila.
PASSANDO SIBILA: passando pitu, enganando, blefando (“Você não passa mais sibila em mim não, eu quero o dinheiro é agora!”).
PATARACA: cusparada grande no chão (“Onde vovô se senta ficam as pataracas de cuspe!”).
PATOLA: homem musculoso (“O cara era um patola da porra!”).
PAUL: região quase encharcada de água; tipo de solo muito escuro próximo de levadas. É considerado pelos agricultores um dos melhores para o plantio.
PRÁ MAIS DE METRO: que tem uma proporção ou uma dimensão muito grande, que é muito além do que se imagina (“Vai ter forró prá mais de metro!”).
PÉ DA BARRIGA: região abaixo do umbigo, onde fica a bexiga (“Dotô, tô sentindo umas agulhadas no pé da barriga!”).
PÉ DE PAREDE: base da parede (“Não encoste o rodo com cera nos pé de parede que suja!”)
PÉ DE ABANO: pé grande, pesão (“Não há sapato que sirva para aquele pé-de-abano!”).
PÉ DE GENTE: pessoa, gente (“Durante o carnaval não tem um pé de gente na rua!”).
PEGUENTO: preguento, pegajoso, grudento, melecado (“Eu fiquei todo peguento de mangaba!”).
PÉ DE PAU: árvore (“A raiz do pé de pau tá acabando com o baldame!”).
PÉ DE PRANCHA: pésão, pé grande demais, pé aloprado (“Ele é um pé de prancha da gota!”). OBS. Quando o pé é muito bizarro costumam dizer: “Esse já passou de prancha prá lancha!”.
PÉ DE QUIZUMBA: briga, confusão, cu-de-burro (“Tá um pé de quizumba amuado na casa do Dida!”).
PEBA: de má qualidade, sem valor, fuleiro (“Esse seu relógio é muito peba!”).
PECADO-MANEIRO: espécie de beju muito fino e seco feito com goma de mandioca (“O pecado-maneiro de Ciça é bom que só!”).
PEDAÇO: caminho longo, estrada comprida (“Daqui prá lá tu vai andar um pedaço viu?!”).
PEDAÇO: longo espaço de tempo, longo período (“Faz um pedaço que não vejo Daia!”).
PEDAÇO: muito atraente, sexi, sensual (“Menina, veja que pedaço de homem ali na praça!”).
PEDRÊS: aves (normalmente galináceos) cujas penas tem duas cores bem salpicadas, como se estivessem sido pintadas com a técnica de pontilhismo (“Eu acho lindo aquele galinho pedrês surú!”).
PEGA: dar uns relas, sarrar (“Eu já dei uns pega naquela caboca, foi bom que só!”).
PEGA: capta, percebe, se toca (“O namorado da abestalhada fica com a menina no nariz dela e ela não pega nada!”).
PEGAJOSO: que vive na cola, grude, quem não dá sossego para o outro, que fica em constante companhia (“Corra que lá vem aquele pegajoso!”).
PEGAR: ficar, dar uns relas, sarrar (“Tu acha que eu consigo pegar Ritinha?!”).
PEGAR: chamar uma pessoa num canto para dar uns esporros, dar uma esculhanbação, dar um carão (“Eu vou pegar ela hoje mesmo, ela vai ter que se explicar!”).
PEGOU: designa algo que foi iniciado sem promessa de parar, ou seja, algo que começou e foi longe. OBS: Está sempre seguido do artigo a mais um verbo, por ex. pegou a conversar, pegou a chorar, pegou a comer, pegou a brigar, etc.
PEGAR A CONVERSAR: dar início a uma conversa sem fim (“Côni pai pegá a conversá ele vai se cansá!”).
PEGAR A CHORAR: dar início a um chôro sem fim (“Depois do fora que recebeu do namorado ela pegou a chorar!”).
PEGAR FRIAGEM: resfriar-se, gripar, pegar vento (“Menina, não saia assim que acorda, você vai pegar friagem!”).
PEGAR O BECO: ir embora, sair, fazer carreira, capar o gato, riscar, pipocar (“Rita pegou o beco quando soube que seria chamada!”).
PEGAR O PIRÃO: comer, se alimentar, pegar a bóia (“Hoje eu vou mais cedo módi pegar o pirão da véia!”).
PEGAR VENTO: pegar friangem; gripar; resfriar-se (“Não abra essa geladeira, você está com o corpo quente, pode pegar vento!”).
PEGOU AR: ofendeu-se, chateou-se, irritou-se (“Ele pegou ar quando tu disse que o time dele era fuleiro!”).
PEGANDO MORCEGO: ciclistas e patinadores que penduram nas carrocerias dos caminhões e caminhonetes para momentos de aventura (“Ele tava pegando morcego, escapou e um carro veio por trás e passou por cima da cabeça dele!”).
PEGOU NO AR: captou, entendeu, compreendeu (“Quem pensa que me engana se engana, pois eu pego no ar!”).
PEGOU POR BAIXO: interpretou maliciosamente o contrário, entendeu de uma forma completamente contrária do que foi dito, pendendo pelo lado da malícia (“Eu não gosto nem de brincar perto dele, pois é enxirido e só pega por baixo!”).
PEGUE!: bem feito, acho é bom, teve o que merecia (“Pegue! Agora você não bole com quem tá quieto!”).
PEGUE PRÁ VOCÊ!: OBS. Essa frase necessariamente acompanha o gesto de braço dobrado para cima e punho fechado. É uma maneira até certo modo pejorativa de negar algo, até porque normalmente se levanta o dedo anular apontado para cima (“Que história é essa que eu sujei a cozinha, pegue prá você seu mentiroso!”).
PEIA: surra (“Deixe de choro senão leva outra peia!”).
PEIA: chicote, cipó, instrumento de bater em cavalos e afins (“Dane a peia nesse jirico lerdo!”).
PEIA: instrumento de couro ou corda o qual é preso ás costas e pernas, permitindo que os nativos subam em coqueiros para colher seus frutos ou limpá-los. A peça permite uma desenvoltura incrível ao subir. A agilidade é tanta que o homem chega a lembrar um macaco subindo em árvore.
PEIA: pênis, rola, pinta, pintchola (“Deixe de safadeza, senão eu corto já sua peia!”).
PEITADO: corajoso, ousado, disposto, destemido (“Não vai não, peça a Tonhão que o cabra é peitado e alí tem muito mato!”).
PEITADO: briguento, encrenqueiro (“Esse menino é peitado com todo mundo!”).
PEIXADA: pistolão, protetor, bichão, pessoa poderosa e influente (“Ele entrou na PM por peixada, pois se dependesse dele próprio não seria nem lixeiro!”).
PEIXÃO: pessoa bela e sensual, filé (“Dá uma olhada no peixão que tá saindo da farmácia!”).
PENDENGA: indecisão (“Deixe de pendenga e resolva que eu quero ir embora!”).
PENDENGA: na pior, na pindura, liso, no liseu, sem dinheiro (“O coitado tá numa pendenga danada!”).
PINDURA: na pendenga, na pior, com dificuldade financeira (“Eu tô numa pindura danada nesses dias!”).
PENDURA: anotar uma compra fiado (“Pendura aí seu Antonio que sábado eu pago!”).
PERAÍ: espere aí, me aguarde (“Nhô pai, peraí que tô indo!”).
PERDOE: OBS. Tal expressão é um padrão em toda a região, a qual é usada para explicar ao pedinte que naquele momento não tem esmola para dar. Podemos dizer que sintetiza a seguinte frase: “hoje não tenho, me desculpe! (ou: perdoe!”).
PERNA DE SIBITO: perna fina (“Aquela perna de sibito quer ser o que a folhinha não marca!”).
PESTE: OBS. É um xingamento (“Vai prá lá peste, senão eu te réio!”).
PIÇARRO: tipo de solo barrento, terra argilosa (avermelhada) muito usada para fazer estradas sobre dunas e qualquer tipo de aterro.(“Depois do piçarro a coisa ficou boa por aqui!”).
PICHINIM: olho apertado, olho de japonês (“Esse olho pichinim é todo do pai dela!”).
PICHINIM: capiongo, olho de quem tá com sono (“Com esse olho pichinim só pode ser sono!”).
PICOU A MULA: fez carreira, capou o gato, pegou o beco, riscou, sumiu, pipocou (“O cara picou a mula e deixou a conta pro dono do bar!”).
PICUINHA: mexerico, fofoca, conversinha típica de quem tem a língua de trapo (“Não venha com essas picuinhas prá dentro da minha casa, tenha vergonha!”).
PICUMÃ: pucumã; sujeira que se acumula nos tealhos, originada de fogão de lenha (“Dá uma varredinha nesses picumã!”).
PIGORAR: cobiçar, desejar, almejar (“Eu detesto quando estou na mesa e o meu dedinho fica pigorando meu cumê!”).
PILAR: esmagar grãos ou alimentos sólidos no pilão (“Neide vá pilar a paçoca!”).
PINIQUEI: corri, fiz carreira, risquei, capei o cato, peguei o beco, pipoquei (“Quando ela chegou eu piniquei prá casa de mãe!”).
PINIQUEIRA: empregada doméstica (“Ela é piniqueira deles desde criança!”). OBS. Trata-se de uma expressão debochada e humilhante de referir-se às pessoas que trabalham em casas de família.
PINIQUEIRA: mulher que faz tudo por um homem, mas que o mesmo só a quer por causa dos seus favores (“Ela é piniqueira dele, você acha que ele vai assumir ela um dia?!”).
PINTA: pênis, rola, pintchola, peia (“Solte a pinta do menino!”).
PINTCHOLA: pênis, pinta, piroca, rola (“Menino, vá lavar a pintchola!”).
PINTURA: traquinagem, invencionice, brincadeira, presepada, astúcia (“Olha as pintura dessa menina! Ô menina pinturente!”).
PINTURENTA: que só vive fazendo pintura (“Ela é muito pinturenta coni tá no paco, que história é essa de Niseuda Floresta?!”).
PIMENTA-DO-REINO: pessoa que quer estar em todos os lugares para saber tudo o que ocorreu e usufruir dos mesmos direitos dos que foram oficialmente convidados; quem se mete em todo lugar sem ser chamado; arroz de festa; entrão. OBS: Trata-se de uma curiosa expressão, tendo em vista que existem histórias antigas nas quais pessoas “presepeiras” espalhavam pimenta-do-reino, às escondidas, nos salões de festa, pois as conseqüências eram terríveis: o povo não parava de espirrar e soar o nariz. O jeito era parar a festa. Por incrível que pareça, contraditoriamente, “pimenta-do-reino” designa o que está explícito acima.
PIPOCA: pequenos pontinhos vermelhos que se formam na pele em consequência do calor, de sujeira, picada de inseto ou algum alimento. (“Eu tô com umas pipoca no corpo todinho!”).
PIPOCAR: estourar, explodir, detonar (“Isso aí vai pipocar já, já, cuidado!”).
PIPOCAR: germinar, florescer (“Colocando adubo vai pipocar tanta laranja mimo do céu!”).
PIPOCA ROXA: ferida pustulenta, infecção de pele com formato de grandes bolhas semelhantes a queimaduras, as quais acumulam pus (“É tanta pipoca roxa nela que dá medo!”).
PIPÔCO: estouro, explosão (“Foi um pipôco grande de bala no bar!”).
PIRÃO-BEM-MOLE: drama local (folclore) apresentado por duas senhoras (Raimunda e Salete).
PIROCA: pênis, rola, pintchola, peia, pinta (“Ele tá com curativo na piroca – foi fimose!”).
PISA: surra, peia, reiada (“Menino teimoso, dou-lhe já uma pisa!”).
PISAR PRÁ TRÁS: descumprir um trato, dar para trás, não ter palavra (“Na hora agá ele pisou prá trás 55!”).
PISTOLÃO: peixada, protetor, pessoa poderosa e influente (“Dizem que ele tem um bom pistolão lá dentro!”).
PISSICA: ollho grande, inveja, olho gordo (“Essa moleza é uma pissica grande!”).
PISSICA: feitiço, catimbó, macumba (“Eu não volto prá ele nem com pissica brava!”).
PITÉU: menininha nova, atraente e sensual (“Quem é aquele pitéuzinho que ta alí na praça!”).
POUQUINHA: fina; magrinha, pessoa de porte muito franzino (“Mulé, como a sua menina é pouquinha!”).
PRIZIACA: gente muito feia, pessoa esquisita (“Vot! Ele casou com aquela priziaca?”).
PRIZIACA: qualquer coisa, cujo nome real do que se está referindo foi esquecido (“Tira essa priziaca daí!”).
PROJETO: muito cansado, só o pito, só a grade, esgotado (“Depois da festa fiquei só o projeto!”).
PROJETO: excessivamente magro (“Depois da doença ele ficou só o projeto!”).
PUÇÁ: pequena rede de pesca presa a uma esfera (tipo peneira), cujo formato lembra um imenso coador de café. (“O seu puçá tá todo furado!”).
PUCUMÃ: sujeira de telhado, originada de fogão de lenha (“Tire todo os pucumã daqui com o vasculhador!”).
PRU MÓDI: por causa, para, pelo motivo (“Pru módi dele eu me reei!”).
PURU: pelo (“Não vá puru caminho das pedra, teimoso!”).
LETRA “Q”
Qual é o pó comadre mocinha?
Mulé, tô com uma dor nos quarto, dói que só!
Como começou?
Eu quarei muita roupa ontem. Fiquei muito tempo de coca!
Não tomou nada?
Mulé, e nesse quichó lá tem remédio!
Quéis um chá?
E apois é o jeito!
Tome só uma quartinha , é bom!
Quêde? Me dê!






QUAL É O PÓ: qual é a novidade?, o que foi?, o que há?, o que está acontecendo? (“Qual é o pó ali na esquina de João?!”).
QUARAR: alvejar roupas em jirau, às custas do sol intenso (“Coloque a roupa prá quarar!”). OBS. Com o advento do sabão em pó e da água sanitária essa prática é vista raramente.
QUARENTA: iguaria feita com farinha de milho cozida no leite ou na água, açucar (ou leite), manteiga. Quem prefere salgada acrescenta diversos temperos. É servida fria em tigelas ou travessas, retirando-se pedaços como um bolo.
QUARTA: medida de peso; ¼ ; um quarto de quilo (“Bote uma quarta de farinha!”).
QUARTINHA: tigela pequena, tibungo de barro, vasilha tipo cuia usada nas cozinhas (“Coloque o canjicão na quartinha!”).
QUARTOS: quadris, cadeiras (“Tô com os quartos quebrado depois do batente de ontem!”).
QUÉIS?: queres? (“Quéis munguzá venha botá!”).
QUENGA: cuia de coco (“Ele raspou os coco e deixou as quenga no chão aquele seboso!”). OBS. As pessoas mais humildes a usavam muito na cozinha. Os meninos também faziam um brinquedo muito comum à época, amarrando barbantes na quenga e calçando entre os dedos para andar em cima.
QUENGA: rapariga, puta (“Dizem que essa é a quenga dele!”).
QUENGO: cabeça (“Ai meu quango! Quem pois isso aqui?”).
QUÊRO: último dente a nascer no adulto (“O meu dente quêro nasceu quando eu tinha vinte anos!”).
QUECHÁ (OU QUEXÁ): todos os dentes que nascem após o canino (presa); dentes de trás, do fundo da boca (“Já nasceram todos os quechás do meu menino!”).
QUINHÃO: porção, um pouquinho (“Me dê só um quinhão de peixe!”).
QUICHÓ: casa velha, casebre, lugar mal arrumado tipo um cortiço (“Aquilo é um hotel ou um quichó?”).
LETRA “R”
Quem é essa aí dando rabisaco?
É Ritinha, filha de Nêga, chegou de São Paulo parecendo a Rainha da Cocada Preta!
Eu já tô de olho nela.
Deixe de ser rasga anjo, leite ninho?
Brincadeira, foi só um repente!
Mais sabe de uma coisa, reis? Você me deu uma ótima idéia!
Qual?
Vou riscar agora mesmo prá casa de mamãe, vai ter forró à noite e eu tô lá no ruge-ruge!
Vot! E o que isso tens a ver?
Nada, é que tem uma ruma de amiga das minhas irmãs que vem do sertão!
Oba! Tô dentro!
E alguém lhe convidou?
Hômi, não me deixe na roedeira!
Tá bom, macho, ramo!

RABISACO: gesto brusco de virar o rosto com ares de deboche (“Essa antipática perguntou do namorado, deu um rabisaco e saiu sem dizer nada!”).
RÁIDA: rádio (“Tá saindo na ráida que o ginásio de esportes vai cair!”).
RÁIDO: rádio (“Deu no ráido que a eleição será adiada!”).
RAINHA DA COCADA PRETA: é a fusão de esnobe com pedante e autoritária; pessoa que se considera melhor e superior em tudo (“Lá vem a rainha da cocada preta!”).
RAIVA: pequenos biscoitos feitos com goma, leite de coco e de gado e açucar (“Aqui em Nísia não tem quem faz raiva melhor que Dona Dorinha!”).
RAMO: enfermidade ou mal estar causado por pancada de ar, nevralgia facial cuja dor centraliza mais no globo ocular, tornando o olho avermelhado. OBS. Normalmente é curado com o sumo de uma planta denominada fedegoso, o qual é aplicado sobre o local com um pano embebido, podendo ser ingerido.
RAPARIGA: mulher de vida promíscua, puta (“Essa rapariga tá se inxirindo pro meu marido!”).
RAPARIGAR: vadiar com raparigas, sair com mulherada da vida (“Você já vai sair para raparigar!”).OBS. Pode ser usado também para mulheres.
RAPAZ: qualquer pessoa do sexo masculino – na realidade é uma força de expressão que às vezes até as mulheres a utilizam (“Mas rapaz, tu viu que chuva forte essa madrugada?).
RAPOSA: feijão com farinha espremido na mão, formando uma espécie de bolinhos, cachorro (“Vovó adora raposa!”). Natália Gomes da Silva.
RASGA ANJO: adulto que namora pessoa que mal saiu da infância (“Aquele é um rasga anjo!”).
REBARBO: resto, sobra (“Edilson levou todo o rebarbo da festa!”).
REBOLAR: arremessar, jogar algo com uma das mãos (“Deixe diso senão vou rebolar essa pedra no seu quengo!”).
REBÔLO: pedra, caco (“Pegue um rebôlo e dane no cachorro!”).
REDE DE MANJUADA: rede de pesca instalada nos rios num dia para retirar no outro (“Depois desses viveiros não adianta mais botar rede de manjuada alí!”). OBS. É também conhecida como rede de espera.
REFÉM: referente, sobre, em se tratando (“Lourenço mandou eu falar com tu refém de um canto pra eu morar na escola velha do Porto!”).
REIS: pessoa de situação financeira boa, gente bem apresentada (“Esse cabra é reis, ele não vem na minha casa nunca!”).
REIADA: surra, lamborada, peia (“Esse cabido tá precisando de uma reiada!”).
REIADA: relação sexual, transa (“Eu dei uma reiada da boa nessa bixinha!”).
REIADA: dose de cachaça, uma de cana, uma talagada (“Tomei uma reiada boa de Pitu!”).
REIADA: barroada, esbarrão, batida (“Ele deu uma reiada na cabeça do menino que o galo levantou!”).
REIADA: pessoa extremamente pobre; lascada (“Essa coitada é uma reiada, como é que vai pagar?”).
REIERA: imprestável, sem valor (“Minha calça tá uma reiera só!”).
REIS: cumprimento entre jovens (“Diz aí reis, onde tu vai?”).
RELA: carão, chamou a atenção (“Vou já dar uns rela naquele tinhoso!”).
RELAXO: esculhambação,desaforo, xingamento (“Ele disse tanto relaxo com a pobre que ela tá amuada!”).
REMANCHO: vagarosidade, lentidão, fazer as coisas com demora, ação de quem é ronceiro (“É um remancho danado a construção dessa pista!”).
REMANCHOSO: ronceiro, lento demais, vagaroso (“Lucinha é muito remanchosa para lavar as louças, vot!”).
REMEDAR: imitar, fazer igual (“Aquela cavilosa só fica remedando a vovó!”).
REMELA-DE-COCO: laminha de coco, polpa de coco verde, carne do coco bem verde (“Minha filha tira uma remela de coco prá vovó!”).
REPENTE: mudança súbita de assunto ou de pose, espécie de insigt que dá em alguém, fazendo com que a pessoa tome uma atitude de ímpeto (“Deu uns repentes nela que lavou toda a louça!”).
RESENHA: causo, história, fato, notícia (“Conte-me a resenha do carnaval!”).
RESENHA: fofoca, mexerico, picuinha (“Muito cuidado com essa menina, pois ela adora levar resenha de uma casa para outra!”).
RESSOCA: terceiro corte de cana-de-açucar da mesma toceira, o qual ocorre por fases. OBS. A cana-de-açucar tem uma vantagem: ela é plantada e assim que está no ponto é cortada, deixando-se a toceira, pois ali brotará novos frutos. Esse processo normalmente é realizado por três vezes. O terceiro corte é a ressoca. Após essa fase é retirada toda a raiz, pois os frutos vão perdendo a vitalidade.
RETUMBA: trabalheira; muito serviço (Foi uma retumba danada na fábrica; to só o pito!”).
RIM: ruim; mal (“Esse caba é rim feito a mulesta dos cachorro!”).
RINCHÃO: mulher muito bonita (“Urra! Que rinchão!”).
RIPIPUTA: mais que puta, mulher de conduta pior que de puta (“Aquela é puta e ripiputa!”).
RISQUE: caminhe, saia, daqui, faça carreira, vá, cape o gato (“Risque prá casa agora, sua andeja!”).
ROEDEIRA: dor de cotovelo; ouvir música brega ou romântica pensando em alguém (“Maurício tá numa roedeira danada desde terça-feira!”).
RÓI RÓI: “ronco” no estômago; “embrulhamento” no bucho; reviração no estômago, causando barulho que às vezes pode ser ouvido até por quem está próximo (“Tô com um rói rói da mulesta, acho que já é meio dia!”).
RODIA: rolo grosso de tecido qualquer, moldado em forma de roda, o qual é utilizado para carregar potes com água, feixe de lenha e certos pesos, amenizando sua pressão sobre a cabeça. CURIOSIDADE: Existem pessoas tão experientes, principalmente mulheres, às quais caminham com desenvoltura, com os braços abaixados, não importando o grande peso que carregam (“Quem não pode com o pote, não pega na ródia!”).
ROGERO: cair de uma vez, despencar com todo o corpo, levar uma topada brusca e se estatalar no chão (“A pobre da vovô caiu de rogero na calçada da igreja!”).
ROJÃO: muito trabalho, retumba, trabalheira, serviceira (“Hoje foi rojão no restaurante!”).
ROJÃO: arteiro; malino; sapeca (“Esse menino é rojão, nem deixe ele com vovó!”).
ROLO: relação amorosa sem compromisso; ficar com alguém esporadicamente (“Eles têm só um rolo!”).
ROLO: confusão, problema, cu-de-burro (“Ta um rolo danado entre ele e o pessoal da associação!”).
ROMBUDA: desgastada, com a ponta estragada (“Essa agulha ta rombuda toda, me dê outra!”).
ROMBUDA: com rombos, toda furada, carcomida, folote, corrute (“Sua bolsa tá muito rombuda, muito rombuda, faz vergonha sair assim!”).
RONCEIRA: vagarosa, lenta, remanchosa (“Mércia sempre foi ronceira pros leirão!”).
ROQUE MI CLEI: boga, ânus, fiofó, furico, roscófe, ás-de-copas (“Pegue pro seu roque mi clei!”).
ROSCÓFE: o mesmo que roque mi clei (“Pegue pro seu roscófe!”).
ROSCÓFE: relógio (“São que horas no seu roscófe!”).
RUA: centro da cidade; praça principal (“Aproveita que ele vai prá rua e manda a carta!”). OBS. A expressão “rua”, nesse caso refere-se unicamente ao centro da cidade, não tem relação alguma com rua x ou rua y.
RUDEIA: rodeia (do verbo rodear) circular, dar a volta (“Quando você voltar rudeia por trás que eu vou lavar a sala!”)
RUDIA: o mesmo que rodeia (“Rudia pelo quintal que ela tá lá!”).
RUGE-RUGE: barulheira, friviado, movimento de muita gente (“Tá um ruge-ruge da mulesta no Banco, deixe pra ir depois!”).
RUGERO: movimentação excessiva de gente, concentração do povão com muito barulho (“O comício foi um rugero que fez gosto!”).
RUMA: monte, muito, pôia, grande quantidade (“Tem uma ruma de gente na casa do seu Tom!”).


LETRA “S”
- Eu não seio o que tá acontecendo com Luzia!
- O que foi, mulé?
- Sostô tu não percebê! Pra sumana ela vem de novo, fique olhando o jeito dela. Tá tão saída. Um dia eu fiquei sem chão com as conversa dela. Na frente dos hômi ela falou cada absurdo.
- Mulé, sostô ela não vê o lugar dela. Eu tô achando muito estranho, apois ela sempre quis ser o sebo-de joli, toda importante!
- Minha menina disse que strudia ela tava se botando pros rapaiz na praça. Ficou com o fio de Zé Timbu.
- Vots! Aquele sibito baleado!
- Mas tem uma coisa, ela ficou assim depois que voltou do Rio de Janeiro.
- Ah! tá explicado, deve tá toda sambada!
- Mulé, não diga isso não, tu tem fia!
- Divera, mai num vive sarrabuiando com os macho por aí.
- Mulé, segura a língua, do jeito que ela é seladinha tem é cabra de olho na butique dela!
- Saite sua safada!





SABÃO: relação homossexual feminina (“Diz o povo que elas fazem sabão!”).
SABO: sábado (“Sabo eu vô!”).
SAIA VELHA: pessoa mulambenta; maltrapilha; com roupas bufentas (“Eu que não ando com essa saia velha do meu lado, faz vergonha!”).
SAÍDA: cabida, inconveniete, entrona (Maria tá tão saída. É só se botando pros caba!").
SÁITE: sai-te, cai fora, arrede, cape o gato, pegue o beco, espiche o gato (“Sáite daqui caba safado!”).
SAMBADO: usado, desgastado, velho (“Essa sua blusa tá muito sambada!”). OBS. Pode também ser usada com relação a pessoa: (“Ela pegou aquele véi sambado só mode a aposentadoria!”).
SAMBURÁ: cesto grande de cipó (“Deixe as manga no samburá!”).
SANDÁLIA DE DEDO: chinelo; pregata; alpargata (“Dê-me a sandália de dedo!”).
SANGRAR: vazar pelas bordas, encher demais (“A caixa d’água sangrou!”).
SARJAR: espremer furúnculo com as mãos para retirar o pus; comprimir tumor para retirar o líquido orgânico.
SARRABUIAR: espojar-se no chão (“Se você se sarrabuiar nesse quintal eu lhe dou uma pisa!”).
SARRABUIAR: lambrecar sabão na roupa rapidamente para deixar de molho (“Mulé, só sarrabui essa roupa, que ela não tá muito suja!”).
SARRABUIAR: sarrar, esfregar-se com alguém (“Essa imunda só vive sarrabuiando com os macho!”).
SEBO DE JOLI: metida a besta; rainha da cocada preta (“Essa aí só quer ser o sebo de Joli!”).
SE BOTANDO: se oferecendo; dando em cima de alguém (“Cláudia se bota pra todo macho!”).
SEIO: sei (“Não carece mi ensiná que eu seio!”).
SELA: assento do ciclista, selim (“Roubaram minha sela!”).
SELADO: pessoa que tem a coluna muito curvada para dentro, permitindo assim que as nádegas fiquem naturalmente empinadas (“Que menina seladinha aquela, pia!”).
SEM CHÃO: sem jeito, cheio de pernas, envergonhado (“Eu fiquei sem chão quando vaiaram ele!”).
SE SENTIU: se ofendeu; se chateou (“Ele se sentiu com as tuas coisas!”).
SE SENTIU: percebeu; notou (“Eu pensei que ele tinha visto, mas ele nem se sentiu!”).
SIBITO: franzino, magro, miudinho (“Esse menino como feito forrageira, mas é só o sibito!”).
SIBIT0-BALEADO: excessivamente magro e feio; vara de bater pecado (“Saite pra lá sibito baleado!”).
SIMPUIA: cipuada; cipozada; surra; peia; mãozada (“Deixe disso, seu varado, senão eu planto-lhe a simpuia!”).
SINHÁ-PUTA: mulher da vida; rapariga; vadia (“Aquela sinhá puta só quer ser a santa!”).
SINHÔ: senhor (“Pai, o sinhô chamou?”).
SIRI-NA-LATA: feroz; muito bravo; com a porra; dando a piula (“Hoje ela ta um siri na lata, nem fale desse assunto!”).
SIRIRICA: masturbação feminina (“Dizem que as duas só vivem na siririca!”).
SÓ A GRADE: só o pito; mói de sola; derrubado; amulengado (“Hoje eu to só a grade!”).
SOCA: que antecede a ressoca, ou seja, a partir do segundo corte de cana (“Depois da soca foi bom porque choveu!”).
SOCADO: embiocado; enfiado; metido em algum lugar (“Tu só vive socado na casa daquele povo, tome vergonha!”).
SOLA: gases intestinais, peido insuportável (“Urra! que sola infeliz da mulesta!”).
SÓ O PITO: só o projeto; magro demais; sibito baleado (“Depoi dessa retumba fiquei só o pito!”).
SÓ O PÓ: o mesmo que só o pito
SÓ O PROJETO: o mesmo que só o pito
SOSTÔ: como pode?, como se permitiu? (“Sostô tu deixa sua fia i praquele lugá!”).
SÓ VIVE NO MUNDO: que está constantemente fora de casa; na rua; batendo perna (“Essa mulé só vive no mundo, coitado do marido!”).
SUNEL: suné; fresco; homossexual; gay (“Aquele cabra parece que é sunel!”).
SURÚ: galináceos que não possuem penas no sobrecu; que tem o rabo cotó (“Ele comprou uns frangos surú!”).
SURRÔTE: surra; peia; reiada (“Vou acabar dando um surrôte nessa cavilosa!”).
SURRUPEIO: animal semelhante a uma cobra de cor avermelhada, normalmente seu tamanho chega a vinte e cinco centímetros de comprimento. Seu corpo é anelado e repleto de pernas (parecido com “piolho de cobra”). Possui duas garras próximas a boca, cuja picada, segundo os antigos, passa veneno letal até para os humanos. A reação é de dor aguda, seguida de suor frio, tremedeira, febre alta e morte, se a pessoa não for medicada.
SUSTANÇA: substância; nutrientes; comida forte; alimento muito rico em vitaminas (“Mãe, prepare uma comida com sustança que eu vou cavar o cacimbão hoje!”).
SUVINO: pessoa exageradamente econômica; mão de vaca; manicaca; quem priva a si próprio de coisas que deseja, mesmo tendo dinheiro para comprá-las.
STRUDIA: outro dia (“Strudia a gente aparece, cumadi!”).

LETRA “T”

- Esse charque ta tão assim! Antigamente vinha com cada talabada de carne e gordura, tais vendo agora?!
- Diga prá quele tamborete de forró que tu não vai querê isso, ou tu é algum timoti pra sê enganada?!
- Tombêm ele entregou côni só tava as criança.
- Isso é do top dele mesmo, mas se ele não trocá, eu tasco a mão na cara dele!
- Hômi, tu não tica numa frumiga, tais conversando, é?
- Tibi, agora até tu?
- Macho todo!
- Seu troço, deixa de frescura, eu toro sua venta tumêm! Cê num torna nunca mais!
- Agora torô dentro ... Hômi, to só frescano!


TABATINGA: tipo de solo de ótima qualidade para agricultura, normalmente é branco ou vermelho. CURIOSIDADE: Um sítio com boa extensão de tabatinga existe dentro da cidade de Nísia Floresta, exatamente atrás da Igreja Matriz, de propriedade do Sr. Deca Severo.
TABOCA: área rural que tem início no Sítio Floresta, partindo do túmulo de Nísia – numa elevação que se estende até a moita. Possui esse nome em virtude de a vegetação original ter sido repleta de “taboca” (tipo de cipó) conhecido também como “taquara”, usado para confeccionar principalmente gaiola para pássaros. Sua existência hoje é mais limitada. A própria Taboca não o possui.
TABULEIRO: toda e qualquer área cultivável margeada às lagoas, rios e trechos com água, distantes de mangues. A área mais conhecida de Tabuleiro em Nísia Floresta tem início na lagoa Carnaúba, seguindo um longo trecho que vai até as proximidades de Pium e Alcaçuz.
TAQUINHO: naco; pedacinho; pouquinho (“me dê um taquinho dessa carne!”).
TAIS VENO: estás vendo?; vês isso? (“Tais veno como essa cabrita não prestava!”).
TALABADA: grande; anormal; bizarro (“Antigamente o charque vinha com cada talabada de carne, hoje é só uma tira, o resto é gordura!”).
TALAGADA: gole; dose; pedaço (“Me dê uma talagada de montila!”).
TAMBORETE: pequeno banco individual e sem encosto (“Se abanque aí nesse tamborete!”).
TAMBORETE DE FORRÓ: baixinho; pessoa de baixa estatura; toco de amarrar jegue (“Eu que não quero aquele tamborete de forró!”).
TAMPA: gente boa; pessoa muito legal; cabra arretado (“Ele é tampa, pode falar com ele e diga que foi eu que mandei!”.
TAMPA DE FURICO: superior a “tampa”; pessoa super benquista – idolatrada por todos (“Um amigo tampa de furico como aquele nunca vai existir igual!”).
TÃO ASSIM: diferente do normal; amuado; cabisbaixo; aborrecido; triste; esquisito (“Hoje papai ta tão assim!”).
TÃO BESTA: exibido; pedante; que quer ser o que não é (“Tá tão besta essa menina de Chico!”).
TAIS CONVERSANDO: dizendo asneira; falando coisa que não procede (“Tais conversando, rapaz, deixe de suas coisa!”).
TAPIOCA: iguaria tradicional feita de goma de macaxeira ou mandioca, semelhante ao beju. OBS. Origem indígena. Penera-se a goma, acrescenta-se sal e despeja-se pequenas quantidades em forma circular numa frigideira seca.
TASCAR: dar; danar; rebolar (“Eu quero lhe tascar um beijo de felicidade!”).
TATACA: mal cheiro; fedor; catinga; cerôte; inhaca (“Essa mulé tem uma tataca medonha!”).
TEMPERAR A GUELA: emitir som forçando a garganta para limpá-la – o famoso han, han. (“Deixa eu temperar a guela para lhes dar uma capelinha!”).
TEMPERAR A GUELA: tomar cachaça (“Vou já pra bodega, temperar a guela!”).
TESO: duro; esticado (“Tu parece que tá com o pescoço teso!”).
TIARA: diadema (“Ganhei uma tiara linda de mainha!”).
TIBI: vot!; vots!; urra!; arra!; varei!; diaboé! (“Tibi! Que é aquilo na rua?!”).
TIBUNGO: pratinho de barro (“Ajeita os tibungo módi bota canjica!”). OBS. Falado por D. Raimunda do Pirão Bem Mole.
TIÇÃO: pessoa negra. OBS. Expressão preconceituosa, usada como deboche, embora tem quem a use sem esse sentido, e tem quem a ouça sem se sentir humilhado. (“O Pedrinho é um tição só!”).
TICAR: tocar; encostar a mão (“Deixe de ticar em mim com essas pata suja!”). OBS. Existe uma brincadeira infantil denominada “tica”, na qual todos os brincantes saem correndo e um deles corre para ticar em quem conseguir. Quem for ticado é eliminado. O último que sobrar, e não for ticado, é o vencedor.
TILOGA: curso de datilografia. (“Côni eu era jovem esperançava muito tê o curso de tiloga. Achava lindo!”). OBS. Trata-se de um regionalismo muito antigo – usado para designar quem tem curso de datilografia.
TIMÓTI: marmota; apapagaiado; desengonçado; feio; desajeitado (“Quem é esse timóti que chegou agora?!”).
TINHOSO: endiabrado, teimoso, caviloso, danado (“Haja paciência com esse menino tinhoso!”).
TININDO: bom demais; excelente; muito bem feito (“Ficou tinindo o seu motor!”).
TININDO: brilhante; reluzente; faiscante (“O sol ta tinindo hoje!”).
TIPÓIA: rede (“Dê minha tióia mó d’eu descansa!”).
TIQUINHO: pouquinho; pedacinho (“Eu quero um tiquinho do seu beju!”).
TIRADA BOA: viagem distante, caminhada grande (“Daqui pra lá é uma tirada boa!”).
TIRA DE TERRA: terreno muito comprido, mas estreito; língua de terra (“Com a partilha da herança ele ficou com uma tira de terra!”).
TIRINETE: tiro; estampido, estouro; explosão (“Foi um tirinete de fogos da mulesta!”).
TIRINETE: muita gente, tumulto (“Com aquele tirinete de gente eu não entro lá!”).
TIRNA: camada grossa e preta – proveniente da queima de lenha – que se acumula no fundo das panelas. Ocorre também quando o gás está acabando. (“O cão do Boi-de-reis se lambrecou de tirna!”).
TISGO: amarelo-empalemado; magro demais e com feições doentias; esquálido (“Tú tá tão tisgo, já foi ao médico?”).
TODAS AS FERRAMENTAS: todo o jeito; toda a aparência; parece muito com algo (“Ele pode até não ser, mas tem todas as ferramentas!”). OBS. Normalmente é usado para debochar de homossexuais.
TODO: OBS. Adjetivo muito usado para reforçar o adjetivo que o antecede, com a finalidade de dar mais ênfase a qualidade, defeito, tamanho, etc, por ex. “bom todo”; “feio todo”; “legal todo”.
TODO CHEIO: satisfeito; feliz; realizado (“Ele fica todo cheio perto do pai!”).
TOMATE: OBS. Este substantivo masculino é grandemente usado pelos nisiaflorestenses de forma feminina, por ex. (“Coloque só duas tomate na salada!”).
TOMBÉM: também; tombém; tumêm (“Eu tomém quero caju!”).
TOMÊM: mesmo que tombém.
TUMÊM: mesmo que tombém.
TOP: calibre; protótipo; estilo; personalidade; jeito de ser (“Eles são gêmeos, mas o top desse é totalmente diferente do outro!”).
TOPAR: tropeçar (“Ela me jogou uma praga d’eu me topar e eu topei num cepo de pau que o sangue espirrou longe. Foi a pior topada da minha vida!”).
TOPEI: tropecei, bati o pé em alguma coisa no chão (“eu topei numa metralha do chão!”).
TOPEI: defrontei com alguém, vi alguém (“Eu topei com ela na feira, mas ela nem me viu!”).
TOPEI: esbarrei; barroei (“Eu topei com ela na esquina, a pancada foi grande!”).
TORNAR: recobrar os sentidos; sair de um desmaio; ficar consciente (“No velório, assim que uma tornava a outra desmaiava!”).
TORÔ DENTRO: deu errado; foi mal; lascou; não saiu como esperavam; sujou (“Agora não adianta. Torô dentro!”).
TORÔ: quebrou; partiu; rachou (“Torô o cabo do martelo!”).
TRAÇAR: devorar tudo; comer algo com gulodice; saciar-se à vontade (“Se ele vê essa mesa traça tudo!”).
TRINCHO: pedaço do tijolo de oito furos (“Me dá um trincho de uns quatro furos mó d’eu completar esse pedaço aqui!”). OBS. Expressão normalmente usada por pedreiros.
TROÇO: coisa imprestável; o que não tem serventia (“Jogue esses troço fora!”).
TROÇO: gente desqualificada; pessoa indesejável (“Isso é um troço, não queira papo!”).
TROFÉU: garrafa ou litro completo de cachaça (“Seu João, hoje eu quero um troféu!”).
TROMBUDO: de cara virada; cara fechada; entufado; com raiva; aparência chateada (“Ele picou a mula todo trombudo!”).
TRONCHO: torto; desconjuntado; desajeitado; aleijado (“Essa mesa ta toda troncha!”).
TROVE: trouxe (“Pai trove todo o dinheiro!).
TUBIBA: espaço situado entre o ânus e o órgão genital (“To com uma dor no tubiba!”)


LETRA “U”

- Dê uma-de-cana aí, cumpadi.
- Já veio uns par de gente atrás, mai acabô.
- Hômi, diga isso não, eu tô seco de vontade!
- E apois, vá mó d’outra freguesia. Tome cerveja?
- Uó! Ajeite o urinol de lado, pois ô bichinha módi mi fazê uriná!
- Urra! Tu tá assim é?!

UMA-DE-CANA: cachaça; pinga (“Bote uma de cana aí!”).
UMA VEZ PERDIDA: esporadicamente; de vez em quando (“Tu só aparece lá uma vez perdida!”).
UM PÉ: desculpa; subterfúgio; álibe (“Tu só qué um pé prá brigar comigo!”).
UNHA DE VELHO: crustáceo comestível, preparado no leite de coco (“Adoro uma unha de velho!”).
UNS PAR DE GENTE: uma porção de pessoas; aglomeração de gente (“Tinha uns par de gente no protesto!”).
UÓ: chato; desagradável; feio (“Esse cara é uó!”).
U Ó DO BOROGODÓ: .......................................................
URINOL: penico; mijadô (“Menina, bote meu urinol debaixo da cama!”).
URINOL: vaso sanitário; aparelho; bojo (“Me leve pro urinol!”).
URUPEMA: peneira feita com palha de coqueiro. OBS. de origem indígena. Apesar da evolução, felizmente ainda é algo muito comum, tanto para o uso óbvio quanto para ornamentações e até mesmo coreografias escolares.
URUVAIO: burundanga; farramangaio; coisa velha; munturo;trambelho (“Nesse quarto só tem uruvaio!”).
USURA: intenção; objetivo; finalidade (“Ele é mal. Fez isso na usura de lhe prejudicar!”).
URRA: interjeição de espanto, equivalente a oh!, vôt!, cruz-credo (“Urra! que cobra grande!”).


LETRA “V”
- Mainha, bote o meu cumê!
- Vôt! Menino, eu tô aqui virada numa doida, faça tu mesmo o seu prato.
- Ah! Mainha, eu não seio, já tô vendo visagem!
- Mas sabe vadiar por aí, né?
- Pára, mãe, vô pedi pra voinha botá meu cumê!
- Seu venta de suvela, respeite sua vó. Ela não pode nem com ela, deixa que eu boto!
- Ô mãe, a senhora é tão boazinha!
- Deixa de besteira, menino!
- Varei! A senhora não gosta de elogio!


VADIAR: ganhar o mundo; sair sem rumo para farrear (“Tu só vive vadiando! Pare em casa!”).
VARA: pênis; órgão genital masculino (“Menino, eu corto a sua vara!”).
VARA DE BATER PECADO: franzino; esquálido; sibito baleado (“As modelo dagora é uma vara de bate pecado!”).
VARA PAU: pessoa alta demais (“Ela, um tamborete de forró, ele, um vara pau!”).
VAREI: interjeição dê espanto, equivalente a arra! urra! vôt! (“Varei! cai fora!”).
VAREI-TE: o mesmo que varei!
VAZANTE: trechos de terra úmida próximos a rios e olhos d’água; lugares levemente encharcados (“Vá levar o cume de vovô na vazante!”). OBS: Normalmente, em época de chuva, as vazantes ficam cobertas d’água e com o estio ficam normais, ou seja, as águas acumuladas vazam (talvez por isso tal expressão). Tais terrenos são muito férteis, pois as águas deixam todo o material orgânico que arrastou durante o inverno.
VAZANTE: OBS: Expressão muito usada por pescadores quando querem dizer que a maré está baixando, ou seja, secando: vazante.
VAZA POR TRÁS: insinuar que o homem é fresco (“Duvido se esse cabra não vaza por trás!”). OBS. Empregado apenas para o sexo masculino.
VENTA: nariz; (“Hoje eu tô soltando fogo pelas venta!”).
VENTA DE SUVELA: nariz comprido e pontudo; nariz grande e esquisito (“Eu que não quero aquele venta de suvela!”).
VER A COR DA CHITA: ver a coisa preta; ver a coisa feder; ver um cu de burro; ver o que é bom prá tosse; ver tocha (“Quando eu pegá-la ela vai ver a cor da chita!”).
VERDOSO: processo entre inchado e verde; que não está nem verde e nem maduro (“Esse mamão ta verdoso!”).
VERGONTA: broto; planta novinha; muda (“Me lembro como se fosse hoje: eles chegaram com um imenso pé de pau, cheio de vergonta e jogaram num imenso buraco – é o Pau do Moura!” – D. Dora – 105 anos).
VER TOCHA: ver a coisa preta; ver a coisa feder; ver um cu de burro; ver o que é bom prá tosse (“Ela vai ver tocha comigo quando aparecer aqui!”).
VIÇANDO: querendo sexo; a fim de transar (“Menino, tome um banho frio! Tá viçando é?!”).
VINGAR: dar certo; prosperar; obter êxito (“Eu avisei a tu que nesse tempo essa roça não ia vingar! Não era época de plantio!”).
VIRAÇÃO: meio de vida; alternativa de trabalho (“Ele não é empregado, mas sempre teve uma viração na vida!”).
VIRADO NUM BICHO: bravo demais; com ódio; com a porra; espumando pela boca (“Hoje eu tô virado num bicho! Se eu pegá ele eu esgano!”).
VIRADO NUM DIABO: bravo demais; com ódio; com a porra; espumando pela boca (“Hoje eu tô virado num bicho! Se eu pegá ele eu esgano!”).
VIRADO NUMA PORRA: equivale às duas expressões acima.
VIRADO NUM BODE: bode; bodão; que tem sorte com mulher (“Juba é virado num bode a vida toda. Cabra tampa de furico da mulesta!
VIRA E MEXE: de vez em quando (“Vira e mexe eu apareço lá!”).
VISAGEM: vulto; assombração; espectro (“Ele tá tendo visagem!”).
VISSE: viste?, certo, concorda; tá bom? (“Eu já vô, visse?”).
VIÚVA RICA: prefeitura (“Por quê será que todo mundo quer a viúva rica? O que será que ela tem?” – Prof. José Maria – FM Executivo).
VOINHO: vovozinho; vozinho (“Voinho tá chamando a voinha!”).
VÔTE: interjeição de espanto, equivalente a urra! arra! vôts; etc. (“Vote! Bicho feio da mulinga!”).
VÔTS: equivale a vote!
VOTO DE CARBONO: voto eleitoral anterior ao eletrônico, no qual se coloca a cédula oficial sobre um carbono, tendo sob este num outro papel, onde fica escrito o que se escreveu na primeira folha. OBS. Após a votação o eleitor levava a comprovação do seu voto até determinadas residências, onde ocorriam compra de voto, recebendo o pagamento em dinheiro. Essa prática criminosa, antidemocrática e absurda já foi algo muito comum em tempos d’outrora – em toda essa região, tendo sido abolida com o advento do voto eletrônico. CURIOSIDADE: Como sempre existem pessoas espertas, haviam uns “Camonges” da vida, os quais pegavam uma cédula não oficial (aquelas que ficavam espalhadas aos montes pelas ruas) e passavam o dia “votando” (nesse mesmo procedimento). Desse jeito os “políticos” nem imaginavam que, tentando enganar as consciências, estavam sendo enganados. Bem feito!
VOU AQUI: estou indo embora; vou me retirar; já vou sair; estou saindo (“Mãe, eu vou aqui!”). OBS. Trata-se de uma interessante expressão que se contradiz com a sua própria ação.
VOU CHEGAR: equivale a “vou aqui!”

Letra “X”

O bebê, todo xixado, arrancou cada xaboque da parede!

XABOCUDO: cheio de xaboque; com muitas imperfeições (“Ela é até bem feitinha, mas a cara é xabocuda!”).
XABOQUE: buraqueira; parede cheia de imperfeição (“Essa parede é um xaboque só. Tem que ajeitar, senão cai o resto!”).
XABOQUEIRA: grosseira; de feições feias (“Mulé veia xaboqueira essa minha vizinha que chegou agora!”).
XANHA: coceira de origem venérea; sarna (“Menino, tu parece que tá com xanha, vá se tratar!”).
XARELETE: certo tipo de peixe do mar, comum na região (“Traga xerelete da feira!”).
XARÉU: um tipo de peixe (“Ele pescou só xaréu!”).
XAXADO: sobras de carne da feira; pedaços de carnes variadas, vendidas juntas (“Eu já comprei muito xaxado. Hoje sou rica!”).
XELELEU: puxa-saco ("Tico é xeleléu dele!").
XERECA: priquito; vagina (“Ele alisou a xereca dela!”).
XERÉM: cocô de cupim e de minúsculos insetos que se alojam nos caibros e cumeeiras das casas (“Eu vivo varrendo esses xerém, mas não tem jeito!”).
XERÉM: milho triturado – próprio para pintinhos novos (“Vá dá xerém aos pinto!”)
XEXEIRO: nó cego; caloteiro; velhaco; mal pagador (“Ele dá xexo em todo mundo. È um xexeiro de carteirinha!”).
XIXADO: urinado; mijado; que urina em si próprio (“Ele tá todo xixado, dê um banhozinho no póbi!”).

LETRA “Z”
- Tá uma zuada danada na casa de Maria!.
- Esse povo gosta de zuera.
- E vive ao zimbolé.
- Aquele que tem o zói zanoi é o pior de todos.
- E zoa de todo mundo.
- É o bonzinho!

ZAINO: estranho; diferente; desconfiado (“O pessoal ficou zaino comigo!”).
ZANOI: olho estrábico; vesgo (“O professor é zanoi!”).
ZIG ZIG: libélula (“O quintal ta cheio de zig zig!”). OBS. As crianças costumam chamar esse inseto também de helicóptero.
ZIMBOLÉ: ao léu; à toa; jogado ás traças (“Pedrinho só vive ao zimbolé, parece que não tem mãe!”).
ZOAR: mangar; caçoar; zonar; fazer pilhéria (“É bem pregado!Ele vai zonar com a lata dela!”).
ZÓI: olho (“O zói dele é torto!”).
ZONAR: o mesmo que zoar.
ZUADA: barulho; zuera; galhofança; anarquia (“Não aguento essa zuada dos menino!”).
ZUÊRA: o mesmo que zuada.
ZURETA: ariado; abobalhado; confuso (“Sai daí menino zureta!”).